Que significados encerra a expressão
desencontros e ambiguidades numa investigação de âmbito sociológico sobre a solidão?
É possível estudar sociologicamente algo de carácter tão subjectivo?
A linha de raciocínio comum no estudo deste fenómeno
social consiste, não raras vezes, em traçar a sua diacronia de forma a que a questão de partida seja colocada nos seguintes termos: há mais solidão nos nossos dias ou, pelo contrário, nunca estivemos tão próximos?
De início também não soubemos escapar a essa sede do rótulo e da classificação criada pelo pensamento dicotómico que se tornou fonte de múltiplos desencontros com a realidade e de uma grande perplexidade.
À medida que aprofundávamos os conhecimentos era a própria pergunta de partida que se transformava em pergunta de chegada de novas preocupações mais refinadas: somos cada vez mais ilhas isoladas, oásis de afectos num deserto de anonimato ou arranjamos formas válidas de encontros virtuais? Que novas formas de afectos conhecemos?
A argumentação principal deste estudo é simples: as pessoas aparentam ter saudades do modelo que ajudaram a destruir. Mas atenção: os que recusam algumas características das diferentes
tribos que temos no presente não querem voltar ao passado da vizinhança indiscreta, do mundo sem comunicação à escala global, da forte dependência de alguns grupos sociais relativamente a outros, como é o caso das mulheres e dos jovens.
Por outro lado, foram estudados os
desencontros daqueles que buscam a alma gémea ou alguém com quem partilhar a vida, mas que, até hoje, não foram bem sucedidos. Por isso mesmo o nosso objecto de estudo foi a análise de uma iniciativa da
Notícias Magazine intitulada "Quem quer casar com a carochinha?" que, durante sensivelmente um ano, publicou anúncios de pessoas que, estando sós ou sentindo-se sozinhas, procuravam companhia. Para além disso, estudou-se uma associação promotora de encontros entre pessoas livres e as linhas telefónicas de ajuda. O nosso objectivo ao conhecer estas realidades foi o de apreender diferentes formas de combate à solidão.
Entretanto, paralelamente a essas questões, tentámos verificar o peso das expectativas familiares e do grupo de amigos no estabelecimento de relações "normais", o desfasamento entre a vida real e os desejos e esperanças criados pelos média, as diferenças de género existentes relativamente às representações de solidão, de viver só, e de homem/mulher ideal.
Como se apreendeu a ambiguidade nos encontros com a realidade
A população escolhida para análise foram os participantes da iniciativa da
Notícias Magazine, "Quem quer casar com a carochinha?" (que teve o seu início a 23 de Novembro de 1997 e terminou a 28 de Dezembro de 1998). Assim, foram contactados por carta 311 indivíduos, responderam 79, dos quais foram apenas aproveitadas 73 respostas.
Os textos da iniciativa (considerámos apenas 542) foram alvo de uma análise de conteúdo quantitativa no programa informático SPSS(
Statistical Package for Social Sciences).
A escolha do inquérito por questionário fundamentou-se em questões práticas de deslocação e também de segurança para o investigador (e não em motivos principais de quantificação), por isso mesmo colocámos um número razoável de questões abertas no inquérito.
Recebemos 59 inquéritos-resposta, dos quais considerámos válidos 56.
Para o tratamento estatístico da informação dos inquéritos utilizou-se o SPSS, e realizou-se uma análise de conteúdo quantitativa das respostas às questões abertas do inquérito.
Realizámos duas entrevistas directivas com voluntárias da linha
SOS: Voz Amiga e uma entrevista com uma voluntária da linha
SOS: Estudante em Coimbra.
Entretanto, tomámos conhecimento, no decorrer do trabalho, da existência da Associação Promotora da Comunicação entre Pessoas Livres:
O Solum, onde realizámos cinco entrevistas directivas.
Após termos recebido os inquéritos, decidimos realizar entrevistas semidirectivas de aprofundamento da problemática de Giddens sobre a modernidade e a identidade pessoal aos participantes da iniciativa. A análise de conteúdo destas entrevistas foi de tipo qualitativo.
Encontros e desencontros teóricos
O paradigma científico-epistemológico orientador desta pesquisa foi o construtivista, i. e., partiu-se do pressuposto da leitura do mundo social como construído quer por aqueles que o estudam, quer por aqueles que o produzem, tendo presente que os primeiros também fazem parte dos segundos. É neste quadro que Giddens se torna um autor fulcral.
