podemos, como temos feito, tentar ajudar todos os povos, mas nunca seremos todos iguais porque simplesmente não o somos.
Escondermo-nos atrás desses chavões apenas serve para ficarmos bem com a nossa consciência.
Quando no ocidente se opta pelo consumismo desenfreado, se desperdiça cerca de 1/4 dos alimentos, se fazem festas a brincar com a comida como vemos em Pamplona (agora imitada nos EUA), enquanto 2/3 da população do planeta passa miséria, fome e sede, fica bem dizer a hipocrisia de que temos sempre ajudado os outros, mas que nunca seremos todos iguais.
Vivemos a explorar o nosso semelhante sem nos preocuparmos muito com isso, para deleite do modo de vida exuberante, consumista e materialista que adotámos.
Acreditamos que somos livres se comprarmos este ou aquele produto, corrompidos pela mensagem que nos vende o que devemos comer, vestir, usar, pensar... Uma mensagem que nos é vendida pelos grandes grupos de interesse e nos mantêm demasiado ligados a um mundo virtual e artificial, alheando-nos do mundo real. Logo desde pequenos matam-nos os nossos sonhos e esperanças e povoam os nossos seres com aquilo que deveremos ser, aquilo que deveremos almejar, aquilo que deverá ocupar as nossas vidas para que possamos ser felizes.
Vivemos ocupados com coisas efémeras sem tempo para parar e pensar pela própria cabeça. Sem autonomia para olhar em redor e questionar.
Acreditamos que o mais importante não é sermos, é termos, e isso não só cria uma enorme dependência e vazio emocional, como contribui para as desigualdades, a exploração do homem pelo homem e o alheamento total para com os outros, desde que possamos continuar a viver como queremos.
Para podermos vestir roupas de marca, o que nos interessa se algures no Bangladesh uma criança tenha de deixar de estudar e passe a trabalhar 14 horas por dia por 1€?
Para podermos exibir um brilhante, o que nos interessa se em África crianças tenham de passar dias inteiros dentro de estreitos poços de 100m onde perdem a vida à procura de pedras preciosas?
Apenas nos interessa impor. Impor a nossa vontade económica, invadir países, impor a nossa cultura, destruir a natureza, em benefício do nosso modo de vida e do interesse de um pequeno grupo que se está nas tintas para o interesse comum.
Apenas nos interessa não perder esta felicidade ilusória baseada no materialismo que receamos perder, porque já não sabemos ser felizes de outra maneira senão esta que nos impingiram.
Embora não acredite em deus, acredito numa certa espiritualidade nas relações entre os seres, e com o mundo natural envolvente do qual fazemos parte. Isso ajuda a sermos mais tolerantes, atentos aos outros e menos individualistas.
E isto nada tem a ver com politiquices, tem a ver com solidariedade e respeito. Tem a ver com aquilo que deveria verdadeiramente representar a palavra “Humanidade”... e que se está a perder.