É um pouco mais complicado que isso. A entrevista foi feita por 3 jornalistas. Um alemão, um italiano e um brasileiro. Parece que a parte mais polémica foi levantada pelo italiano, mas em todo o caso, o Button deve ter respondido em inglês, portanto, mesmo que tenhamos o artigo italiano original, será sempre uma tradução do inglês de Button.
A comunicação social tem destas coisas... tanto que a parte brasileira já avançou que houve erro, pelos vistos, da parte italiana.
Fica o texto:
Presente na entrevista publicada na Autosprint nesta semana, TotalRace traz as declarações do inglês sobre espanhol
Repercutiu nesta semana no Brasil a entrevista de Jenson Button à Autosprint, na qual o campeão do mundo de 2009 afirmava que não trabalharia com Fernando Alonso.
Em muitos casos, quando há um desvio em tradução, o erro é cometido no Brasil. A notícia de Button, no entanto, teve como ponto de partida para o erro coletivo nas mídias brasileiras o título da reportagem no site da Autosprint: “Nunca com Alonso”. Em nenhum momento, Button disse a frase.
Vale explicar como funcionam as entrevistas de Button, assim como as de seu companheiro, o também inglês Lewis Hamilton. A McLaren adota o sistema 3to1, quando três jornalistas de mídia escrita se encontram com cada piloto por cerca de 20 minutos. O procedimento é feito para que todos tenham acesso aos profissionais, que contam com agendas apertadas.
A entrevista mencionada foi realizada na sexta-feira do GP da Hungria, e reuniu um jornalista italiano (da Autosprint), um brasileiro (Felipe Motta, repórter do TotalRace) e um alemão (agência SID).
Em entrevistas como essas, é comum que o assunto abordado mude bastante, pois cada repórter toca no ponto que lhe gera mais interesse. Na metade da conversa, o repórter da Autosprint quis repercutir a declaração de Button sobre ter sido procurado pela Ferrari (o depoimento aconteceu na sexta-feira do GP da Alemanha e foi dado na zona mista para os jornalistas Luis Fernando Ramos, do TotalRace, e Pino Allievi, da Gazzetta dello Sport).
A resposta de Button para a pergunta do repórter da Autosprint sobre manter contato com ferraristas foi: “Sempre falo com pessoas da Ferrari. Stefano é um cara que vejo no paddock em todo fim de semana de corrida e sempre falamos ‘olá, como você está?’. Ele sabe da minha situação e sabe que tenho contrato para os próximos anos. Não acho que há razões para que ele insista em minha direção.”
Na sequência, Alberto Antonini quis saber se ele não se sente orgulhoso de ter sido procurado por uma equipe como a Ferrari. “Quando olhamos onde estou, dirijo para um dos melhores times do mundo. Um time que alcançou muito. E claro que quando olhamos para o time vermelho é a mesma sensação, pois eles alcançaram muita coisa no esporte. Eles são um time muito apaixonado. Os italianos são muito apaixonados, especialmente no esporte, no automobilismo. Mas esse é o lugar correto para mim agora [McLaren]. Mas nunca podemos dizer nunca.”
Geralmente, em entrevistas 3to1 cada jornalista faz duas perguntas e o outro dá sequência. Nestes momentos, é comum ver o assunto migrando para algo completamente diferente. Pelo tema estar rendendo, Felipe Motta questionou Button se ele achava que agora Alonso sabe como dividir uma equipe, já que cinco anos atrás, na McLaren, foi um caos completo. Estaria o espanhol mais maduro para dividir [a Ferrari] de forma igual com outro campeão? A resposta literal de Button foi: “Se você der a ele uma oportunidade não, ele não dividiria. Acho que ele é um piloto muito inteligente. Em um universo paralelo, adoraria trabalhar com ele. É bom trabalhar com um companheiro que tem uma cabeça forte e também é esperto no jeito que se trabalha. Eu admiro isso, especialmente com Alain Prost."
"É sempre um desafio ter de lutar com alguém assim. Ele tem uma atmosfera excelente na Ferrari. Acho que ele tem ótimas pessoas o cercando. Lamento por Felipe, mas sinto que Fernando tem todo o time ao seu lado. É compreensível porque mesmo que ele não fosse uma boa pessoa ele dominaria o time pelos resultados, porque resultado é o mais importante para uma equipe. Mas além disso ele tem uma boa personalidade. Não estou dizendo que Felipe não tem, mas acho que Fernando fez um ótimo trabalho de ter certeza que o time é dele, e isso é porque ele é esperto.”
E já agora, uma análise interessante, concorde-se ou não:
Acredito que o texto feito pela reportagem local do TotalRace deixe bastante claro como foi a entrevista de Jenson Button na Hungria, da qual participei com um colega italiano e outro alemão. Seria repetitivo da minha parte estender no assunto.
Mas acho que a entrevista abre espaço para algumas reflexões importantes. Lemos nos últimos dias especulações envolvendo o possível substituto de Felipe Massa na Ferrari. Se de fato a saída de Massa se confirmar, o que parece neste momento um caminho natural, qual o interesse de Button, Sebastian Vettel e Kimi Raikkonen se juntarem a Fernando Alonso na Ferrari.
Sinceramente, para mim o cockpit ferrarista é um dos “piores” do grid. Quando perguntei a Button se Alonso estaria pronto para dividir uma equipe com um outro campeão, sua resposta foi emblemática: “Se você der a ele uma oportunidade não, ele não dividiria.”
O que Button quis dizer? Se Alonso puder determinar quais os rumos do time, não ele não vai dividir o espaço com ninguém. E atualmente na Fórmula 1 todos sabem que Fernando manda e desmanda na Ferrari.
Por esse motivo, pergunto – quem na posição de Button, Vettel e Kimi, pilotos que dispõem de bom equipamento e a possibilidade de guiar para vencer, iria arriscar ser o segundão de Alonso? Eu sinceramente me surpreenderia muito se um dos três tomasse esse caminho no futuro (não me refiro nem a 2013).
E não se trata da questão “simples e pura” de compartilhar a equipe com Alonso. Dividir um time com o espanhol é uma coisa. Dividir a Ferrari é outra. Daí a resposta de Button à minha pergunta: “Em um universo paralelo, adoraria trabalhar com ele”. O universo paralelo não significa um mundo de contos de fadas, onde monstros e príncipes vivem em constantes duelos. O universo paralelo a que Button se refere é uma equipe que não a Ferrari, times como Red Bull e McLaren que permitem que seus dois pilotos duelem em igualdade de condições. O que Button disse, em outra palavras é – “em uma equipe que eu possa confrontá-lo de igual para igual seria um grande prazer, pelo desafio de se tentar bater um cara como Alonso”. E claro, esse mundo não existe na Ferrari, daí a necessidade de um “universo paralelo”.
Claro que quando afirmo que o cockpit da Ferrari é um dos piores do grid, refiro-me aos pilotos de ponta. Imagine qual difícil é derrotar Anderson Silva no MMA. Agora imaginem desafiá-lo com uma das mãos amarrada. É mais ou menos isso que Button, Vettel e cia teriam pela frente. Para Sergio Perez, Nico Hulkenberg e outros talentos jovens, tudo é lucro. Vale a pena viver uma situação assim quando se ter 22, 23 anos. No mais, esquece.
Ou alguém acha que valeria a pena para um campeão ir enfrentar Alonso em sua zona de conforto?
Coluna Felipe Motta