Desta forma, as três sensibilidades por ele teorizadas (histórica, crítica e antropológica) prendem-se com a ideia, que adoptamos totalmente, de que na modernidade tardia nenhum tipo de saber equivale a certeza ou dogma; antes prevalecem a instabilidade e a reflexividade contínuas sobre as práticas sociais, mas também, e sobretudo, sobre as teorias e metodologias sociológicas que tantas vezes têm influenciado o desenrolar das primeiras.
Assim, afirmamos que não concebemos visões unilineares ou catastróficas acerca da solidão, das sociabilidades e das suas estratégias no quotidiano da modernidade.
Poder-se-á pensar: na história da humanidade sempre houve mudanças, então o que distingue as da modernidade tardia em particular? O seu ritmo - rapidez extrema; o seu alcance - global; e a própria natureza das instituições modernas, ou seja, o facto de algumas formas sociais modernas nunca terem existido em períodos anteriores.
A mais importante dimensão da modernidade seria a penetração da
reflexividade na vida pessoal e institucional, aliada ao distanciamento espácio-temporal, que acarreta consigo os fenómenos da
descontextualização/deslocalização.
Mas a modernidade é um fenómeno com duas faces: a diurna, a das oportunidades, e a das sombras. Veja-se o exemplo da solidão: conquistou-se um espaço longe do forte controlo ecológico dos vizinhos e da parentela, o indivíduo encontra-se livre daqueles constrangimentos, com possibilidade de contactos a qualquer hora e para virtualmente qualquer lugar à face do globo e, todavia, continuam a existir solidão e isolamento.
A ideia comum, veiculada até mesmo por alguns teóricos, é a de que hoje o Homem está só como nunca antes na sua história. A época presente é associada à perda de algo e ao saudosismo desse algo que se perdeu e que a maior parte não consegue definir de forma clara. A este propósito afirma Zeldin (1994: 63):
A história que em geral nos contaram foi esta: no princípio, toda a gente vivia confortavelmente numa família ou tribo, as pessoas nem sequer sabiam o que era a solidão e não se concebiam a si mesmas como sendo indivíduos separados. Depois, de repente e há pouco tempo, essa "unidade" desfez-se. Agora temos não só uma epidemia de solidão a varrer o mundo, lado a lado com a prosperidade, como também, quanto maior for o nosso êxito, maior é a probabilidade de virmos a sofrer desse mal… Que o dinheiro não consegue resolver.
A história está repleta de exemplos em que o fenómeno da solidão se fez sentir de forma mais ou menos acentuada. Assim sendo, a abordagem histórica permite-nos pôr em causa visões lineares acerca da evolução do fenómeno, uma vez que este foi assumindo características diferentes conforme o seu enquadramento social e temporal.
Outra questão pertinente para a análise do fenómeno da solidão é o confronto do conceito de comunidade
versus o conceito de sociedade, que tem feito correr muita tinta desde os primórdios da sociologia: a distinção de Tönnies (1926), as dicotomias que têm pautado a discussão sobre o desenvolvimento dos colectivos industrializados e urbanizados, de acordo com a definição de Norbert Elias (1993).
Para Giddens, o debate nos moldes anteriores não é fecundo, pois as diversas correntes confundem as diferentes acepções de comunidade, e reage aos autores que defendem a tese da impessoalidade da modernidade, afirmando que, em cenários pré-modernos, os contactos sociais eram baseados numa familiaridade relacionada com a limitação ao local de residência que raramente proporcionava o grau de intimidade pessoal e sexual que hoje é possível.
A este propósito, Lipovetsky (1989: 73) exprime-se da seguinte forma:
(…) é menos a fuga perante o sentimento que caracteriza o nosso tempo do que a fuga perante os signos da sentimentalidade. Não é verdade que os indivíduos procurem um desprendimento emocional e se protejam contra a irrupção do sentimento; a esse inferno povoado de mónadas insensíveis e independentes devemos opor os clubes de encontros, os pequenos anúncios, a "rede", todos esses milhões e milhões de esperanças de encontros, de ligações, de amor, que precisamente se realizam com cada vez mais dificuldade (…). Homens e mulheres continuam a aspirar tanto como antes (ou talvez nunca tenha havido até tanta "procura" afectiva como nesta época de deserção generalizada) à intensidade emocional de relações privilegiadas, mas quanto mais forte mais raro parece tornar-se o milagre fusional, ou, em todo o caso, mais breve.
