Ora bem... Aqui está o "cerne" da questão.
Todos os cães sofrem com o calor!! Os cães continuam a ser genéticamente lobos (espécie adaptada em termos fisiológicos ao hemisfério norte). Os cães ao contrário de nós e de outros animais, não transpiram pelo corpo, sendo a principal fonte de "arrefecimento", o "arfar", em que a enorme lingua exposta é o principal termorregulador, bem como a aspiração de ar refrescado através desta para os pulmões. A transpiração das patas também ajuda muito (mas não tanto nos cães urbanos...).
Mas de um modo geral, podemos dizer que o tipo de pelagem de um cão não tem assim tanta relevancia no conforto ou desconforto perante o calor.
Mais grave e mais sofrível ao calor é um cão prognata (tem dificuldade em manter a lingua exposta) e quando se trata de prognatismo associado a braquicefalia (cabeça compacta com focinho curto), então temos uma potencial vítima de "golpe de calor", independentemente do tipo de manto que tenha, pois para alem de ter dificuldade em expor a lingua correctamente, tem dificuldade em arfar correctamente também.
Embora menos relevante, também os molossoides com lábios pendentes tem maior dificuldade na regulação térmica.
No caso dos cães nórdicos... estes têm uma cabeça e focinho "lupino", que é muito eficiente na termorregulação. Não tenho conhecimento de cães nórdicos vítimas de golpe de calor, mesmo vivendo a temperaturas de quarenta e muitos graus.
Quanto ao sub-pelo... os cães nórdicos (e não só) fazem mudas de pelo influenciadas pela temperatura ambiente (posso dizer que este ano, alguns dos meus cães já vão na 4ª muda por causa da irregularidade das temperaturas ao longo do ano...).
De qualquer modo, as mudas "de verão" fazem-lhe perder essencialmente grande parte do sub-pelo (camada interior lanosa), deixando durante bastante tempo o pelo propriamente dito (camada cerdosa). Mesmo quando existem "mudas totais", o sub-pelo da pelagem é menos denso, embora mantenha as características onduladas que fazem com que o pelo "cerdoso" fique pouco acamado (fica sempre mais ou menos "armado"). Ora isto faz com que, mesmo tendo o animal uma protecção dos raios solares, existe arejamento por entre o pelo, sendo que qualquer brisa que sopre, acaba por refrescar. Por outro lado, a textura do pelo mantem-se "mais ou menos" de modo a formar uma "capa" algo volumosa para protecção do calor.
Cães nórdicos que vivam em climas tropicais de calor contínuo, desenvolvem pouco subpelo e têm um ar muito mais "safino"... excepto com um gromming que os faça parecer aquilo que não são...
Qual é o cão que exposto à torreira do sol, mais rapidamente poderá sofrer um golpe de calor? Obviamente que será um cão de pelo curto e raso, sobretudo se for prognata e braquicefalo.
Agora, também se poderá dizer que um cão com pelo raso quando regressar a um local fresco (sombra), arrefecerá mais rapidamente.
Assim, um cão nórdico terá vantagens na exposição ao sol (pois demora mais tempo a chegar o calor à pele), devido à sua protecção, mas quando sobreaquecido (pois a camada de ar que circula sob o sub-pelo acabará por aquecer mais tarde), necessitará de mais algum tempo para arrefecer. Mas como na prática, o arrefecimento da pelagem não tem assim tanta diferença de tempo, poder-se-á dizer que a sua significancia não é assim tão relevante. Ambientes extremamente quentes afectam os cães de igual modo, independentemente da sua pelagem.
Em relação ás adaptações de cães criados em climas diferentes, como é lógico, demorará muito mais tempo a adaptação de um cachorro que nasceu no Alasca e que veio directamente para o Alentejo, do que aquele que nasceu no Alentejo, o qual já nasceu adaptado. Os animais necessitam de algum tempo para adaptarem o seu metabolismo, e mudanças rápidas de clima podem potenciar o "sofrimento" durante essa adaptação.
Mas em suma, um cão que esteja adaptado a climas frios agrestes, não quer dizer que sofra mais do que os outros com o calor. Tudo depende de outras características que não simplesmente a pelagem.
Ou seja, um cão pode não suportar o frio de igual forma (porque criamos cães sem sub-pelo e consequentemente sem a devida protecção), mas em relação a suportar o calor, não existem assim diferenças tão relevantes...
Portanto, o "chavão" de os cães nórdicos sofrerem mais com o calor do que a maioria dos cães "normais", não passa de um mito urbano!!
Um nórdico (um malamute, por exemplo) suporta bem o frio e suporta bem o calor (ou mal, como qualquer outro cão...). O frio, suporta melhor que a maioria, o calor, suporta de igual modo...
Um dobermann, suporta bem o calor, mas é um friorento do caraças... tem um bom "sistema de arrefecimento", mas falta-lhe o sub-pelo...
Um boxer, nem uma coisa, nem outra... suporta mal o frio por ausencia de sub-pelo e suporta mal o calor por ter um "sistema de arrefecimento" deficiente...
Se formos ver bem a coisa... temos por aí raças com que nos devemos preocupar muito mais com o calor do que os cães nórdicos.