Vem aí mais abstenção?
Com epicentro no Outono de 2008, a crise não se abateu logo sobre Portugal e foi depois, segundo este investigador, mascarada pelo Governo, que em 2009, ano de eleições, "tudo fez para que não se sentissem os seus efeitos".
A imersão na realidade foi adiada, mas não podia ser evitada. À semelhança dos outros europeus, a maioria antecipa agora que o pior ainda está para vir. Mas a greve geral parece ter passado à história logo no dia seguinte. Ana Belchior, socióloga, adverte: "Apesar da costumeira discussão em torno dos números, o impacto da adesão a esta acção veio no mínimo sinalizar que há um potencial de mobilização social que não deve ser negligenciado pelo Governo."
A socióloga lembra que é essencialmente através do voto, "o canal mais tradicional", que os portugueses veiculam a sua insatisfação. "Com o agravar das condições de vida, creio que se acentuarão as tendências já verificadas nas eleições legislativas de 2009, que viram crescer a expressão dos pequenos partidos na Assembleia da República."
Outra possibilidade, que também pode decorrer em simultâneo, é a de um maior afastamento e cepticismo das pessoas em relação às instituições, o que se traduzirá num aumento da abstenção, acrescenta Magalhães. Até lá, adianta, é provável que se mobilizem mais, "mas não pelos canais convencionais", aos quais tendem, mais uma vez à excepção do voto, a não reconhecer eficácia: "Mas mesmo que venha a acontecer, será sempre com níveis diferentes dos registados noutros países."Todos os estudos de opinião realizados mostram que, na Europa, os portugueses são dos que têm níveis mais baixos de participação política. Característica que Magalhães atribui sobretudo ao baixo nível de instrução ainda dominante no país. Frisa que o envolvimento tanto nas práticas políticas convencionais, como sobretudo nas que fogem a estes canais, exige algo que muitos não têm por cá: "Competência, tempo e dinheiro."
Mas os comportamentos políticos também reflectem, segundo Ana Belchior, algo que diz ser "inquestionável" - "há como que uma tradição de conformismo, passividade e impassibilidade no ser-se português".
Já a historiadora Fátima de Sá não subscreve esta premissa: "Não há qualquer particularidade na acção colectiva em Portugal que não seja situada historicamente." Explica que, à semelhança do que aconteceu noutros países europeus, com a adopção dos regimes liberais e parlamentares, deu-se "uma mudança de repertório da acção colectiva" - das formas de protesto locais e directas passou-se para outras de âmbito nacional, que "não visavam já apenas o alvo imediato de contestação".
Um exemplo: antes contestavam-se os impostos "queimando as repartições de finanças locais", depois começaram a fazer-se petições ou manifestações nacionais. Mas há muitos indícios de que os modos de protestos que surgiram "com a modernidade começam também já a envelhecer ou a mudar".
Fátima de Sá não faz prognósticos para o futuro, mas recorda uma condição: "A acção colectiva para se desencadear precisa de ter recursos mobilizáveis, tanto materiais, como culturais." E "não são geralmente as populações famintas ou os idosos de fracos rendimentos, os desempregados ou os trabalhadores precários que dispõem deles", conclui.
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