Bem, li o artigo em questão sobre o AF447 e fiquei estupefacto com os erros básicos destes pilotos e também com o treino deficiente que tiveram por parte da Air France.
O que mais me impressionou foi o facto de naquele momento, os pilotos actuaram como se fossem pessoas completamente ignorantes no que toca à aviação.
A 1ª coisa que qualquer piloto aprende nas 1ªs lições de voo é a importância de fazer o cross check dos instrumentos básicos de voo, isto é, estar sempre atento aos parâmetros mais básicos e importantes de voo: altitude, atitude e velocidade. Isto é igual para qualquer aeronave, seja um pequeno Cessna ou um gigante A380, é o mínimo e o básico para se ter segurança de voo, no entanto, neste caso, parece que ignoraram completamente as suas bases de conhecimento aeronáutico.
No curso temos uma disciplina que se chama Factores Humanos que trata do estudo das limitações físicas e psicológicas do ser humano e exemplos práticos relativos à actividade aeronáutica. Estudamos também exaustivamente vários acidentes que aconteceram na história de modo a entender melhor os vários factores que os levaram a acontecer por erro humano, (que já agora por curiosidade são 75% deles) de modo a no futuro prevenirmos e/ou evitarmos as mesmas situações.
Outra coisa que é preciso ter em mente é que lá porque um piloto tem mais de 11.000 horas de voo não quer dizer que seja mais competente que um com 1500. Inevitavelmente terá mais experiencia de voo em resultado das horas no entanto esse factor pode virar-se contra a segurança de voo e foi o que me pareceu que aconteceu neste caso. Comandante menosprezou a situação, opta por não alterar a rota e, tal era a sua confiança e conforto do alto da sua suposta vasta experiencia, ainda se ausenta do cockpit chamando um piloto que tinha acabado de acordar. Excesso de confiança, fruto de 11 mil horas de voo em que se calhar nada de mais grave lhe aconteceu e já mais que farto de fazer aquela mesma rota. A rotina é inimiga da segurança.
Também o facto de ter posto o Co-piloto "Robert" acabado de acordar contribuiu para este triste desfecho. Um piloto acabado de acordar está completamente "Out of the Loop", isto é, não sabe automaticamente onde está, para onde vai, não está dentro dos cross-checks básicos e obrigatórios e isto tudo com o avião a entrar na ITC. Durante o nosso curso, e podem perguntar a qualquer piloto de qualquer parte do mundo, ouvimos vezes sem conta estas expressões "In the loop" e "out of the loop" e a célebre frase "o piloto tem de estar sempre à frente do avião", isto é, tem de saber muito bem onde está e para onde vai, ter em atenção ao que vai encontrar (meteorologia) e ao mesmo tempo saber muito bem a sua situação actual, combustivel, tempos, parâmetros de voo, de modo a garantir a segurança do voo e conseguir antecipar ou evitar situações que a possam pôr em perigo. Isto é básico e qualquer piloto sabe disso, tenho a certeza. Além de o "Robert" estar "out of the loop" está também sentado do lado esquerdo o que, certamente, não lhe trará total conforto.
Tudo isto agrava-se ainda mais com as atitudes do co-piloto "Bonin" que parece nitidamente desconfortável devido aos efeitos da meteorologia presente demonstrando nitidamente algum medo e pânico quando a situação se começa a agravar. Para mim penso que foi este estado de "pânico" dentro da cabeça dele que o bloqueou totalmente e o fez agir totalmente ao contrário do que seria suposto. Tive alguns colegas que, nos primeiros voos, ao apanharem turbulencia assustavam-se e das duas uma: uns largavam totalmente os controlos do aviao deixando a situaçao para o instrutor, outros agarravam-se a eles e conseguiam fazer tudo o que não era para fazer até o instrutor dar 3 berros valentes e actuar. Algumas pessoas reagem assim, é a unica explicação que encontro para que o "Bonin" tenha ficado continuadamente com o stick em atitude nose up com todos os alertas e mais alguns que os sistemas e instrumentos iam dando. O facto de os inputs dados por ele não se repetirem no stick do lado esquerdo talvez parece-me ter levado o "Robert" a ficar confuso sobre o que se estava a passar. Na minha opinião deveria ter reclamado os comandos mais cedo para tentar perceber melhor a situação em vez de estar só a olhar para os intrumentos enquanto o "Bonin" continuava a cometer um erro básico e fatal que é "puxar" o nariz do avião naquela situação.
A falta de CRM naquele cockpit é impressionante, digna de um filme "rasca" americano que mete aviões e passa ao domingo à tarde na TVI...
Outras coisas que me impressionaram neste relatório foram estas:
"Unlike some of the other planes's crews flying in the region this evening, the crew of AF447 has not studied the pattern of storms and requested a divergence around the area of most intense activity." - Incompetência pura!
e...
"Otelli reports that many airline pilots (and, indeed, he himself) subsequently flew a simulation of the flight from this point and were able to do so without any trouble. But neither Bonin nor Roberts has ever received training in how to deal with an unreliable airspeed indicator at cruise altitude, or in flying the airplane by hand under such conditions." Como é possivel uma companhia como a Air France ter estas falhas no que toca ao treino, ou melhor, à falta dele, dos pilotos? E pensar que centenas e centenas de outros pilotos Air France estarão na mesma situação visto que o treino é igual para todos de acordo com os SOPs da companhia... Perigo...
Apesar de ter sido erro humano nítido, tenho muito respeito por estas pessoas, nestas situações nunca sabemos como actuariamos, só passando por elas! Paz às suas almas...