Sobre a dita rapariga do “dá-me já o telemobél”, sobre o ensino publico básico e secundário, sobre os professores, sobre os próprios telemóveis e sobre as operadores de comunicações moveis, algumas considerações.
Assisti ao nascimento de um dos assuntos mais polémicos dos últimos dias. Num dos fóruns que frequento, um membro surgiu com o famoso vídeo do ‘Tube e outros tiveram a ideia de o enviar para a comunicação social. Enviaram. Mal sabiam eles o monstro que tinham acabado de criar… Vou-me abster de contar a história, porque, diabos, quem não a conhece?
Várias correntes de opiniões surgiram:
- Por um lado, os “old school”, defensores acérrimos da palmatória, das famosas meninas-de-cinco-olhos, das chibatadas no pelourinho, provavelmente aqueles que elegeram o Prof. Oliveira de Salazar como maior português de sempre. O seu discurso é pautado pela constante repetição da expressão “isto no meu tempo não era assim”. Curioso também que alguns jovens de 25 anos identificam-se nesta corrente de opinião.
- De um outro lado desta trincheira, os “pedopsiquiatras”, que defendem que a rapariga é uma vitima de um cruel conjunto de factores que levaram a esta reacção desesperada que mais não foi do que um “grito” dos seus instintos zelando pela sua sobrevivência num mundo cão.
- Não falta também quem diga que a culpa é da professora. Porque a professora isto, porque a professora aquilo, não foi uma profissional eficiente e não soube tratar correctamente do assunto. Deixo aqui o repto (o réptil, como gosto muito de dizer) para se organizarem acções de formação subordinadas à temática “gestão de crise”.
- Numa outra face da questão, existe a corrente de opinião que impinge a culpa aos pais. Na minha opinião pessoal, talvez sejam os pais aqueles que têm maior fatia de culpa em situações iguais ou semelhantes. Não conheço toda a história de vida da rapariga, mas já se sabe as maravilhas de uma boa educação. Contudo há outros factores. Esta corrente de opinião, na sua forma mais popularucha, defende que os pais deviam de lhe ter dado umas boas lambadas quando ela faltava ao respeito assim nestes modos. Talvez sim, talvez não.
- Por fim, os culpados do costume, a corrente de opinião mais omnipresente de todas, “a culpa é do governo”. Atribui-se as culpas ao Governo, ao Sr. Pinto de Sousa e à Ministra da Educação (cá para mim, só falta sugerir a criação do Ministério da Má-Educação para tratar destes casos e outros que tais), corrente de opinião que é difundida pelas mesmas pessoas que votam no BE e no PCP.
(Há também a corrente de opinião conspiracionista que se traduz no seguinte: Toda esta polémica foi forjada, para levar a escola Carolina Michaelis a tocar de nome. Trocando por miúdos, um escândalo desta envergadura mancharia o “bom” nome da secundária Carolina Michaelis, levando esta mesma escola a trocar de nome. Porquê esta conspiração, perguntam vós? Ao que parece, os autores da conspiração acham Carolina Michaelis um nome horrível, e há que muda-lo o quanto antes!)
Ora bem, temos aqui cinco correntes de opinião diferentes, que se esbarram num pentágono de marradas. Apesar de serem diferentes, o seu objectivo é comum – encontrar, não os culpados, não o que levou a que esta situação acontecesse, mas sim – encontrar BODES EXPIATORIOS.
Vamos lá reflectir, com lucidez, sobre a questão. Agora, que o facto já se sucedeu, o que é que interessa em primeiro lugar? Surgem várias hipóteses:
- Encontrar os culpados para cortar o mal pela raiz.
- Punir a cachopa exemplarmente
- Não fazer nada porque coisas destas acontecem.
Não fazer nada é, obviamente, a pior das hipóteses. Sentar o nalguedo na cadeira, cruzar os braços e assobiar para o ar não resolve coisíssima nenhuma, e temos aqui uma situação que precisa ser resolvida, e o tempo urge, porque a implacável maquina da comunicação social aliada à não menos implacável opinião publica demanda uma resolução para este caso. Para ESTE caso, um dos muitos que acontecem um pouco pelas escolas de todo o país. Pelo que vi, a aluna trocou de escola, assim como a bestinha que filmou e teceu comentários jocosos de baixíssimo nível, de nível quase tão baixo quanto os meus, quando estou naqueles dias de estupidez máxima. Ao que parece, também a professora não apareceu. Se calhar apareceu, com a cara pintada de preto, mas é apenas uma suposição.
