Investigação relata rapto impossível
Treze meses depois de Madeleine ter desaparecido, a PJ conclui uma investigação que continua marcada por incertezas. O relatório final, que hoje o CM revela em exclusivo, não determina culpas, mas deixa novas e fortes dúvidas na tese apresentada pelos pais da criança inglesa. Descreve pormenorizadamente as diligências feitas pelos investigadores – que tentaram, por todas as formas, confirmar a hipótese – e revela que aquele era teoricamente impossível de ter ocorrido. Não fazem sentido os testemunhos, nem tão-pouco a forma como uma das amigas diz ter visto um homem a transportar uma criança cerca de uma hora antes de ter sido dado o alerta do desaparecimento.
Trata-se de Janne Tanner, que garante ter surpreendido o desconhecido numa rua onde também se encontrava o pai de Maddie e outra testemunha. Ambos asseguraram depois nada ter visto, embora estivessem no mesmo ângulo de visão. Tanner, que mais tarde fez um retrato-robô do suposto raptor, diz ainda que o homem levava a criança na posição horizontal. O tamanho da janela revela que tal só poderia ter acontecido se a criança fosse transportada na posição vertical.
Mesmo assim, a PJ tentou por todos os meios descobrir quem podia ter levado Maddie. Fez-se dezenas de diligências a suspeitos de abusos sexuais. Foram recolhidos elementos sobre os cadastrados que poderiam ter estado de férias no Algarve durante aquele período de tempo, para verificar se haveria qualquer relação com a pequena Maddie.
Foram ainda investigados os restantes utilizadores do aldeamento. A PJ entrou em mais de 400 casas das imediações do Ocean Club e nada encontrou. Na janela onde Kate garantiu que Maddie foi raptada também não foram recolhidos vestígios da menina. Apenas marcas que confirmaram o ADN da mãe da menina.
O relatório final da PJ mostra os detalhes de uma investigação que atingiu níveis nunca vistos. Foi investigado um casal que alegadamente tentara raptar outra criança, foram passadas a pente fino as pistas que davam conta de que Maddie havia sido avistada numa bomba de gasolina. Foi explorado um crematório e comparado o perfil genético de Madeleine com o do corpo de uma criança encontrado na costa dos Estados Unidos.
A PJ investigou um suposto pedinte e seguiu milhares de pistas nos mais distantes locais do Mundo. Debalde. Nada confirmou a referida tese de rapto.
PJ INVESTIGOU TRANSPORTES
Um dos trabalhos mais morosos da investigação foi recolher e analisar toda a informação relativa a possíveis vias de transporte/fuga, por meios terrestres, marítimos e aéreos. Foram igualmente exploradas as imagens recolhidas pelos turistas em férias na mesma altura, mas, mais uma vez, nada de determinante foi encontrado. Esta informação foi toda compilada num anexo que se encontra junto ao processo, havendo outro apenas para os suspeitos de crimes sexuais. APJ fez também um dossiê de todos os indivíduos relacionados com o crime violento, sendo esmiuçada a vida daqueles ao pormenor. Era importante determinar se poderia ter qualquer relação com o rapto.
MADDIE
O relatório final da PJ não dá sugestões ao Ministério Público. Mas elenca as convicções de uma investigação que aponta inevitavelmente para a morte de Maddie a 3 de Maio na Praia da Luz.
MAIS DE UMA HORA A CHORAR
Os pais de Madeleine nunca desmentiram que já era um hábito os três filhos ficarem sozinhos dentro do apartamento da Praia da Luz enquanto jantavam, facto comprovado pelos vários testemunhos de funcionários do aldeamento, mas defenderam-se dizendo que todas as noites visitavam as crianças de meia em meia hora. O testemunho da vizinha Pamela Fenn deixa por completo em causa a versão do casal McCann, quando garantiu à PJ ter ouvido Maddie em pranto durante uma hora e 15 minutos duas noites antes do crime.
A britânica vive no 1º andar por cima do apartamento ocupado pelos McCann e disse aos inspectores que na noite de 1 de Maio do ano passado, às 22h30, ouviu uma criança a chorar, que pelo som seria Madeleine. Garantiu à Polícia Judiciária que a criança se manteve inconsolável uma hora e 15 minutos, até que os pais chegaram. A vizinha ouviu o barulho da porta às 23h45, quando Kate e Gerry terminaram o convívio habitual com os amigos no Tapas bar – o restaurante do aldeamento onde diariamente jantavam à volta da piscina.
Este testemunho contradiz a rotina diária de visitas que o casal dizia manter com os filhos – e os McCann não se livram das críticas de outra britânica. Yvone Martin, funcionária da segurança social inglesa de férias na Luz, censurou o comportamento negligente de Kate e Gerry.
