Assunto delicado.
Não sou tão radical como o Jimbo, mas reconheço razão em alguns pontos.
A Ryanair é a "personificação" do liberalismo/capitalismo no seu estado puro, em forma de empresa.
Nas escolhas entre governos de esquerda e direita, até sou mais de esquerda, no sentido em que um país deve ter o Estado a regular o funcionamento do mesmo, mantendo algum ownership de áreas principais, procurando ser eficiente (onde sempre fomos maus, o problema da nossa esquerda), não me chocando nada ter serviços privatizados, de forma a optimizar os processos e lucros...desde que, lá está, regulados pela lei em vigor. Caso contrário, para a ser um país Ryanair (o problema da nossa direita). Tudo isto aliado ao facto de sermos um povo com fácil tendência corruptiva e muita gente incompetente, e é uma pólvora. Mas o assunto aqui é outro.
Quem entra na Ryanair, como diz o Jimbo, se estiver no seu perfeito juízo, sabe que terá menos condições que outros. Se o mercado das companhias aéreas não é fortemente regulado para equilibrar os salários, por exemplo, então cada empresa subsiste da forma que pode, para os clientes objectivo que quer, desde que dentro da lei.
No reverso da medalha, um piloto inexperiente, uma assistente de bordo que não fala muitos idiomas, etc, que teriam missão quase impossível de entrar noutras companhias aéreas, têm na Ryanair uma porta de entrada. E têm de ter noção do que isto significa. Isto não dá o direito à Ryanair de os explorar, como é óbvio, mas é este aqui o caso? Ou a Ryanair cumpre as leis, ou não cumpre. Este é o busílis da questão...se é simpática, se é agradável...esse não é o objectivo da Ryanair, e quem lá trabalha, tem de ter a noção disto. Com esta política, a Ryanair está certamente bem ciente de que assim que um colaborador arranje uma oportunidade noutra companhia, o mesmo vai aceitar e a Ryanair contratra outro miudo vindo das escolas. Mas se eles aceitam isto, os colaboradores têm de aceitar também e mexer-se.
Fazendo o paralelismo, um recém licenciado normalmente começa a enviar CVs, e as empresas que aceitam contratar verdinhos, são empresas que tendencialmente querem pagar pouco, que usam o pretexto da busca do primeiro emprego e da falta de experiência/"vícios", para pagar um ordenado muitas vezes miserável...e que sabem que ou a pessoa é muito acomodada, ou dificilmente fica lá mais do que um par de anos. Pode-se dizer que são empresas que exploram os trabalhadores, quando há outras ao lado a pagar mais, a dar mais regalias, etc? Não creio. São estratégias, ninguém obriga as pessoas a enviarem para lá os CVs, a aceitarem as propostas e muito menos a ficarem...desde que as obrigações legais sejam cumpridas. Até temos casos piores...hospitais públicos, empresas privadas, etc, a usarem ilegalmente recibos verdes, dadas as condicionantes que isso implica.
Há por aí, na minha óptica, casos mais graves de exploração...não são é tão mediáticos. Se a Ryanair cumpre as leis...então não há muito a fazer. Se há áreas cinzentas...que se investigue. Se há práticas ilegais, que se usem as ferramentas legais...greves, é que acho não fazer muito sentido.