Do argumento deste autor surgiu a nossa hipótese de que a procura de uma relação pessoal e íntima, e até de uma relação que toque o idealizado (relações privilegiadas), esteja relacionada com o que ele chama
época de deserção generalizada, ou seja, a busca do outro como um oásis numa era dos "poucos mas bons amigos". O
outro refúgio é alguém com quem se pode contar e partilhar numa sociedade por vezes pautada pelo
stress e pela competição.
Como hipótese, pretendeu-se demonstrar que, se existe essa sede de contacto, então o problema está no ritmo avassalador das transformações, a que Giddens faz referência, e que ainda não permitiram ao indivíduo libertar-se de uma certa nostalgia (e por vezes o passado é mais idílico no presente)e ganhar consciência do leque de novas possibilidades que o rodeiam.
Em conclusão, a maior parte das comunidades tradicionais baseadas no forte controlo ecológico, nas relações de proximidade física, de parentesco e em valores que fomentam a dependência do indivíduo ao invés da sua autonomia, estão a desaparecer. Nas sociedades industrializadas e urbanizadas tem-se vindo a assistir a uma progressiva emancipação e libertação da rede de parentes e vizinhos que controlavam e, tantas vezes, reprimiam o indivíduo. Para os defensores dos "bons velhos tempos" é, muitas vezes, necessário lembrar que o carácter romanceado da vida de outrora não passa disso mesmo, e que todas as épocas e, já agora, todos os locais têm tonalidades negativas e positivas.
É claro que não pretendemos, nem o poderíamos fazer, negar as manchas de individualismo egocêntrico e o esvaziamento da subjectividade.
Todavia, a busca do outro já começou. Embora em moldes mais liberais essencialmente fundamentados no respeito pelo espaço próprio e alheio.
Na sequência do que dissemos anteriormente, é imperativo discutir as diferentes noções de individualismo.
Um dos nossos objectivos é distinguir alguns dos seus significados e, ao fazê-lo, explicar de forma diferente os fenómenos sociais, não negando o que Michel Wieviorka (1988) chama
sobre-exposições causadas pela competitividade da vida económica moderna que gera ansiedade, o
culto da performance para Alain Ehrenberg (1995), ou quando a patologia emerge da rejeição e da exclusão de promessas da sociedade não realizadas, como é o exemplo de produtos ou serviços da sociedade de consumo.
Embora fale em privatismo (consequente da dissolução do lugar e da crescente mobilidade), Giddens refere-se ao cosmopolitismo e carácter público das áreas urbanas modernas, impossível nas comunidades tradicionais, chamando a atenção para a abertura do leque de possíveis e para a diversidade de oportunidades, contrariando as posições teóricas de autores como Lasch (1984) e Sennett (1977).
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Ora, segundo Giddens, é errado supor que a auto-identidade se torna cada vez mais narcisista, sendo o narcisismo um mecanismo psicológico, e nalguns casos patológico, resultante das conexões entre identidade, vergonha e projecto reflexivo do
self. Giddens critica Sennett e Lasch, pois considera que o crescimento das grandes organizações burocráticas, e dos seus poderes arbitrários, e a influência da produção de mercadorias, que retiraria o controlo individual sobre a vida quotidiana, não se desenvolvem sem resistência e são mais problemáticos do que estes autores pressupõem.
Assim, a vida social na modernidade apresenta alguns paradoxos: empobrece a acção individual mas permite a apropriação de novas possibilidades, é alienadora mas os seres humanos reagem às circunstâncias opressivas. E, em muitos aspectos, os sistemas abstractos fornecem possibilidades de reapropriação maiores do que as disponíveis nas culturas tradicionais. Exemplos disso são as relações puras nas quais os indivíduos estão a construir formas inovadoras de relação familiar em que por vezes podem eclodir ocasiões de instabilidade.
A este propósito, Lipovetsky refere-se a uma nova lógica nas sociedades democráticas: o
processo de personalização, um novo modo de socialização e individualização inédito e em ruptura com o dos séculos XVII e XVIII, e que ele considera como uma segunda revolução individualista.
A base desta nova individualidade encontrar-se-ia na revolução das necessidades e na explosão da produção e do consumo de massa, assim como na melhoria do nível de vida, no desenvolvimento dos lazeres, no crédito e na publicidade. Todos estes factores terão promovido um
hedonismo de massa e a busca incessante de prazer.