Punir a rapariga e a bestinha realizadora do filme parece-me o desfecho mais aceitável. Ora, o mal está feito, penaliza-se os prevaricadores, FIM. Não é cá preciso mais polémicas.
Encontrar os culpados… Esta solução já é mais encorajada pelo duo Comunicação Social/Opinião Publica (CS/OP), pois vejamos – Quantos de nós não fomos alunos e quantos de nós não somos parentes de miúdos ou mesmo pais e temos conhecimento de situações deste tipo? O que é que interessa nessas situações? Que se resolva a situação CONCRETA, que fulano tal deixe de ter atitudes tais.
Aquilo que este caso tem de diferente é que a CS induz a OP a procurar os culpados de TODAS as situações para as extinguir, por isso temos sido bombardeados ultimamente com meia dúzia de queixas por dias de professores que dizem ter sido vítimas de violência por parte de alunos. Sempre a houve, e sempre se soube que havia.
A CS manda a farpa, “ah e tal, existem situações delicadas deste calibre, então Estado, então portugueses, não pode ser!”, e a OP endrominada “pois não pode ser, temos que por fim a isto, assim não dá”.
Ninguém quer ignorar estas situações, apenas não acho proveitoso transforma-las numa cruzada a nível nacional. Primeiro porque cada caso é um caso, e podem ser diferentes as causas, ou porque a rapariga é má por natureza e nunca teve pais que a educassem, ou os pais talvez sejam maus também, ou a rapariga está a atravessar uma fase difícil, ou anda em más companhias, etc.
É impossível, a meu ver, criar um conjunto de medidas com pés e cabeça para se acabar com estas situações. Mesmo que haja uma regra que diga “Os alunos que batam nos professores serão fuzilados com 7 rajadas de arma automática de grande calibre em praça pública ao pôr-do-sol no dia em que cometeu a infracção”, isso vai impedir um aluno violento com fortes convicções suicidas de bater no professor? Se calhar não.
Lanço o apelo para que se fomente a boa educação das crianças, por parte dos pais. O facto de, cada vez mais, os pais serem bastante ausentes da vida dos filhos é uma má influencia. Os filhos ficam entregues ao deus dará, com o que e que se educam? Com os amigos? Com o telemóvel? Com os Morangos Com Açúcar? Usam e abusam das mensagens grátis, 1500 por semana, levando muita gente a chamar à criançada nascida nos anos 90 como a “geração 1500 sms”. Não me parece que seja por aí. De facto, muita miudagem se abstraí das aulas e do mundo em redor quando manda sms, mas se não fossem sms eram desenhos ou outras coisas. É ou não é verdade? As operadoras limitam-se a fidelizar clientes da maneira que elas bem entenderem. Hoje há os Morangos, mas antigamente havia a Malhação e a New Wave e não via ninguém a apontar o dedo às mesmas, dizendo que elas influenciavam comportamentos menos bons da juventude da altura. Não creio que os Morangos e a Malhação sejam assim tão diferentes quanto isso. Quando eu era miudinho, a culpa dos comportamentos violentos era atribuída ao Dragonball. Ora, o que é que o Dragonball e os Morangos com Açúcar têm em comum, para além dos penteados esquisitos? Talvez o facto de serem mais um bode expiatório, para se apontar o dedo e dizer "é este o culpado do mau comportamento das crianças".
O que é que eu vejo de diferente? O desinteresse crescente da parte dos pais pelos próprios filhos. Sempre houve pais que mostravam desinteresse, mas hoje parece que ainda há mais. Não é preciso alongar-me muito nisto, toda a gente sabe que hoje em dia uma das grandes preocupações dos pais é ter um sítio onde deixar o filho durante 10 a 12 horas por dia. Contudo, continuo a achar que os pais não são 100% culpados disto.
A história está repleta de episódios protagonizados pela rebeldia dos jovens, faz parte da natureza humana, não há volta a dar. Sendo assim, o meu apelo primordial é este:
Pais, professores, avós, família em geral, encarregados de educação, tutores e outras pessoas que ensinam a vida – Ensinem a juventude a ter cabecinha para pensar, para que a rebeldia de hoje se transforme na lucidez de amanhã.