Bolas! Um Domingo passado a trabalhar e o tempo está optimo, com um sol radiante...é mesmo azar! Não posso ir para a praia com os meus pequenos, que ainda dormem, possivelmente a pensarem que malandrices e asneirolas vão hoje fazer...Dou-lhes um beijo e saio, pé ante pé, com o coração apertado, porque só os vou voltar a ver à noitinha..."vai passar num instante!", tento convencer-me eu, já sabendo que me estou a enganar e o dia vai ser uma eternidade.
Resmungo alguns palavrões baixinho e prometo a mim mesmo, pela 543ª vez, que esta vida de cão tem que acabar...
O dia até passa depressa...um policia que teve que entrar em contacto com um doente infectado com a gripe A e não percebe porque nao lhe dão nenhum medicamento a prevenir o contágio, 1 ou 2 velhotes com olhar vago e distante, com infecções urinárias ou AVC's e com a familia a pensar quando é que o diabo do velho morre e desejando que desta vez o hospital os aceite pelo menos mais uma semana que da ultima vez, que nem nas férias se tem descanso dos velhos...uma familia ensanguentada, mas onde a chapa parece ser mais preocupante que a cana do nariz partida do chefe de familia ou que o choro das crianças assustadas no banco de trás...dou por mim a tentar brincar com os miudos enquanto lhes faço uns pequenos testes neurológicos...o pai? que se lixe, está mais preocupado com o carro, que sangre...! Dou por mim recriminar-me de pensar assim...."estou a ficar azedo e gasto" penso para com os meus botões...
Uma chamada rapida e encho-me logo de alegria: ouço gritos e risos de miudos na praia a brincar felizes..."papá, estamos jogar gaguetes!" diz o mais novo, enquanto a minha mulher me assegura que estão bem dispostos. "nem se lembram de ti", diz-me ela. "E isso é para me fazer sentir melhor?" provoco eu, com um riso nervoso, enquanto corrijo o mais novo e repito "raquetes, seu murcão!" "gaguetes, gaguetes!" desafia-me o meio quilo de gente...é um amor. São uns amores.
Uma tarde cheia de trabalho, nem me lembro do bom tempo que está e de que é Domingo. É mais um dia de trabalho, como tantos outros. Um desmaio aqui, mais gripe A acolá, uma crise de histeria de uma mulher de meia idade enquanto os filhos encolhem os ombros e olham com desinteresse. "costuma ter estas crises..." diz um deles. Será que ela não se sente sozinha no meio de uma familia que não lhe liga nenhuma e tem que fazer estas "crises" para obter um pouco de atenção nem que seja uns breves minutos, por parte do marido e dos matulões dos filhos...triste vida.
Final do dia, quase 21 horas. Estou cansado, mal humorado, só me apetece sair do trabalho e deixar-me cair no sofá ou na cama..."estou sem paciência para o que quer que seja", disse eu à minha mulher, como que a avisar que não queria que me chateassem e muito menos jantar fora.
Mal chego ao carro, vejo 3 pares de olhos que me avaliam meio admirados meio expectantes, como que a ver como virá o "papá" hoje...naquele momento o meu coração, como se fosse uma pilha de litio que não vicia, começa a encher-se de alegria....faço uma cara de mau e os 3 pequenos orgulhos fitam-me desconfiados.
Grrrrrrrauuuuurrrrrrr!!!!! faço um rosnar de velociraptor ou carnossaurus, já nao me lembro bem (são os pequenos que sabem as diferenças e os nomes de tudo o que é reptil pré histórico). Os olhos brilham cintilantes, os sorrisos abrem-se e os abraços e xis-corações chovem na minha direcção...
Sinto os olhos humidos e tento abraçar os 3 pequenos pedaços de céu encaixados nas cadeiras do carro. Nesse momento, esqueço o nariz a sangrar, os olhos vagos e perdidos dos anciãos, a mulher tresloucada de falta de amor, as gripes, os srs agentes, os miudos assustados no banco de trás do carro,...tudo.
Deixa-me gozar esta felicidade e fazer os meus filhos felizes. Acho que adormeceram a acreditar que o mundo é bom. Vou deixa-los sonhar mais uns anos...
" A vida não é feita de felicidade, mas de momentos felizes..." dizia alguem.
desculpem a "lamechice"...[kiss]