Apenas vivi 6 meses fora de Portugal. Conheço vários países europeus (contas por alto em torno de 16) e poucos fora deste continente. E conhecendo outros países e outros povos, acho que tenho uma noção melhor do que realmente somos -como povo e país- do que tinha quando o meu conhecimento lá de fora era pouco ou nenhum (não assim há muitos anos).
À medida que fui conhecendo mais lá de fora, apercebi-me o quão Lisboa e Porto são cidades verdadeiramente encantadoras. Das mais bonitas que se pode encontrar. Confesso que lhes passei a dar mais valor.
Temos genericamente condições naturais boas, mas não tão excepcionais como pensamos. Sol abunda (e isso tem muito valor, particularmente quando se passa a viver em países que têm 50 ou 60% da nossa exposição solar e só quem passa por isso tem noção do que eu estou a dizer), mas também muito vento (estraga muitas noites amenas e agradáveis que teríamos o prazer de usufruir tendo em conta a nossa temperatura).
Dito isto, a "cor da luz" é fantástica, particularmente em torno do Tejo para baixo. Muita sorte nesse domínio.
Utilizamos pouco as nossas cidades, estão vazias à noite. Uma grande diferença, por exemplo, para nossos hermanos. E mesmo face a países do centro, com condições de temperatura agrestes e que mesmo assim saem muito mais à rua após o sol se pôr.
A nossa orografia é muito acidentada: má para a agricultura e para as vias de comunicação (caras de construir, viadutos e mais viadutos). E estamos verdadeiramente na periferia da Europa. Muito mais do que realmente achamos. Quando se anda de avião por essa Europa fora e chegamos mais de pressa de Zurique a Sofia do que de Lisboa a Zurique ganhamos noção do quão realmente longe estamos, mesmo comparativamente a países que são dos mais atrasados do velho continente.
Depois, há várias coisas onde os portugueses falham: são genericamente pouco educados e, principalmente, pouco polidos. Há pouca sistematização de regras sociais desde o cumprimento entre pessoas (é muito a filosofia de vida do português o outro ter que dizer bom dia), passando pelas noções gerais de se saber estar em determinado lugar (seja numa estação de comboios, seja num café, seja numa repartição das finanças seja num consultório). Seja uma qualquer conversa de circunstância. Trabalhamos pouco o polimento e funciona tudo na base da replicação do que vemos os pais fazerem e não verdadeiramente de uma cultura colectiva enraizada sobre os comportamentos que devemos ter ou não ter (como é muito patente por exemplo numa Inglaterra) e que é transversal.
Muitas vezes somos mal humorados para os desconhecidos, bem mais do que muitos países "lá do Norte" que os clichés dizem ser frios e pouco receptivos. E não é de estranhar que muitas vezes alguém que vá a uma Alemanha ou Holanda e venha de lá a dizer que não os achou nada frios. E não achou porque são mais educados e isso num primeiro contacto é muito útil.
Na Europa, por exemplo, só no Leste encontramos tal mau humor e nem posso dizer que é mau humor porque é (muito) mais uma tristeza misturada com uma desconfiança, particularmente nas gerações mais velhas (e aqui, minha opinião, tem muito a ver com a história não tão longínqua desses países mas muitos poderão discordar).
Não há grande respeito pela autoridade no trabalho, mais reverência ou então um rancor disfarçado. Parece que não sabemos lidar com ela. Estamos sempre a questioná-la, nem que interiormente.
E desorganizados. Desenrascados mas pouco organizados.
Temos hábitos enraizados que tomamos como normais, nomeadamente idas ao café e ao restaurante que não têm paralelo. As pausas para o café (god...).
Aqui levar uma marmita para o trabalho é sinal que temos o orçamento curto.
Aqui quem anda de transportes públicos é porque não pode pagar para andar de carro.
Somos assim. Como povo que ainda na geração anterior era muito pobre, a prosperidade pós-86 levou-nos a conquistar o automóvel e fazer dele um símbolo social. Algo que já é tão banal no centro da Europa, provavelmente por se estar pelo menos na 3ª geração onde a família tem carro.
Aqui não se é ninguém se não se tiver um carro. Basta ver as conversas neste fórum: o carro para pinar, o carro para engatar. Ter a carta é a emancipação. Ter o carro um símbolo de fim da puberdade sem o qual, particularmente rapazes, não se é um adulto. Algo estranho para dizer a verdade depender disso para se atingir a maturidade social.
Outras coisas...
Temos uma excelente qualidade que é saber receber bem...estrangeiros. Não recebemos com educação, recebemos com simpatia. Mas recebemos bem. Somos dos povos que menos desconfiança tem face ao que é estrangeiro, é um facto, tanto pessoas como coisas. E isso traz vantagens e desvantagens.
Outra qualidade: somos bastante solidários.
Temos uma enorme facilidade para aderir à tecnologia.
Temos uma relação com o comércio algo sulamericana: muito a cultura do shopping.
Temos jeito para línguas, particularmente na Europa do Sul somos de longe o país com maior facilidade nessa matéria, muito acima da Espanha, Itália ou Grécia...
Relativamente às estruturas sociais: temos dos melhores sistemas de saúde do mundo e a maioria das pessoas nem sequer tem noção disso.
Transportes públicos nos centros urbanos modernos (por serem recentes). É andar no metro de Lisboa e comparar com outros: um luxo.
Mesmo a nível de AEs, temos uma rede muito extensa. Já ligamos desertos a desertos. Temos ligações paralelas e tudo.
Ferrovia muito pobre, extensa mas velha e pouco funcional. Típica de um país que apostou tudo na rodovia.
Gastronomia boa, mas não somos os únicos (e parece que muitas vezes só se come bem em Portugal, mas não, lamento, mas não).
Enfim, não somos nem a maravilha que gostamos às vezes de achar mas temos muitas coisas boas. Nem de perto nem de longe temos razões para estarmos continuamente a lamentarmo-nos como país. Podemos ser dos mais pobres entre os ricos mas...isso já não é nada mau. Podíamos era estar melhor. Falta de oportunidades não deixámos de ter, a última com a entrada no €uro. Que espatifámos, infelizmente. Mas não é a reclamar que lá chegámos. É a trabalhar melhor e começar a limar as falhas...