É por estas e por outras que quando me vêm dizer que as relações de trabalho são meras negociações de oferta/procura entre 2 partes em igual plano eu me rio na cara deles. O mercado de trabalho é o mercado mais assimétrico que existe, onde a regra é termos uma parte (o empregador) com muito mais poder negocial do que a outra (o trabalhador). E é por isso mesmo que é necessário haver regras e leis muito claras que defendam o trabalhador contribuindo assim para que o seu poder negocial fique um pouco mais nivelado com o do empregador.
É muito fácil apelidar de parvo ou mesmo ignorante o trabalhador que se submete a um esquema destes, mas quem o faz devia ter um pouco de humildade e perceber que até ele, com um pouco de jeitinho, se pode deixar enredar num esquema semelhante com a maior das facilidades. Por um lado as pessoas precisam de emprego e por isso estão à partida dispostas a correr mais riscos do que está quem já tem esta necessidade preenchida; por outro lado as pessoas costumam partir do princípio que o empregador, sendo uma empresa legalmente estabelecida, é em princípio uma pessoa de bem, e confiam; por outro ainda corre hoje em dia uma espécie de ética de trabalho que diz que um trabalhador tem que se sujeitar a certos sacrifícios para poder provar o seu valor. É uma espécie de acto iniciático que o empregador, investido sabe-se lá por que poder divino, tem direito a exigir do trabalhador! Ora isto é uma grande treta inventada por quem não tem respeito nenhum pelos trabalhadores, e infelizmente muito repetida por muitos trabalhadores que, enredados eles mesmos em condições de trabalho injustas, tendem a exigir o mesmo ou pior dos outros, como se o mal dos seus pares pudesse de algum modo amenizar a sua própria frustração.
Mas no fim de contas a maior perplexidade e condenação tem que ir para o empregador. Como diz a Cataryna, são comportamentos nojentos de quem se acha empresário ou gestor, mas que na verdade não passa de um capataz que nem para gerir roças do tempo dos escravos teria jeito. Empresas destas representam o que de mais rasteiro há, e o poder judicial devia ser implacável com este tipo de atitudes.