CÃES DECISIVOS PARA PJ
A actuação dos cães britânicos especialmente treinados para detectar odor de cadáver e sangue humano foi decisiva para que Kate e Gerry fossem constituídos arguidos.
Perante a coincidência da actuação dos dois animais, que sinalizaram os mesmos locais e objectos relacionados com os McCann, as autoridades foram obrigadas a admitir um eventual envolvimento de Kate e de Gerry no caso do desaparecimento da filha e a constitui-los arguidos para os confrontar com elementos que poderiam resultar na sua incriminação – como testemunhas não podiam remeter-se ao silêncio.
Segundo apurou o CM, no relatório final da investigação elaborado pela Polícia Judiciária os investigadores explicam que os animais apenas deram sinais de detecção em locais e objectos relacionados com o casal McCann: no apartamento de onde desapareceu Madeleine (no quarto do casal, na sala de estar e junto da janela lateral), no quintal, no veículo usado pela família McCann (alugado 24 dias depois do desaparecimento da menina ), em duas peças de roupa de Kate e no peluche de Maddie – que Kate não largou nos dias seguintes ao desaparecimento.
Já nos apartamentos dos amigos dos McCann, na Aldeia da Luz e em todos os veículos usados por Robert Murat, o primeiro a ser constituído arguido, nada foi detectado pelos cães.
Perante estes indícios, reforçados por outros exames periciais realizados em Portugal e Inglaterra, a PJ interrogou Kate e Gerry e constitui-os como arguidos.
Os animais, da raça springer spaniel, são muito utilizados no Reino Unido na busca de pessoas desaparecidas ou na procura de vítimas de homicídio, com resultados positivos.
KATE JUSTIFICA ODOR DE MORTE
Kate McCann não negou o facto de duas peças de roupa suas e o peluche da filha terem sido sinalizados pelo cão inglês treinado para detectar odor de cadáver e justificou o facto com a sua profissão.
A mãe de Madeleine alegou que, enquanto médica do Centro de Saúde de Leicester, terá presenciado seis situações de morte nos tempos imediatamente anteriores à sua vinda para Portugal de férias, dando a mesma justificação para o peluche de Madeleine, que a acompanhou nos meses seguintes ao desaparecimento da filha.
'SENTI UM PONTAPÉ NO RABO' (Gonçalo Amaral, antigo coordenador do processo madeleine mccann, em entrevista à TVI)
– Está convencido de que Madeleine McCann está morta?
Gonçalo Amaral – Tenho essa convicção. É uma interpretação à luz do Direito baseada em elementos concretos, no conhecimento que tenho do inquérito e em diligências realizadas. Eu estou convicto de que sim, de que morreu lá.
– Se o pai e a mãe foram constituídos arguidos é porque foram suspeitos?
– Foram suspeitos e existiam indícios para a constituição como arguidos, aliás, fortes elementos relativamente a dois tipos de crime: ocultação de cadáver e simulação de crime. Isso foi público e na altura em que saí a investigação estava nesse pé.
– E o crime de abandono, por que razão os pais não são acusados?
– A questão aí passa por saber se as crianças estavam em segurança ou não. Parece-me evidente, se até os próprios pais falam em rapto, que não havia segurança.
– Não se sente frustrado por não haver avanço no caso?
– Não sinto frustração por decisões dos tribunais. Ando aqui há muitos anos e tenho grande admiração pelos magistrados. Compreendo até onde pode chegar o trabalho dos magistrados.
– Mas não compreende por que se veio embora?
– Isso não. Respeitei a decisão como profissional. Havia um entendimento entre as polícias portuguesa e inglesa de que a menina estava morta e d que era preciso solidificar os indícios que já existiam e avançar para tentar perceber onde é que ela poderia estar.
– Acha que a reacção da PJ teve a ver com a politização do caso?
– Acho que houve mais política do que polícia. Mas dentro do terreno fizemos o nosso melhor e nunca sentimos defesa alguma.
– Sentiu a pressão da política?
– Senti foi um pontapé no rabo no dia 2 de Outubro.
– Acha normal o caso ser arquivado?
– Não me choca.
INGLESES RECUARAM NOS EXAMES
Foi o mais estranho volte-face na investigação. Os primeiros exames feitos pelo laboratório inglês, tido como pioneiro na análise aos vestígios biológicos, dava conta da probabilidade de os resíduos recolhidos no carro dos McCann ser compatível com o perfil genético de Madeleine.
