Esta postura dos responsáveis da marca já começa a cheirar mal. Nem parece que passaram anos e anos fora do segmento D e E,e mais ainda fora do mercado americano para onde esse discurso está dirigido.
Estamos todos com muita expectativa para os novos produtos e para o reposicionamento da marca que vem sendo falado, mas primeiro ponham produtos bons cá fora e deixem os produtos falar por si. Para o bem e para o mal, a Alfa sobreviveu na última decada à custa de segmentos C e até B, e quem comprou estes produtos, ajudou a suportar a marca. Esta postura de quase desprezo por segmentos inferiores, sendo que a marca vende neste momento esse produtos, chateia-me, e de que maneira, como cliente da marca.
Os Alfas não deveriam ser hatchbacks familiares, mas sim maquinas de segmentos superiores com beleza invulgar e powertrains a condizer? Isso é outra discussão, mas não se pode varrer a última década de produtos para baixo do tapete, e os clientes juntamente com isso... Além de que estes carros podem continuar a gerar o volume necessário para os 4C's e afins aparecerem sem injeções de capital monumentais.
Consistentes sem dúvida, a descontinuar produtos sem apresentar substitutos, e a proclamar um grande produto que há de vir mas tarda em chegar.
Desculpem o desabafo, tenho grandes expectativas para o Giulia e continuo a ser fan de todos os produtos que a marca atualmente apresenta, mas precisamente por isso e por ser cliente, chateia-me este discurso...
Mas o discurso do homem é totalmente focado na realidade norte-americana.
Transpor isso para a Europa nem sequer deveria ser considerado, quando está nos planos da marca a substituição do Giulietta.
O A3 sedan e o CLA vieram trazer um novo tipo de clientela às respectivas marcas nos EUA. Movimento que foi bastante comentado.
Temos de compreender o contexto americano para perceber o porquê desse aparato.
Não faz muitos anos, marcas como a BMW e a Mercedes só vendiam motorizações de 6 cilindros para cima nos EUA. E as suas gamas começavam no nosso segmento D.
A aceitação do mercado americano ao fenómeno do downsizing, permitiu incluir 4 cilindros sobrealimentados em carros como o série 3, por exemplo.
E agora a Mercedes aparece com um sedan abaixo do C, com motores de 4 cilindros, tudo à frente e lançado com um preço de combate de 30 mil dólares. Heresia, não?
Os comentários do sr. Bigland são mais que justificados e reflectem outros dos media no mesmo sentido, e mais uma vez, sempre focados na realidade americana.
De que forma esta entrada em segmentos mais baixos poderá afectar a imagem e percepção da marca? A curto prazo todos vão regozijar-se com o aumento de vendas, mas e os efeitos a longo prazo? E como essa guerra de preços afectará as preciosas margens?
Regressando à Alfa, e ao foco mais que estabelecido em vingar no mercado americano, servindo de trampolim para a pretendida globalização do simbolo, é muito importante conseguir criar o impacto apropriado e construir um certo tipo de imagem. Uma que não leve a discussões como estava a ter no tópico do Giulia, onde é colocado o Chrysler 200 como o rival interno a bater. O que é descabido, considerando os posicionamentos pretendidos das respectivas marcas e dos modelos, sem falar no preço. Pode-se conseguir um 200 por 20 e poucos mil dólares, mas um A3 sedan ou CLA, tem de se desembolsar sempre mais de 30 mil, o que é uma diferença considerável.
Se eles vão atrás dos big-boys, como o série 3, classe C, A4, ATS ou IS, não pode haver a minima probabilidade de se confundir o posicionamento do Giulia com outros modelos de carácter mais mainstream.
É nessa atmosfera que se encontram as desejadas margens associados a volumes decentes.
A realidade europeia é distinta da americana. Aqui tivemos classe A posicionado no segmento dos utilitários e agora no seg.C, Audi A2 e agora o A1. O mercado não tem nada a ver.
A gama Alfa, se todos os planos baterem certo, terá como degrau de acesso o sucessor do Giulietta. E também este será uma criatura distinta e pelo que se prevê única no segmento, já que quando chegar ao mercado deverá ser o único segmento C com RWD, o que lhe dá um argumento de vendas único, com a confirmada viragem do série 1 aos tudo à frente.
Quanto ao segmento B, acho que é perfeitamente sacrificável. O MiTo, também por culpa da falta de investimento da marca, já não tem forças para combater mesmo nada. E sinceramente, como um Alfa, dificilmente convence.
E a entrada no segmento B por parte da Alfa deu-se mesmo apenas com o MiTo. Não é propriamente entregar o bastião da marca.
A estratégia agora abraçada de criar um fosso entre a Alfa e a Fiat, com soluções de raiz, ou adaptadas de criaturas mais exclusivas, aproximando a Alfa à Maserati e Ferrari deveria ter sido a única estratégia perseguida desde sempre.
É necessário, a meu ver, esse afastamento da "plebe". É fundamental que o símbolo se torne novamente aspiracional para que esta reinvenção mirabolante da marca funcione a longo prazo.