BLADERUNNER
Membro histórico
Os oceanos, que julgávamos inesgotáveis, estão a ficar sem reservas de peixe. Exemplo disso é o bacalhau que foi reduzido a apenas 10% do que havia há algumas décadas. O abate sucessivo de florestas para a plantação selectiva, a agricultura e extracção de madeira estão a aumentar a desertificação da superfície terrestre. A excessiva poluição dos solos, dos rios e mares, e da atmosfera está a tornar o planeta cada vez mais inabitável. O aumento do buraco no ozono e a diminuição da espessura desta camada gasosa, o efeito de estufa, o degelo dos glaciares polares, o aumento do nível da água do mar e o aquecimento global são uma realidade actual (só nos pólos a temperatura já subiu 3ºC no último século). O surgimento crescente de catástrofes naturais de dimensões épicas, a indiferenciação das estações do ano e as alterações climáticas que já nem os cientistas conseguem prever, deixaram há muito de fazer parte da ficção científica. Dois terços das espécies terão desaparecido por completo da face da terra antes sequer da maioria de nós termos terminado as nossas vidas. E como se isto por si só não bastasse, a pobreza, a fome e a doença continuam a aumentar de forma avassaladora. Este será o legado que deixaremos aos nossos descendentes: uma herança de morte e destruição.
Nesta fase de maturidade da humanidade, já não faz sentido continuarmos a proceder com o objectivo de conseguir o máximo possível de reprodução com vista à preservação da espécie. Nós, que nos julgamos superiores aos animais, quando muitas vezes não primamos por comportamentos inexplicavelmente pior do que o deles, acabamos por ter uma conduta igualmente primitiva no capítulo da perpetuação dos genes. Assim, vamo-nos multiplicando de uma forma inacreditável e imparável arrasando o nosso mundo.
Todavia, a meu ver, as religiões são das maiores responsáveis por toda esta calamidade. “Por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o mais horrendo e cruel.”1 Apregoam a vida, sendo que muitas vezes a vida está logo à nascença condenada ao sofrimento, à fome, à doença e à morte. São contra a contracepção e o controlo da natalidade sabendo de antemão que nos países subdesenvolvidos onde grassa a miséria, a fome e a morte pela míngua, é aonde mais a população se multiplica. Mas desse modo se alimenta a poderosa indústria do tráfico humano de crianças, de órgãos, de escravatura e de serviços sexuais que alimenta o mundo desenvolvido a quem lhe convém este estado miserável de coisas. Tanta hipocrisia em nome de Deus. Tanto fanatismo e cegueira de um mundo que deixa tudo isto acontecer. Por algum motivo Einstein dizia que “A ciência sem religião é manca, a religião sem a ciência é cega.” Fomenta-se a vida a todo o custo enquanto a cada 46 segundos nasce uma criança na pobreza. Ao mesmo tempo que 30% de população no mundo desenvolvido se esforça por não engordar, os restantes 70% procura comida para sobreviver. Até onde toda esta falsidade nos irá levar? Quando é que iremos ter vergonha daquilo que estamos a fazer e ter a coragem de parar para actuar?
O ser humano ainda não acabou de destruir esta sua casa, mas consciente do mal que está a causar e de que mais tarde ou mais cedo tornará este planeta inabitável, começa já a procurar outros mundos que possam albergar vida para o podermos povoar assim que este deixar de nos ser útil. Actuamos como um vírus que se vai multiplicando no hóspede que o alberga contaminando e destruindo tudo ao seu redor, até ao ponto de provocar a sua morte, passando depois para outro corpo estranho onde voltará a parasitar explorando-o da mesma forma.
A reposição do equilíbrio do ecossistema regenerando-se os recursos naturais que estamos a esgotar iriam contribuir para uma existência mais harmoniosa do ser humano com um planeta que não é só seu. Por isso, sou apologista de que deveríamos controlar verdadeiramente a população mundial através de um planeamento e controlo da natalidade (muito diferente da aberração feita na China) para podermos assegurar um mínimo de dignidade de vida para aqueles que nascem. Todos nós somos responsáveis por cada um dos nossos semelhantes que vive no limiar da pobreza ou que morre vítima da fome ou falta de cuidados de saúde. E por isso, eu digo: já somos demais… a passar fome.
Alguém concorda comigo? Seremos nós, afinal, já demais?
1(Saramgo, José)
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