"Parece que sou dos poucos portugueses que não sabe o que se passou na praia do Meco. Por isso, choca-me a morte de seis jovens, mas não me choca particularmente a sua associação a rituais de praxe: não sei se foram criminosamente mandados enfrentar a fúria das ondas, ou se só estavam, todos, irresponsavelmente, demasiado perto do mar (ou alguma outra hipótese). Muitos de nós vimos ou soubemos de actos estupidamente irresponsáveis cometidos por adolescentes (alguns, adolescentes de vinte e tal anos, ou mais...) que parecem julgar-se imortais. Habitualmente, sem qualquer relação com praxe.
Não, nisto, o que me choca e que está relacionado com praxe são os comportamentos tipo seita da Comissão da Lusófona: retiros de doutrinação com relatórios detalhados, análises de personalidade, testes à fidelidade incondicional. (Documentados numa reportagem da TVI:
VIDEO - Meco: as provas que apontam para ritual de praxe > TVI24; com os tiques sensacionalistas da música de fundo e do exagero da entrevista aos pobres pais, mas não acredito que os documentos sejam falsificados.) Isto é praxe ou a Igreja da Cientologia?
Dou comigo a pensar se isto será uma evolução "natural" da ideia, muito frequente, de que a Praxe é uma forma de vida, um conjunto de valores, entre os quais a hierarquia é fundamental. Uma evolução em direcção ao fanatismo, mas ainda assim linear. Não cometo o erro de pensar que toda a praxe actual é fanática ou vai nessa direcção, mas já soube de tanto exagero (já não me refiro a exageros físicos, mas por exemplo à aceitação da hierarquia praxística fora de contextos minimamente aceitáveis) que temo que muita da praxe actual, não só na Lusófona, não só em Lisboa, esteja já perfeitamente dentro do fanatismo.
Por isto, gostaria de dizer algumas coisas básicas muito claramente, invocando 10 anos de praxista activo (mais 14 de jubilado, observador mais ou menos distante), quatro anos a usar capa e batina todos os dias de aulas, cinco anos de membro activo do Conselho de Veteranos da FCUP, um ano apenas (e já foi demais) de dux:
a praxe tem de ser uma brincadeira;
a praxe levada muito a sério é perigosa;
os valores principais da praxe têm de ser a solidariedade e o bom-senso;
a hierarquia da praxe tem de ser apenas um meio, submetido aos valores principais e a limites bem definidos, nunca um fim.
Um sistema praxístico que viole estes princípios básicos deve ser abolido. A bem das tradições académicas e a bem da praxe. E a bem da sociedade.
Praxem. Sejam praxados. Praxem-se. Mas lembrem-se que muito mais do que caloiros, fitados ou veteranos são pessoas. E se não têm uma vida para além da praxe, por favor arranjem-na. A bem da praxe."