A expressão "beneficiar do passado e roubar ao futuro" reflete um julgamento económico, social e geracional sobre a sustentabilidade e a distribuição de recursos. Na história de Portugal, não existe um consenso académico ou um único facto histórico que aponte para uma geração específica de forma consensual, mas
o debate contemporâneo foca-se essencialmente em dois períodos históricos distintos:
1. A Geração do
Baby Boom (Nascidos entre as décadas de 1940 e 1960)
No debate demográfico e socioeconómico contemporâneo, esta geração (frequentemente associada à transição da ditadura para a democracia) é por vezes criticada sob essa perspetiva devido aos seguintes contrastes:
- O benefício: Beneficiaram do crescimento económico do pós-guerra, da estabilidade gerada pela adesão à União Europeia (CEE) e da entrada massiva de fundos estruturais europeus a partir da década de 1980. Foram os primeiros a usufruir de um Estado Social plenamente desenvolvido, com acesso a pensões, carreiras contributivas estáveis e habitação a preços acessíveis.
- O "roubo" ao futuro: Críticos da área da demografia e da economia sustentável apontam que o modelo de financiamento público e os sistemas de pensões criados sobrecarregaram as gerações seguintes (Millennials e Geração Z). Estas enfrentam hoje uma crise de habitação, precariedade laboral, taxas demográficas insustentáveis e a responsabilidade de pagar uma dívida pública elevada sem a garantia de que terão os mesmos direitos sociais no futuro.
2. A Geração do Fontismo e da Regeneração (Segunda metade do Século XIX)
Num plano mais estritamente histórico e macroeconómico, o período liderado politicamente por
Fontes Pereira de Melo (as décadas de 1850 a 1880) é frequentemente apontado como o momento em que Portugal mais hipotecou o seu futuro em troca de um progresso imediato:
- O benefício: Esta geração beneficiou do fim das guerras liberais e viveu o maior esforço de modernização material do país até então, construindo estradas, caminhos de ferro e pontes (o "Fontismo").
- O "roubo" ao futuro: Esta modernização não foi sustentada por receitas próprias ou pelo desenvolvimento industrial real, mas sim por um endividamento externo massivo. Os governos sucessivos contraíram empréstimos estrangeiros sistemáticos para pagar juros de empréstimos anteriores e obras públicas secundárias. Este modelo faliu e arrastou o país para a bancarrota oficial de 1892, cujas consequências económicas e de austeridade paralisaram o desenvolvimento das gerações portuguesas do início do século XX. [1, 2]