Vaz. "O Pedroto ofereceu-me a sua medalha de vencedor da Taça"
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Guarda-redes do Vitória europeu e do Sporting campeão é dono do restaurante A Baliza em Setúbal
Qual o nome ideal para um restaurante gerido por um antigo guarda-redes? Não é preciso dar assim tantas voltas à cabeça, é "A Baliza" e pronto. Quem a sabe toda é Vaz, vencedor da Taça de Portugal pelo Porto em 1968 e campeão nacional pelo Sporting em 1980. Natural de Penalva do Castelo, Vaz instala-se em Setúbal, onde fecha a baliza do Vitória durante oito épocas (1970-78) e só depois abre A Baliza. O restaurante só dá peixe (quem se arrisque a pedir um prego, está a cometer um erro tremendo; um frango na gíria futebolística) e é ele mesmo quem o grelha. "Costumam vir cá muitos ex-jogadores: Peres, Octávio, Calado, Barão..." Em domingo de Vitória-Sporting, e com o clássico marcado para daqui a uma semana, nada mais apropriado do que falar com Vaz. Ouçamo-lo.
O Vaz deve ser caso único na história, não? Da 3.ª divisão para o Porto...
É possível que sim, mas naquele tempo o FC Porto não era isto.
Isto?
Isto de ganhar títulos. E mesmo que fosse já assim, não gostava do FC Porto. Nunca foi um objectivo jogar lá.
Então?
Só fui para lá porque o presidente do Penalva do Castelo, onde eu jogava, era portista e dominava a cidade, era dono de meia cidade, vá. Então 'tá a ver, o negócio fez-se.
Mas era-lhe vantajoso, imagino.
No Penalva, ganhava 300 escudos e era amador, jogávamos aos domingos e treinávamos uma vez ou duas por semana. No Porto já era a sério: treinos diários e 1500/2000 escudos.
Mesmo assim, não lhe puxava.
Nada. Não gostava do FC Porto, pronto. Além disso, estava a fazer a tropa em Coimbra o que me limitava bastante o raio de acção. Se eu já fui para o Porto como terceiro guarda-redes, imagine se não treinava nas Antas durante a semana. Só ia lá durante os jogos. E nem jogava. Ou seja: além de não gostar, não treinava.
E não jogava.
Mais essa. Não podia jogar, de facto, só se o Américo e o Rui estivessem lesionados.
Gente boa?
Sim, sim. O Rui era fantástico, tal como o Aníbal, o quarto guarda-redes. O Américo era aquele do Mundial-66, tinha um estatuto importante no FC Porto.
Então quando é que jogou?
Olhe, fui para o FC Porto em 1967 e só consegui estrear-me no meio dessa época, lá para Março [exactamente, dia 17], com o Sporting da Covilhã, para a Taça de Portugal. Ganhámos 5-0.
E jogou porque...
Precisamente porque o Américo e o Rui estavam lesionados.
E só durou um jogo?
Não, joguei também a segunda mão, na Covilhã. Ganhámos outra vez, por 4-0. O Sporting da Covilhã estava na 2.ª divisão.
E depois?
Depois eliminámos Belenenses nos quartos-de-final e Benfica nas meias-finais para chegarmos ao Jamor.
Final com quem?
Vitória de Setúbal, ganhámos 2-1.
E o Vaz jogou?
Nããão. Naquele tempo, não havia 16 convocados, sabe? Só 12. Os onze e um guarda-redes suplente. O titular foi o Américo, o suplente o Rui.
E então?
O Pedroto era o treinador. Ele já morreu, por isso as pessoas acreditem ou não mas ele ofereceu-me a medalha de campeão. Não a quis, que a desse ao Américo ou ao Rui. Então se eu não joguei no Jamor.
...
Verdade seja dita, o Porto tinha de jogar com a melhor equipa. Ainda por cima, aquele Porto de gente séria e poucos títulos. Num mundo dominado por Benfica e Sporting, qualquer oportunidade para o Porto ganhar o que quer que fosse era de apostar na melhor equipa e o Pedroto puxou pelo Américo, claro. Ele era melhor que eu, ponto.