Quanto às críticas acerca do consumismo, Lipovetsky contrapõe a acentuação das singularidades; a multiplicação de possibilidades "destrói fórmulas imperativas", diversifica comportamentos e gostos.
No entanto, não deixa de referir os
males da autonomia, ou seja, o declínio dos laços sociais, das estruturas familiares e das referências religiosas, favorecendo não raro todo o tipo de seitas, marginalidades sociais, comportamentos descontrolados e irracionais e a indefinição das opiniões.
Em relação à solidão, afirma que "o tempo em que a solidão designava as almas poéticas e de excepção passou" e que esse sentimento se generalizou (Lipovetsky, 1989: 41). Fruto do processo de personalização, o indivíduo pede para o deixarem só mas depois não o suporta.
Por seu lado, Michel Maffesoli também critica os mais pessimistas em relação à época que atravessamos:
o individualismo, quer em si mesmo quer na sua forma derivada de narcisismo, é central em muitos livros, artigos e teses (…). Os chamados peritos, imperturbáveis pela cautela (…) disseminam uma sabedoria convencional e algo desastrosa sobre o retiro para o "eu", o fim dos ideais colectivos ou da esfera pública. Há uma tendência para nos encontrarmos face a um tipo de doxa, que talvez não se venha a manter mas que é, apesar de tudo, amplamente aceite, e que, no mínimo, tem o potencial de mascarar ou negar as formas sociais que se estão a desenvolver nos nossos dias (Maffesoli, 1996: 9).
E acrescenta:
(…) tantas vezes insistimos na desumanização e no desencanto em relação ao mundo moderno e na solidão a que aquele conduz, que já não somos capazes de vislumbrar as redes de solidariedade que existem nele (
idem: 72).
Ao individualismo egoísta e narcisista devemos opor algo aparentemente paradoxal: um individualismo assente na necessidade do Outro, baseado na recusa do isolamento (no qual muitos se abrigam sob o pretexto da falta de privacidade), devido ao falhanço para muitas pessoas da superficialidade que pautava as suas vidas, tanto ao nível das relações de vizinhança como das de trabalho, e até mesmo nas relações de amizade e de convivialidade mais gerais como, por exemplo, assistir a eventos culturais ou tomar um café com amigos.
Uma das dimensões mais importantes da era em que vivemos é, sem dúvida, o poder de escolha do indivíduo e a sua capacidade e, em grande medida, a sua obrigação, de tomar decisões: o declínio das autoridades tradicionais a isso obriga.
Lipovetsky refere mesmo a omnipresença da escolha nos nossos dias:
(…) o indivíduo é obrigado permanentemente a escolher, a tomar iniciativas, a informar-se, a criticar a qualidade dos produtos, a auscultar-se e a testar-se, a manter-se jovem, a deliberar acerca dos actos mais simples (Lipovetsky, 1989: 102).
Elias (1993) diz a esse respeito que os indivíduos são confrontados com o ritmo crescente de alternativas, e dispõem de um leque mais variado de escolhas, mas o corolário de tal possibilidade é que esta se transforma em obrigação e, paradoxalmente, nesse sentido não têm escolha.
Nestas situações de incerteza e variedade de escolha surgem as noções de risco e de confiança. A primeira é central numa sociedade que oscila entre o passado da tradição e o futuro incerto dos especialistas e do conhecimento pericial.
Não que a modernidade seja mais arriscada do que épocas anteriores. O que aparece de verdadeiramente novo é a inevitabilidade do raciocínio em termos de avaliação dos riscos.
Outros teóricos, como Ulrich Beck (1992), e Scott Lash (1992) debruçaram-se sobre a
modernização reflexiva, que definem como a capacidade crescente de indivíduos e os grupos aplicarem o seu conhecimento de uma forma crítica a eles próprios e às circunstâncias que os rodeiam.
As formas e laços sociais de outrora (classe social, família) foram substituídas por instituições como a moda, as políticas sociais e o mercado - institucionalização dos
padrões biográficos, trazendo graves riscos.
