«Último troço da CRIL, em Lisboa, tem «graves defeitos»
Há «graves defeitos» no último troço da Circular Regional Interna de Lisboa (CRIL), entre a Buraca e a Pontinha, aponta o Observatório de Segurança das Estradas
Este troço foi adjudicado na semana passada por cerca de 110 milhões de euros.
Francisco Salpico, engenheiro civil responsável pelo estudo feito pelo Observatório, salienta que as deficiências são tais que «não será suficiente limitar a velocidade com sinalização vertical».
«É muito fácil construir estradas com total violação dos critérios de segurança e depois limitar a velocidade para passar a responsabilidade dos acidentes para os condutores», afirma.
O especialista defende ainda que no último troço da CRIL, obra adjudicada a semana passada à construtora Bento Pedroso, a circulação só se fará em segurança se a velocidade de tráfego «não exceder os 60 km/hora».
«A vigilância e a gestão desta velocidade é da responsabilidade da entidade que promove a construção e a manutenção da via» e para que os 60km/h não sejam ultrapassados «não basta colocar sinalização vertical», diz Francisco Salpico, acrescentando que são necessárias «medidas especiais».
«O mais indicado é a colocação de semáforos ligados aos limites de velocidade, como fizeram na marginal que liga Lisboa a Cascais, em que o sinal seguinte fica vermelho se o condutor ultrapassar determinada velocidade», refere.
Questionado sobre a possibilidade de colocação de radares para limitar a velocidade, o especialista é peremptório: «isso iria acarretar um encargo brutal para a máquina judicial, entupindo os tribunais de multas, e não resolveria o problema, além de que é injusto cobrar ao automobilista toda a culpa».
«Quando o condutor excede a velocidade já tem parte da culpa, mas as deficiências na estrada não são culpa dele e é ele quem acaba por pagar a totalidade da multa», lembra.
«Se estas condições de segurança não forem garantidas, facilmente se demonstra o porquê do acidente e pode ser suscitada a responsabilização criminal das entidades públicas que aprovaram este projecto defeituoso», explica.
Segundo o especialista do Observatório, a manutenção de estradas com graves defeitos «é corrente em Portugal», dando como exemplo a própria CRIL, no troço entre a 2ªCircular e Algés.
Aí, garante, «as condições de visibilidade e o pavimento são defeituosos».
«O pavimento é muito escorregadio quando molhado, retirando ao condutor a capacidade, que lhe deveria estar garantida, de efectuar travagens em condições de segurança», denuncia.
De acordo com Francisco Salpico, com a velocidade de tráfego que se pratica neste troço «o coeficiente de atrito do pavimento deveria ser, no mínimo de 0.32, mas como é inferior a 0.10 as condições de atrito são profundamente deficientes» e acabam por ter a sua parte de responsabilidade nos acidentes que ali ocorrem.
«As condições deficientes desse traçado existente na CRIL, conjugadas com a má macrotextura desse pavimento, fazem com que, na ocorrência de chuvadas frequentes, a hidroplanagem ocorra para velocidades entre 80 e 90km/h, colocando em perigo concreto a vida dos utentes da estrada, uma vez que a segurança deveria estar garantida até à velocidade de tráfego que aí se pratica», alerta.
O último troço da CRIL, que deverá ficar concluído até final de 2009, ligará o nó da Buraca ao da Pontinha e este à rotunda de Benfica, numa extensão aproximada de 4,5 quilómetros.
Contra o traçado escolhido também se têm manifestado os moradores dos bairros de Alfornelos, Damaia e Santa Cruz e até chegaram a ser entregues em tribunal duas providências cautelares, que acabaram por ser rejeitadas.
A Associação de Moradores do Bairro de Santa Cruz promete não baixar os braços e já disse que vai apresentar uma queixa contra o Estado português e pedir a intervenção do Presidente da República nesta matéria, alegando que a atitude do Governo ao adjudicar a obra com um traçado diferente do que esteve em consulta pública é «prepotente» e «antidemocrática».
Jorge Alves, da associação, adiantou terça-feira à Lusa que o traçado escolhido está cheio de 'pontos negros' e é «irregular e ilegal» por não respeitar a norma da Declaração de Impacte Ambiental (DIA), que obriga à construção de três vias em cada sentido, em túnel fechado.
«Ao contrário do que o Governo quer fazer querer, e temos documentos que provam isso, o traçado escolhido nunca esteve em consulta pública. A única [consulta pública] que houve foi em 2004 e abrangeu um projecto de execução que nada tem a ver com o traçado escolhido», disse.
«Ao invés, avançam com um traçado que inclui quatro faixas em cada sentido, com um percurso a céu aberto, ocupando para isso propriedade privada», afirmou Jorge Alves, adiantando que os moradores já receberam as respectivas cartas de expropriação.
Segundo Jorge Alves, «a insistência e rapidez em avançar com esta obra revela que não houve qualquer preocupação em relação à estrada e às populações».
«Esta rapidez deve-se aos interesses das empresas que querem construir nos terrenos da Falagueira/Venda Nova», acusou.
Fonte: Lusa / SOL