Eu não coloco em causa a validade dos ensinamentos transmitidos nessas aulas. Posso reformular o que disse ao colocar a questão de outra forma... porquê especificamente Educação Moral e Religião Católica? Porquê fazer esta sectarização? Não seria mais proveitoso ter uma disciplina mais abrangente, laica, que versasse sobre os diversos aspectos da cidadania, valores sociais, relacionamentos interpessoais, etc etc?
A resposta a esta pergunta não é muito fácil.
Por um lado, parece-me que a disciplina existe por uma questão de tradição (do género "sempre houve, não se vai acabar agora...").
Depois há outras
nuances: como seriam os valores de uma disciplina completamente laica? Poderá tal coisa sequer existir?
Não nos é possível identificar um conjunto de valores puramente laicos - as noções que temos de "certo", de "errado" e de "assim-assim" fazem parte de uma tradição e de uma herança de conceitos que, estando em permanente mutação, não podem ser desligados com uma ruptura brusca do passado.
Ora, muitos dos valores que temos connosco (atenção!!! eu NÃO disse que eram TODOS, apenas MUITOS) são valores que nos chegaram pela tradição cristã (particularmente católica). Isto não quer dizer que tenhamos que ser todos cristãos, muito menos católicos, e até os que o sejam tenham de aceitar pacatamente - temos um cérebro e é para usar.
Como se interpretará, por mero exemplo, o conceito de "tolerância" de forma laica?
O nosso conceito de tolerância estará dissociado da nossa tradição?
O nosso conceito de tolerância poderia ser puramente laico?
Como transmitir o mesmo conceito, tolerância, num país muçulamano?
Será razoável que a nossa noção de tolerância coincida com a deles?
Ou podemos sacudir-nos dizendo que a religião deles é que tem um conceito de tolerância
sui generis, embora a nossa, encapodamente, também nos tenha chegado por tradição religiosa?