Mas...
Outra verdade seja dita, o Pedroto saiu do Porto na época seguinte e assinou pelo Vitória de Setúbal. E sabe quem levou com ele?
O Vaz.
Exactamente. Ele gostava de mim porque dizia o que me ia na alma. Se havia motivos para protestar, protestava. Se havia motivos para criticar, criticava. O Pedroto também era assim, não se coibia de dizer o que pensava. Por isso, levou-me para Setúbal.
E aí passou oito épocas em grande.
Pois foi, grandes tempos em que o Vitória não se assustava com ninguém. Cá dentro e lá fora, porque nós fomos duas vezes seguidas aos quartos-de-final da Taça UEFA [eliminados por Tottenham em 71/72 e Estugarda em 72/73].
O Vaz era titular?
Alternava com o Torres, um grande guarda-redes. O Pedroto fez a sua gestão mas depois voltou ao Porto. Eu fiquei em Setúbal.
Mas não para sempre.
Transferi-me para o Académico de Viseu em 1978. Como sou do Penalva do Castelo, a 30 quilómetros de Viseu, aquilo foi como regressar a casa e continuar a jogar na 1.ª divisão. Mas nem valia a pena termos começado o campeonato, aquilo não tinha condições nenhumas, ninguém ligava à gente. Mal começámos, já estávamos na 2.ª divisão [sempre último classificado, da 1.ª à 30.ª jornada, com uma sequência final de 10 derrotas seguidas, as duas últimas 5-0, com FC Porto em casa e Benfica na Luz].
Segue-se então o Sporting. Como é que um guarda-redes da sua idade vai parar a um grande?
Eheheheh, tinha 34 anos quando o pessoal do Sporting veio ter comigo para assinar como terceiro guarda-redes, porque já lá estavam o Fidalgo, ex-Benfica, e o Justino, que era da casa e agora é adjunto do Fernando Santos. Como terceiro guarda-redes, perguntei indignado, mas quem é que assina isso. Mais vale assinar para lutar pela titularidade e assim foi. Sabe o que aconteceu? O titular fui sempre eu.
Então?
Não sei, fui titular.
A experiência conta?
Talvez, troquei as voltas a muita gente. Quando entrei na equipa, para o lugar do Fidalgo, o Sporting nunca mais perdeu e foi campeão, embora não tivesse jogado os dois últimos jogos, em Guimarães (o do autogolo do Manaca) e com a U. Leiria em Alvalade, porque parti um dedo.
Isso é...
79/80. O Porto era bicampeão e estava lançado para o tri. A quatro jornadas do fim, fomos jogar às Antas. Eles à frente por um ponto e com a festa toda preparada. Já tinham tudo: foguetes, champanhe e até convidaram os sportinguistas António Garrido e o Mário Luís. O primeiro foi o árbitro e veja lá bem ainda hoje é empregado do Porto, o segundo fiscal-de-linha. Aquilo foi uma roubalheira.
Ai sim?
Estávamos a ganhar 1-0 quando roubaram um golo limpo ao Manuel Fernandes. Depois inventaram um penálti com uma falta cometida fora da área. Para se marcar esse penálti, foi uma confusão. Os adeptos do Porto atrás da baliza atiravam-me de tudo e um adepto entrou em campo com um guarda-chuva para ajeitar a bola na marca. Isto num jogo do título...
Era costume?
Nas Antas? Sempre. Havia sempre confusão até antes do jogo, com o autocarro a ser apedrejado. Uma vez, com o Vitória de Setúbal, uma das pedras partiu o vidro e a cabeça do defesa-central João Mendes.
Voltando ao clássico, esse penálti foi golo?
