E um dia dão por vocês sozinhos.
Cometeram erros. Entregaram anos da vossa vida exclusivamente a uma pessoa. Ficaram sem vida social e sem amigos. Tinham confiança absoluta nessa pessoa. Essa pessoa traiu-vos. Viviam exclusivamente com ela e para ela.
É necessário recomeçar do zero. Enfrentar a vida. Tudo aquilo em que acreditavam, já não existe.
Não há confiança absoluta em ninguém.
Também não há amigos. E, em determinada idade, não se vai ali ao café perguntar se alguém quer conversar connosco e ser nosso amigo.
A família é pequena e tem saúde debilitada. Não se pode incomodar com estas picuinhisses, nem com choradeiras. Ao pé deles temos que estar bem. Fortes.
Saem de casa... deambulam... vão até um café e sentam-se numa mesa e observam as restantes pessoas. Estão a conversar. Algumas soltam gargalhadas. Vou-me embora porque a cadeira à minha frente está vazia e ainda me sinto pior... eu precisava mesmo era que estivesse lá alguém.
Sigo pela Marginal até ao Guincho. O aperto no peito característico do fim violento de uma relação intensa, não me permite ouvir música. Cada nota é uma facada no pescoço, uma recordação. Fica o silêncio e o vento a entrar pelos vidros. Está frio, mas prefiro assim. Os vidros fechados fazem-me sufocar de angústia.
Páro o carro e olho pela 30ª vez para o telemóvel. Não há mensagens, nem chamadas não atendidas. De certeza que vou encontrar na lista telefónica o número de alguém que tenha tempo para mim...
Vazia.
Bom fim de semana.