Meses depois – já após a Polícia Judiciária ter avançado para a constituição de arguido dos pais, segundo o relatório final apenas por indícios de que aqueles ocultaram o cadáver da criança inglesa – o laboratório veio corrigir a informaçãoinicial. Afinal, os exames aos vestígiosrecolhidos naRenaultScénic alugada pelo casal não foram conclusivos e nem sequer foi possível apurar a qualidade desse material, ou seja, saber se se tratavade fluído corporal ou de um vestígios de sangue.
Esta alteração científica, ainda não completamente esclarecida, acabou por levar a investigação a um beco sem saída. A utilização dos cães que detectam odores de cadáver ou resíduos de sangue não está validada no sistema jurídico português e era necessário corroborar cientificamente as marcações caninas.
Refira-se ainda que a opção da Polícia Judiciária para o envio das análises para Inglaterra teve na sua génese uma questão de credibilidade. Os investigadores não queriam que os resultados pudessem ser contestados pelos ingleses, aceitando então que os vestígios fossem analisados naquele país.
IDA A INGLATERRA ACABOU POR SE REVELAR INÚTIL
Em Abril deste ano, Paulo Rebelo e dois dos investigadores do processo em que se tentava perceber os contornos do desaparecimento de Madeleine foram a Leicester inquirir os ingleses que passaram férias na praia da Luz com o casal McCann. Sabe-se agora pelo relatório final que nada de conclusivo foi apurado dessas inquirições.
A PJ realça mesmo assim a colaboração estreita que manteve com a polícia local, mas adianta que os depoimentos nada trouxeram de novo. Os amigos dos McCann limitaram-se a confirmar o que já haviam dito em anteriores inquirições e a PJ saiu de mãos vazias daquela cidade a norte de Londres.
MUDANÇA
PauloRebelo, novo líder da investigação após a saída de Gonçalo Amaral, esteve várias vezes no apartamento do Ocean Club, onde foram recolhidos os mais variados vestígios. Esteve também em Inglaterra, onde ouviu testemunhas.
NÚMEROS
443
inquirições porta a porta em apartamentos do Ocean Club, feitas pela PJ, fazem parte de um total de duas mil diligências, formais e informais, levadas a cabo na investigação.
134
funcionários do aldeamento foram ouvidos pelos inspectores nos dias posteriores ao crime. A PJ ouviu ainda os 12 militares da GNR que passaram pelo apartamento na noite de 3 de Maio.
130
elementos policiais e da Protecção Civil estiveram envolvidos nas primeiras 24 horas de buscas. No dia seguinte este número aumentou para 300.
188
caixotes do lixo foram passados a pente fino na Praia da Luz, Lagos, numa tentativa de encontrar o corpo de Madeleine.
30
quilómetros quadrados é a área a que foram alargadas as buscas de todas as forças terrestres nos primeiros dias, além da Polícia Marítima.
NOTAS
3 DE MAIO DE 2007: DESAPARECE
Entre as 21h05 e as 22h00, Madeleine Beth McCann, de três anos, desapareceu do apartamento do Ocean Club, na Praia da Luz. Após as 17h30 só os pais contactaram com menina.
14 DE MAIO: PRIMEIRO SUSPEITO
O britânico Robert Murat é interrogado e constituído arguido. A PJ realizou buscas domiciliárias e escutas telefónicas, mas nunca conseguiu relacioná-lo com o crime a ser investigado.
4 DE AGOSTO: SANGUE
Dois cães treinados, vindos de Inglaterra, detectam odor de cadáver e vestígios de sangue no apartamento, no quintal, em roupas de Kate.
11 DE AGOSTO: MORTA
Cem dias depois do desaparecimento de Madeleine, e após buscas com cães ingleses, os investigadores admitem publicamente que a criança pode estar morta.
7 DE SETEMEBTO: ARGUIDOS
Com base na actuação da equipa cinotécnica, Kate e Gerry McCann são de novo interrogados pela Judiciária e também eles constituídos arguidos.
29 DE NOVEMBRO: TESTE DE ADN
Técnicos portugueses e ingleses reúnem-se na sede da Leicestershire Police para debater os resultados dos testes de ADN dos vestígios recolhidos na investigação.
20 DE JANEIRO DE 2008: RETRATO
O casal McCann divulga um retrato-robô realizado com base em testemunhos. Mais tarde veio a verificar-se que o homem em causa não estava envolvido no crime.
VESTÍGIOS: DEMORA
Os vestígios do veículo usado pelos McCann foram recolhidos em Agosto de 2007. Os resultados dos exames só deveriam demorar algumas semanas.
IML: EXAMES EM PORTUGAL
Os primeiros vestígios recolhidos pela investigação foram enviados para o IML. Os exames não foram também conclusivos e não ajudaram ao esclarecimento.