Metade das grandes empresas tem gestores que já foram políticos
Jorge Coelho deverá assumir o cargo de administrador de uma cotada. O Diário Económico fez as contas e nove das empresas do PSI 20 têm gestores que passaram pela política.
Jaime Martins Alberto
A dúvida de António Pires de Lima era grande: ser líder do CDS ou CEO da Unicer? De um lado, o prazer e os amigos, do outro o dinheiro e a família. Optou pela segunda hipótese e respeitou a imposição da empresa: não foi candidato à liderança do partido. Poucos dias depois, a 1 de Junho de 2006, já estava na Unicer. “Eu tenho quatro filhos que estão habituados a um certo nível de vida. Não sei como a conseguiria manter se tivesse ficado na política”, explica Pires de Lima, referindo-se à diferença de ordenados entre os gabinetes duplos dos deputados em São Bento e os de luxo em Matosinhos.
Jorge Coelho não terá tido tantos dilemas quando aceitou o convite de António Mota para ser consultor da Mota-Engil. “Há sete anos que deixei de ter funções públicas e saí do Governo”, disse em Março. Na mesma entrevista ao Diário Económico, ainda perguntou: “Eu tenho de trabalhar, não?” Hoje, poucas pessoas têm o seu peso e influência no aparelho do PS. Também poucos têm no currículo o cargo de ex-ministro da Administração Interna, uma formação de economista e a experiência como consultor da Martifer, Visabeira e Novabase.
Para Jorge Coelho, como para muitos gestores e ex-políticos, a passagem do público para o privado é um acto natural. Do conjunto de administradores das empresas do PSI 20, 10% já passaram por um ou mais governos. Alguns, fizeram carreira na banca, passaram para o Governo e voltaram à banca, como fez Armando Vara na Caixa Geral de Depósitos e no BCP. Ao todo, metade das vinte maiores empresas nacionais têm administradores que ocuparam cargos no Executivo. Olhando para osvinte CEO, só cinco assumiram funções em governos liderados pelo PS e PSD.
A quantidade de exemplos nesta matéria é semelhante ao pudor em se falar de forma aberta sobre eles. Contactados pelo Diário Económico, Pina Moura (antigo ministro das Finanças e actual presidente da Média Capital e da Iberdrola) e Manuela Ferreira Leite (administradora do Santander e também ex-ministra das Finanças) recusam-se a falar sobre o tema. Falou Mira Amaral: “O Paulo Teixeira Pinto quando chegou ao Governo nem sabia o que era um banco e o Pina Moura o que era energia”, lembra o ex-ministro do Trabalho, que quando foi convidado por Cavaco Silva para ganhar 600 contos no Governo, em 1985, recusou o dobro que uma empresa privada lhe oferecia.
O que é que procuram as empresas quando olham para os ex-governantes? “Elas querem pessoas com experiência de vida e que conheçam muito bem a administração”, explica João Cravinho, que trocou o lugar de deputado do PS pelo de administrador do BERD em Londres. E acrescenta, de forma determinista: “As empresas pagam dez ou quinze vezes mais do que qualquer director-geral da função pública”.
O facto de conhecer “muito bem” a administração também terá pesado na escolha de Ferreira do Amaral para presidente da Lusoponte. O que valeu ao antigo ministro das Obras Públicas críticas e suspeitas. “A lei preocupa-se com isso e estabelece uma norma: três anos sem contactos [ver texto ao lado]”, disse ao Diário Económico em Fevereiro deste ano.
Quando se consegue ter a experiência dos dois mundos no currículo, ainda melhor. “Quando criei os hospitais SA, tive uma preocupação com a gestão dos recursos”, diz Luís Filipe Pereira, que garante ter sido melhor ministro da Saúde (nos Governos de Durão Barroso e Santana Lopes) precisamente pelos vários anos de experiência que tinha como gestor. “Tive muitas propostas quando sai do ministério”, diz.
A Cimpor é um caso paradigmático. “A maioria do conselho de administração da Cimpor passou pelo Governo, mas não me recordo de todos”, conta fonte oficial da empresa, que sublinha o facto de esta ter pertencido ao Estado: “Os membros eram todos nomeados.” No fundo, é tudo uma questão de “elasticidade”, segundo um destacado empresário que ocupou cargos políticos.
No final há quem reduza todo o argumento a uma certeza: “Nunca contraria políticos”, diz Ângelo Correia. “Contrato especialistas por áreas, se tiver uma apetência política melhor”.
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