citação:O ministro da Justiça ajustou ontem contas com a Polícia Judiciária (PJ) e demitiu o seu director-nacional. Convocado para uma reunião no ministério, Santos Cabral já levava uma carta de demissão, mas, mal entrou no gabinete, Alberto Costa apresentou-lhe o despacho assinado por José Sócrates e por ele próprio. "O senhor está demitido", ter-lhe-á dito o governante. Alípio Ribeiro, até agora procurador-geral distrital do Porto, é o senhor que se segue à frente dos destinos da PJ.
De acordo com informações recolhidas pelo JN, a decisão de demissão foi tomada pelo ministro entre quinta e sexta-feira. Alberto Costa ficou irritado pelo ultimato apresentado pela Direcção na PJ, na última quarta-feira, sobre os problemas do estrangulamento financeiro e da ideia de retirar à PJ a exclusividade dos contactos com a Interpol e Europol, passando-a para o Gabinete Coordenador de Segurança, sob a égide da Presidência do Conselho de Ministros, onde poderia servir todas as polícias.
Ao que apurou o JN, Alberto Costa recebeu a posição oficial da PJ, pela boca de Santos Cabral, mas estava informado sobre a existência de directores que não estavam totalmente de acordo com os termos e o modo escolhidos pelo responsável máximo. Daí o ministro não se ter oposto à continuidade de alguns dos actuais responsáveis (ver caixa).
Poder do ministro em dúvida
Mas o que mais incomodou o ministro foi o facto de a posição pública da Direcção da PJ evidenciar dúvidas sobre a conduta e poder do próprio Alberto Costa, no seio do Governo, no diálogo com Sócrates e o ministro da Administração Interna, António Costa - o principal entusiasta da alteração do enquadramento da Interpol e Europol. É que, na óptica do ministro, Santos Cabral não deveria ter colocado, em termos públicos, reticências sobre o que poderia sair do Conselho de Ministros, uma vez que é conhecedor das posições de Alberto Costa.
Daí a alegação de falta de "confiança" como justificação para a mudança assumida pelo Governo, que sentia estar a ser "condicionada" a sua "liberdade de opção".
A mesma "falta de confiança" na tutela foi alegada por Santos Cabral, ontem, em declarações ao JN, para justificar o pedido de cessação de comissão de serviço. "A confiança é uma relação recíproca", realçou.
Ao que apurou o JN, o ministro efectuou o convite a Alípio Ribeiro durante o fim-de-semana. Depois de conversar com Souto Moura, o procurador-geral adjunto aceitou o desafio e teve ontem à tarde uma reunião formal com Alberto Costa. Pouco depois, Santos Cabral seria demitido.
Outro factor que também contribuiu para o extremar de posições foi o facto de o ministério ter mandado à PJ um "controlador financeiro" para averiguar o grave problema alegado pelos seus responsáveis quanto às finanças, que já levaram a várias vergonhas públicas por acumulação de dívidas.
Dessa "mini-auditoria" foi concluído pelo MJ que a existência de 12 departamentos financeiros condiciona a "gestão flexível" da PJ, defendida pelo Governo.
@ http://jn.sapo.pt/2006/04/04/primeiro_plano/ministro_sabia_tudo_dentro_pj.html