Reclamar? Eu? Livra!
Sérgio de Andrade, Jornalista
Estava nos meus verdíssimos anos quando, à mesa, lancei uma pergunta «O que é ditadura?». A resposta foi «É comer e calar». Só alguns anos mais tarde é que percebi que o meu Pai não estava a mandar-me jantar em silêncio, mas sim a aludir à «lei da rolha». De facto, durante o salazar-marcelismo, certos verbos eram de evitar em absoluto: «discordar», «protestar», «reclamar», «manifestar», etc.. Porque, para os poucos que se atreviam a fazer uso desses verbos, havia sempre a PIDE, os tribunais plenários, ou, na menos má das hipóteses, a PSP ou a GNR a malhar-lhes.
Felizmente, isso agora não é assim. Não? Discutir ou protestar pode continuar a ser perigoso, porque, se o Estado está mais tolerante, o mesmo não pode dizer-se de certos cidadãos. Um problema de trânsito, um piropo ou uma discussão sobre futebol termina por vezes a tiro ou à facada.
Por estas e por outras, há muito que não levava a sério aquele aviso visível em todos os estabelecimentos, segundo o qual «existe livro de reclamações». Imagine-se que, num café de bairro, eu pedia o livro receio que o menos que me poderia acontecer era o dono pôr-me fora aos pontapés.
Mais vale não fazer ondas. Numa repartição pública, vi uma contribuinte pedir o livro de reclamações. Em vez de lho porem de imediato na frente, puseram-lhe o chefe, que, antes do mais, queria (terá esse direito?) saber do que é que reclamava a cidadã. Que, evidentemente, se incomodou e, se calhar, nunca obteve resposta à sua queixa.
A minha prudência ante esses livros passou ao pânico quando li que uma médica havia sido condenada por reclamar do serviço de um restaurante de Matosinhos. A sua queixa anda há 30 meses perdida na Câmara, pelos vistos não tão lesta como o Tribunal local, que, tendo recebido, por sua vez, uma queixa da proprietária do estabelecimento, já condenou a cliente. Segundo a sentença, a ré gritou alto e bom som que «a comida não prestava e nunca tinha sido tão mal servida». Depois disto, se um dia quiser queixar-me, vou procurar ser mais cuidadoso. Dizer, por exemplo, «esta comida, em termos de qualidade, não obedece aos parâmetros fixados pela União Europeia». Mas pedir o livro de reclamações, isso não! Pode ser perigoso...
Sérgio de Andrade escreve no JN, semanalmente às terças-feiras.