A questão da construção do TGV (na minha opinião) não pode ser analisada somente com base no investimento necessário. É preciso analisar também os benefícios que podem advir das construção de uma nova linha, e o que vai circular por essa nova linha.
Quem usar diáriamente o comboio para as suas deslocações e que use a linha do Norte (linha principal do país, por onde é movimentado o grosso dos passageiros em deslocações interurbanas e o grosso das mercadorias) constata fácilmente o quão saturada esta linha está.
A CP definiu uma hierarquia de circulação: Alfa-Pendular - Intercidades - Interregionais - Regionais/Urbanos - Mercadorias.
Com a intensidade de uso desta linha (que faz a ligação entre as principais cidades do País, mas também que faz a distribuição de todo o tráfego ferroviário para as linhas que fazem a ligação ao centro e interior do país) é bastante frequente ver comboios a serem desviados para linhas de resguardo, para aguardarem a passagem de comboios mais rápidos e manter a hierarquia de circulação definida.
Imaginemos uma situação para exemplificar: um comboio de mercadorias (último na linha de prioridade) com origem na zona centro (por exemplo Pataias - fábrica da Cimpor) e com destino Espanha, via linha da Beira Alta. Desde a origem ate à entrada na Linha do Norte faz o percurso da linha do Oeste (linha única, com desvios de cruzamento em determinadas estações). Antes de entrar na Linha do Norte, tem de aguardar na Estação de Alfarelos para ter via liberta. Espera essa que pode demorar horas, consoante a hora do dia (constatada presencialmemte por mim). Após entrar na Linha do Norte, e ser desviada para a Linha da Beira Alta ( o que acontece na Pampilhosa), e como se trata de um comboio com uma baixa velocidade de deslocação, provávelmente terá de aguardar mais algum tempo numa estação intermédia (provavelmente Coimbra) para dar passagem aos comboios prioritários. A Linha da Beira Alta não conheço pormenorizadamente, mas supondo menos tráfego que a Linha do Norte, diria que não teria tantas paragens para ter via liberta.
Com este exemplo quero somente expôr que a principal linha ferroviária do país ( à qual a linha do TGV poderá ser uma forte alternativa se permitir o transporte de mercadorias) está completamente saturada e não permite deslocações de passageiros e mercadorias com rapidez. O Alfa Pendular muitas vezes circula a velocidades reduzidas por ter na sua frente comboios mais lentos (e também por motivos de ordem técnica, uma vez que as infraestruturas da linha não permitem mais velocidade).
A ligação a Espanha por Alta Velocidade (de passageiros e mercadorias) é imprescíndivel. Quer para enviar, quer para receber fluxos. Verifico que o porto marítimo da Figueira da Foz tem ultimamente recebido um maior volume de contentores. O envio dessas mercadorias para o seu destino muitas vezes fica comprometida e atrasada nas composições ferroviárias que têm de usar a linha do norte, que para distribuição a norte ou a sul. É necessária uma alternativa a essa infraestrutura, que pode bem ser a linha do TGV (volto a afirmar, para pessoas e mercadorias).
O investimento inicial é bastante avultado, mas penso que terá retorno no futuro, basta que sejam dados os impulsos necessários.