Estamos neste momento a assistir a uma pandemia mundial sem precedentes, apesar de a taxa de mortalidade ser relativamente baixa nao há sistema nacional de saude que consiga resistir a milhares de pessoas a procurar por ajuda ao mesmo tempo...é natural que vá chegar a uma certa altura em que os médicos mesmo que oficialmente ou nao, irao ter de decidir em quem vale a pena investir o tempo/recurso por provabilidades de essa mesma pessoa viver ou nao.
Isso é independente da eutanasia, por isso sim a comparacao é demasiado triste para conseguir explorar muito sob a forma de comentários.
como já disse antes, eu, enquanto pessoa, quero ter o direito de em caso de decidir por termo a minha vida, por nao ter mais solucao.
Consegues explicar porque razao haverei eu de estar privado dessa liberdade?
não pretendo convencer ninguém, até porque as pessoas não são "convenciveis" com argumentos racionais, mas sim por emocionais
no entanto o que se sabe é que pelo menos metade das pessoas, eu e tu, toca a todos, vai precisar de cuidados paliativos, seja aqui seja na holanda, seja no chile
no entanto o que vemos nos paises que aprovaram a eutanasia e a sua aplicação ainda não deslizou para praticas abusivas e muito duvidosas, como na belgica e na holanda aonde começaram a matar pessoas com depressão ou sem autorização expressa dos doentes , etc é que apenas uma parte bastante pequena dos doentes pede a eutanasia, no hora H a grande maioria quer viver e então se lhes derem acesso a cuidados paliativos isso ainda é mais acentuado
também vai da observação empirica que muitas familias anseiam porque o doente morra, para deixarem de ter trabalho, deixarem de ter despesa, para deitarem as unhas à herança e muitas vezes fazem sentir isso ao doente, nem que seja esporadicamente em momentos de tensão ou conflito com o doente
sem a possibilidade da eutanasia a família e a sociedade não consegue pressionar o doente para ele pedir a morte, lembro que mesmo em situações terminais o que se verifica nos paises que já aprovaram a eutanásia e esta é aplicada sem abusos é que a esmagadora maioria dos doentes quer viver, na ordem de mais de 95% destes, afinal a % de pessoas eutanasiadas nesses paises é na ordem dos 0,5%. Dados estatisticos que me lembro de memória. Claro que podem ter momentos de maior desespero, mas de forma consistente querem viver, a percentagem de pessoas . Provavelmente quase todos eles diziam, quando estavam saudáveis que naquelas condições prefeririam morrer, mas em chegando essas circunstancias o apego à vida prevalece, as pessoas querem viver mais um pouco, para ver como crescem os netos, se o clube dele vence o campeonato, etc querem viver e se sentirem amados por aqueles que amam até são mais felizes que muitos que não estão doentes. Normalmente como aqui testemunhou o avant, que é médico, e testemunho eu quando contacto com esses doentes a vontade de morrer, o sofrimento fisico da quase totalidade desses doentes existe quando não se lhes proporciona acesso a bons tratamentos médicos, a bons cuidados paliativos
a legalização da eutanasia altera tudo isto.
para os polticos fica mais barato que o doente morra e doente terminal não vota. logo a tendencia será para desinvestir em cuidados paliativos, que na pratica se verifica ser a opção preferencial de quase todos os doentes em fase terminal.
logo a circunstancias para quase todos nós irão piorar só por aí
mas o principal é a família, uma querem que o familiar viva e até pressionam que se aplique a distanásia, o que também é um erro frequente
mas outras querem é ver-se livre do doente, lembro que portugal é dos paises com maiores taxas de violencia e abandono sobre idosos
ora em não existindo a possibilidade legal de o doente pedir para morrer a familia não pode exercer pressão sobre o doente nesse sentido, em existindo ela vai existir em numerosos casos, para esses doentes a vida irá piorar muito, para além das dores fisicas da doença será acrescentada a tortura psicologica da familia que pressiona para que ele morra, sentirá essa rejeição profunda no final da sua vida
esses doentes serão muito mais numerosos que aqueles que desejam livremente, sem coação, realmente a eutanasia
depois, com o passar do tempo, veremos uma coisa que compreendo que seja muito dificil de entender hoje, mas já se verifica na holanda e na belgica e irá aumentar muito mais ainda porque quantos mais paises legalizarem a eutanasia mais isso ocorrerá
a normalização dessa eutanasia irá alterar a mentalidade/cultura da população, na logica do materialismo utilitarista cada vez mais dominante o doente que não pede para morrer está a ser egoista, é um peso para a sociedade e para a familia
daí que se vejam cada vez mais paises que negam tratamentos a doentes, principalmente idosos, por exemplo, não é por falta de dinheiro de paises ricos, que doentes hemofilicos deixam de ser tratados pelo sistema publico de saude a partir de determinada idade, é que a cultura desses paises leva a isso
quem não vê que a mesma cultura vai inevitavelmente levar a um desinvestimento nos cuidados paliativos? é-me mais que evidente
a possibilidade legal da eutanasia numa logica de utilitarismo materialista faz com que o doente para não prejudicar a sociedade em geral e a familia a quem dedicou a vida, para não ser egoista, para não ser isto como um cobarde inutil e egoista deva deixar de ser um inutil peso dispendioso, deva pedir a morte, já que essa porta está aberta
os exemplos cada vez maiores de outras pessoas que pediram para morrer apontarão nesse sentido, servirão para aumentar a pressão nesse sentido
o que se verifica atualmente, estatisticamente e verifica empiricamente quem convive com doentes terminais, é que na sua esmagadora maioria as pessoas agarram-se à vida, mesmo em situações terminais, principalmente se tiverem acesso a cuidados paliativos adequandos
mas com a porta da eutanasia aberta à dor fisica será acrescentada progressivamente uma cada vez maior tortura psicologica, uma nuvem negra dentro da cabeça do doente, a dizer
és um inutil que dá despesa e trabalho, o teu dever, para não prejudicares os teus filhos, o teu marido, a tua esposa, é pedir para morrer, está a ser egoista ao não o fazer
como o apego à vida prevalece quase sempre, para a quase totalidade dos doentes (e cada vez mais não serão apenas os terminais ou sequer os incapacitados, basta não serem lucrativos para a familia ou a sociedade) a sua situação piorará
haverá exceções, mas serão muitissimo menos que as pessoas que em normais circunstancias querem viver
quase todos diziam, naquelas circunstancias queria era morrer, mas na hora H, o que verifica é que na realidade não o querem
é quase certo que aqueles que hoje desejam a legalização da eutanasia, a maior parte das pessoas, irão ter o que desejam
também é quase certo que quando chegar a hora aonde a doença fatal lhes tocar à porta essa legalização servirá para piorar a sua situação, vão querer viver, mas a sociedade vai fazer-lhes sentir que estão a ser cobardes e egoistas, acrescentando uma imensa dor psicologica à dor fisica, dor fisica essa que regra geral será maior do que seria se não existisse a possibilidade da eutanasia, porque entretanto não se investiu devidamente em cuidados paliativos
não vejo uma solução perfeita, porque uma solução perfeita implicaria pessoas moralmente perfeitas, a legalização da eutanasia seria a melhor escolha se as pessoas fossem moralmente excelentes, mas regra geral estão muito longe de o serem