Estes 15 anos passaram muito depressa. Tal como o Senna andava sempre. Depressa e bem.
Vi o fatídico momento em directo e ainda hoje me lembro na perfeição desse dia. Naquele momento o meu ídolo abandonava o mundo dos vivos mas jamais abandonará a minha memória. Acompanhei a sua carreira desde os tempos dos Toleman Hart, em que ele, com material muito inferior à média, já dava show sempre que tal era possível, nomeadamente na chuva. Depois vieram os tempos do famoso e belo Lotus Renault, com as cores da John Player Special, que lhe proporcionou o "salto". Ainda me lembro da sua primeira vitória no Estoril, debaixo de uma chuva que, hoje em dia, seria de caras motivo para safety-car ou parar a corrida. Depois o tempo do Lotus amarelo, com as cores da Camel, ao que se seguiu a época dourada da McLaren (com os Honda), em que o mito ganhou toda a expressão que ainda hoje mantém. E até nesta equipa, quando no final da sua passagem pela mesma, dispondo de um motor inferior à concorrência, ele se continuava a bater como um leão. Acabou a carreira da forma que sabemos, num ano em que voltava a dispôr do monolugar mais competitivo da sua época.
Dos muitos momentos épicos da sua carreira, lembro alguns como a primeira exibição de alto nível no Mónaco (que viria a tornar-se o seu "quintal"), ainda com o Toleman, em que sob chuva intensa, só não ganhou face às grandes estrelas porque a corrida foi interrompida, pois ele estava a rodar mais depressa e a ultrapassar tudo e todos. A primeira vitória da carreira, num encharcado e inclemente Estoril. As suas voltas de qualificação no Mónaco, que ainda hoje deixam saudades, pelo empenho e limite em que eram feitas. A "famosa" ultrapassagem que o Mansel (que tinha um carro melhor) lhe fez em Barcelona, em que fizeram os 1,5 kms sempre lado-a-lado, com faíscas das skid plates por todo o lado. A sua mestria em chuva, em que era sempre o mais rápido. A sua capacidade para fazer voltas de qualificação no limite dos limites. As suas épicas lutas com o Prost. Enfim, tantos e tantos momentos que este génio nos deu.
Acho que, ainda hoje, estou para ver um piloto tão completo. Para mim ele foi e será o melhor de sempre. Tinha excelentes qualidades de afinador de monolugares, um entendimento técnico dos mesmos que espantava os próprios engenheiros, uma capacidade de pilotagem do mais alto nível (e em chuva é, provavelmente, o melhor de sempre), combativo mas justo e sempre à procura de mais um décimo, mais um milésimo. E em qualificação era aquilo que se via. Um génio!
Hoje é, para mim, um dia triste, pois naquele dia partia o meu ídolo. Alguém que me fazia sofrer a ver uma corrida, como se um derby com o meu clube se tratasse. Ainda hoje guardo alguma memorabilia desses tempos, pois do meu clube não tinha cachecóis ou bandeiras. Mas o Senna tinha tudo isso e mais. Eram momentos de tensão contida que acabavam em euforia por ver as vitórias. E quando estas não aconteciam, ficava sempre a imagem de um piloto fantástico, que dava tudo em busca de mais e melhor. Em busca da sua perfeição em pista.
Resta-me dizer que jamais esquecerei este piloto. Foi ele que me fez gostar de fórmula 1. Depois dele nada voltou a ser o mesmo. Gosto de ver pela componente técnica e pela componente automóvel. Mas com Senna via pelo homem. Pela sua mestria e capacidades quase não humanas.
Fica-me a triste consolação de que ele morreu onde mais gostava de estar. Ao volante de um F1, no lugar que será sempre seu por mérito. O primeiro.
Senna, onde quer que tu estejas, és o maior!! Descansa em paz e obrigado por tudo.