Ora, à medida que ocorre o processo de individualização, ocorre simultaneamente um duplo efeito: por um lado, as formas de percepção tornam-se privadas e a-históricas, no limite, como refere Beck (1992: 135), "tudo gira à volta do eixo do ego pessoal e da vida pessoal". Por outro lado, a quantidade de oportunidades abertas à decisão do indivíduo está a aumentar: aparece a biografia auto-reflexiva, o
do-it-yourself. Ao indivíduo é pedido um "modelo vigoroso de acção na vida de todos os dias" (
idem: 136).
A concepção deste autor tem muitos pontos em comum com a teoria de Giddens, autor que argumenta que nas circunstâncias da modernidade tardia o futuro é
colonizado, ou seja, o planeamento estratégico da vida permite simular as possibilidades e os riscos que o indivíduo enfrentará posteriormente ao tomar determinadas decisões no presente.
O tipo-ideal de relação pura caracteriza-se pela dissolução dos critérios externos sociais e económicos e pela sua existência apenas por aquilo que a relação em si poderá oferecer, pelo prazer da relação em si, o que provoca, na grande maioria das vezes, ansiedades e insegurança no indivíduo, paralelamente a um sentimento de nunca estar totalmente satisfeito:
No passado, o que os amantes mais recearam foi provavelmente a solidão. Porém, agora, a prisão no interior de uma relação estática tornou-se ainda mais preocupante. A sede por novas experiências, pelo desconhecido, pelos estranhos, é maior do que nunca (Zeldin, 1994: 85).
Por outro lado, é uma relação organizada reflexivamente, baseada num questionamento contínuo para o qual contribuem artigos de jornais e revistas, especialistas, programas de televisão e rádio.
Para além disso, pressupõe um compromisso, que não significa
co-dependência, mas sim, que cada pessoa esteja na relação autónoma e segura do seu próprio valor e que aceite o facto de as únicas recompensas da relação serem inerentes a ela própria.
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Naturalmente, este tipo de relações tem inerentes
stress e tensões, pois está sempre presente a possibilidade de dissolução.
Este novo tipo de relação envolve uma nova versão de amor, o
amor confluente (Giddens, 1995: 41). Este caracteriza-se principalmente pela substituição do desequilíbrio de género, presente no
amor romântico. No mesmo sentido, Bourdieu refere que, no
amor puro, o sujeito "entrega livremente a sua liberdade a um senhor que lhe entrega a sua própria, coincidindo com ele num acto de livre alienação (…)" (Bourdieu, 1999: 95).
Desencontros e ambiguidades: a busca do outro na era do eu
Por vezes parece que a modernidade é uma loja de conveniência. Porque parece ser esse mesmo o conceito. Cada vez mais, a tendência é a da satisfação das necessidades imediatas do indivíduo. A qualquer hora. A qualquer preço. O reino das possibilidades está aberto toda a noite.
Que pode o aprendiz de sociólogo concluir desta época de privatização do público e publicitação do privado?
Tudo acontece sob a égide da dúvida e da escolha - a
reflexividade da
modernidade -, e dos grandes movimentos do
capitalismo e da
globalização, mas a emancipação da mulher tem um papel fundamental nas múltiplas transformações ocorridas, não só ao nível do relacionamento entre os géneros como ao nível do novo modelo de vida privada a solo.
As práticas subjectivas dos actores conjugam-se com as dimensões globais da modernidade.
Sujeito e
estrutura combinam-se na explicação destes fenómenos.
Neste estudo, relativamente aos factores da sociedade moderna que propiciam a solidão, os indivíduos demonstraram grande preocupação relativamente à dissolução da família/divórcio, ao egoísmo, aos estilos de vida nos grandes centros urbanos, à falta de tempo para estar com os filhos, à falta de diálogo e à competitividade na vida económica moderna, a qual aparentemente é um grande factor de ansiedade para os indivíduos. De facto, esta última, juntamente com o consumismo, referido sobretudo nas entrevistas, as
sobre-exposições, de que fala Wieviorka (1988), são conotadas pelos indivíduos que participaram no estudo de forma bastante negativa.
Todavia, as pessoas têm consciência que as circunstâncias na modernidade tardia mudaram. Reconhece-se o isolamento mas também o que mudou para melhor e as novas oportunidades que vão surgindo. Há um acordo relativamente à maior possibilidade de escolha nos relacionamentos nos dias de hoje. Paradoxalmente, essa abertura do leque das possibilidades não tem feito diminuir a solidão dos indivíduos. É precisamente aqui que parece residir o núcleo da discussão. Como conceber que naquela que é por excelência a era das comunicações continue a existir solidão?