TILT
Membro participativo
Niki Lauda: “Os jovens já não vêem os pilotos como os seus heróis”
Niki Lauda assegurou que a Mercedes tentará que o som dos Fórmula 1 seja aumentado, numa altura em que estão agendadas várias reuniões para discutir a perda de popularidade do campeonato. O ex-piloto austríaco lamentou as penalizações desnecessárias e o barulho dos motores como problemas atuais que necessitam de ser resolvidos, mas reconhece que há mais problemas.
Para Lauda, em entrevista à 'La Gazzetta dello Sport', há “várias penalizações estúpidas. Depois há o baixo som dos motores. Na Mercedes, já prometemos a Ecclestone outra tentativa para aumentar o voluime. Mas a crise real é outra coisa. Os jovens de hoje querem ficar na praia com os amigos e ver o GP no iPad. Ao mesmo tempo, eles não vêem os pilotos como seus heróis. Isso não é fácil de resolver”. O presidente não-executivo da Mercedes lamentou ainda a existência de demasiadas regras e alertou que “há limites no que os pilotos podem dizer à imprensa. Estamos num ponto de quebra”.
Ler mais: Niki Lauda
O Lauda tem razão. Hoje em dia a malta mais nova mal deve saber o nome do Campeão do Mundo. Se há 15 ou 20 anos facilmente se pensava logo no nome de meia dúzia de equipas, Lotus, Tyrrell, Brabham, Bennetton, hoje em dia devem conhecer Ferrari, Mclaren e Williams, muito por culpa das constantes mudanças.
Além do que o Lauda disse, o problema é mais profundo: para começar, a F1 elitizou-se demasiado. Antes, ligava-se a televisão ao Domingo ao almoço e lá estavam eles; hoje em dia, só os canais privados podem pagar os balúrdios que custam os direitos televisivos. Em vez de a F1 entrar pela casa das pessoas, esconde-se em canais pagos. Se nós aqui somos capazes de correr meia Internet atrás de um stream manhoso para ver a corrida, a grande maioria não está simplesmente para se chatear (ou nem sabe onde dá, sequer). Para além disso, a F1 fugiu dos meios tradicionais e recusa-se a entrar nos novos. O Lauda falou bem na questão dos jovens quererem ver a F1 nos seus iPads. O problema é que a F1 tem uma presença marginal na Internet.
Para além de poder permitir acesso às corridas ou mesmo a conteúdos exclusivos, a F1 podia facilmente disponibilizar vídeos e documentários históricos, informação detalhada de equipas e pilotos do passado mas não só não partilham como nem deixam partilhar.
Por último, a questão dos carros e das corridas propriamente ditas. Há anos, tínhamos V10 que gritavam a alto e bom som perto das 20 000rpm e com potências próximas dos 900cv. Há 30 também tínhamos motores turbo mas com uma voz rouca que metia medo ao longe e que atingiam os 1000cv. Hoje temos uns carros que fazem menos barulho que um WTCC, limitados a 12000rpm e quase com a mesma potência de um qualquer super-desportivo. Temos regras difíceis de compreender até para quem segue atentamente, quanto mais para quem vê esporadicamente. Há obrigatoriedade de usar dois tipos de pneus (há coisa de 2 anos, salvo erro com o Perez na Sauber, houve uma corrida em que a Sauber se arriscava a ganhar sem parar devido às várias incidências da corrida. A 3 voltas do fim lá teve ele que parar para mudar pneus só porque sim), podem usar não sei quantos pneus, se estiver a menos de X distância em tal parte do segundo pode usar um truque para ultrapassar (não era muito mais simples simplesmente liberalizarem o uso do DRS e quem tem unhas que use à vontade?), qualquer toque dá penalização, se for em tal parte da pista pode-se pisar o limitador mas se for mais à frente já não se pode, tem que ter cuidado porque já usou 3 motores, 2 caixas de velocidas e 4 jogos de discos de travões, senão vai para o fundo da grelha... É demais. É preciso um manual de instruções para ver as corridas.
Para terminar (afinal ia-me esquecendo de um ponto), há a questão do calendário. Eu sei que quem tem dinheiro para este Circo actualmente é a malta carregada de petrodólares e outros que tal mas a maior fatia do público da F1 está na Europa e levar uma competição para longe dos seus adeptos sem conseguir atrair novos pode ser um risco para o futuro da modalidade.
A Fórmula 1 não pode viver só daqueles maluquinhos que se levantam às 4h da manhã para ver as corridas em streams manhosos e vão para o Autohoje comentar. Com o investimento que requer, tem que ser um desporto de massas que atraiam patrocinadores e permitam proximidade com os adeptos senão daqui a uns anos vai ser só uma recordação de uma coisa gira que houve em tempos.