Só na recarga. O Pedroto, então treinador do Porto, chamou o Romeu e disse-lhe para estar preparado para a recarga porque me conhecia muito bem dos tempos do Porto e do Vitória de Setúbal. Ele sabia que eu ia defender, incrível, e também sabia que eu não iria conter o remate porque a bola estava molhada pela chuva. Atenção, esta história foi-me contada pelo próprio Romeu. Dito e feito, o Oliveira rematou, eu defendi e o Romeu fez a recarga para o golo. Um-um e o Porto continuava líder por um ponto mas empataram na jornada seguinte, com o Varzim, na Póvoa, e depois ainda perderam em Espinho na última jornada. Fomos nós os campeões nacionais.
O Vaz era então especialista em penáltis?
Quando a gente está para largar o desporto é que começamos a perceber, mas ainda fui a tempo de entender umas coisas.
Como por exemplo?
Epá, agora é complicado, há muitas coisas, só explicando... mas olhe o gajo que remate com o pé esquerdo atira para o lado esquerdo do guarda-redes, 99% das vezes. Veja isso a partir de hoje, não tem como enganar. Claro que o 1% conta, há esquerdinos que escolhem o outro lado. E 99% dos destros atiram para o lado direito dos guarda-redes. Mas isso, sei eu e até você, não é suficiente. Você pode esticar-se todo e não apanhar a bola, depende da força do remate e colocação da bola.
Mas o Vaz defendeu penáltis de quem?
Uiiii, sei lá, olhe Eusébio, num Vitória-Benfica. Na Luz, já como guarda-redes do Sporting, defendi um do Nené. O árbitro [Inácio de Almeida, de Setúbal] mandou-me repetir porque me mexi. Pois claro que me mexi, qual é o guarda-redes que não se mexe? Se não nos mexêssemos, era sempre golo. Dessa vez, foi ingrato. Então defendi o penálti e mandam-no repetir quando nem me mexi assim muito... Disse logo ao árbitro que se fosse no outro lado do campo, com o Bento, ele nunca mandaria repetir. É assim. Mas ontem era melhor que hoje. Antes era melhor que agora, quero dizer. Eu hoje não tinha lugar no futebol com esta gente corrupta.
Então e frangos, o Vaz também os cometia?
Comecei como avançado, sabe. No Penalva do Castelo, claro. Um belo dia, fui à baliza e perdemos 5-4. Terei dado uns frangos, três ou quatro, nem sei, eheheheheh. A verdade é que comecei a atinar com a baliza e dizia a mim mesmo que só podia dar um frango por época. No ano do Sporting campeão, nem um fiz e por isso acumulei para a época seguinte, eheheh, mas isso não aconteceu. Só dei um frango, num 4-1 ao Sporting de Espinho. Marcou Canavarro, o 1-1.
Em 1981, já com 36 anos, sai do Sporting.
Sim, e penduro as luvas. Ou assim penso, até que me ligam do Amora antes da 5.ª jornada. Eles tinham um ponto em oito possíveis e os dois guarda-redes estavam lesionados [Jorge e José Pereira]. Perguntam-me se quero ir para lá. Aceitei o convite, movido pelas amizades: o adjunto era o José Martins, meu colega no Vitória de Setúbal, por exemplo. Mas sabe que estava barrigudo, um pouco. Na estreia, ganhámos 1-0 ao Benfica na Amora. Na jornada seguinte, empatámos 1-1 em Portimão. No final da época, acabámos em 11.º lugar, quatro pontos acima da linha d'água [descem Belenenses e U. Leiria].
Ainda se lembra da despedida?
Claro que sim, Amora 5 Braga de Quinito 0. Fui titular e saí aos 85 minutos para dar o lugar ao José Pereira. Nessa tarde, o Caio Cambalhota que era um brasileiro cómico e bom de bola [14 golos em 28 jogos nessa época pelo Amora] marcou um hat-trick.
E pronto, acabou.
Calma, ainda joguei um ano aqui na zona [de Setúbal], no Comércio e Indústria, 3.ª divisão, série F."
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