Mazda Rx 8 Top Gear
Mazda Rx 8 Top Gear
Mazda rx-8
Pimenta vermelha: o sedã disfarçado de cupê traz a última palavra em motor rotativo e é capaz de virar a cabeça de quem procura emoção
Por Adriano Griecco, de Los Angeles / fotos: Isaac Hernandez
Quando o Mazda RX-8 chegou, em abril do ano passado, foi saudado pela crítica com um entusiasmo pouco comum no meio especializado. Jornalistas europeus, assim como americanos, não economizaram adjetivos para elogiar a performance do motor, o comportamento esportivo e a facilidade de condução no limite. "É o melhor carro que dirigi neste ano", afirmou Jeremy Clarkson, ao volante do RX-8 durante a avaliação gravada para seu programa de TV, na BBC. Clarkson é o mais ácido crítico especializado em automóveis do Reino Unido, uma celebridade no país cuja paixão por carros é algo indiscutível. Assim como é respeitado, é temido e odiado com igual intensidade por executivos e engenheiros de montadoras. Já no estúdio, questionado sobre a afirmação, Clarkson saiu-se com um "eu estava mentindo!". Uma atitude bem ao seu estilo, um iconoclasta temperado com algumas gotas de cinismo e boa dose de humor corrosivo. O fato inegável é que ele se divertiu um bocado "detonando" um RX-8 na pista, como puderam testemunhar os espectadores ingleses do programa Top Gear.
Há quase dez anos, o Mazda RX-7 deixava de ser comercializado nos Estados Unidos. Diante do primeiro caso de sucesso comercial com o motor rotativo, a Mazda já trabalhava em um novo modelo, visando ganhos em durabilidade, consumo e emissões. Mas, antes que ele entrasse em produção, a Ford assumiu o controle da Mazda e colocou o projeto na gaveta.
Foram alguns anos até a Ford perceber que um carro com motor rotativo (também conhecido por Wankel, em homenagem ao seu criador, o alemão Felix Wankel) não era apenas mais um produto no portfólio da Mazda. Em 1999, a sensação no Salão de Tóquio foi o RX-Evolv, um concept car que serviria de base para o novo RX-8.
A marca do seu visual são os traços vincados. No capô nota-se um triângulo no centro - uma alusão ao pistão rotativo, a alma do Wankel. Na traseira, as lanternas dominam e utilizam um plástico translúcido nas lentes e máscara cromada por quase toda sua extensão. Um segundo triângulo fica ao centro, entre as saídas de escape. Na busca de uma solução visualmente esportiva para o sedã, os estilistas da Mazda optaram por portas traseiras que se abrem no sentido oposto ao tradicional, para a direita, as chamadas portas tipo suicida. Para reforçar ainda mais o disfarce, não há maçanetas externas. As portas traseiras têm de ser abertas por dentro.
Ao se entrar no RX-8, uma sutil iluminação em tom azul sobre os mostradore dá as boas-vindas. São três focos de luz, um para cada grupo de instrumentos: à esquerda estão concentrados os indicadores do nível de combustível e da temperatura da água, ao centro fica o conta-giros e à direita estão o marcador de temperatura do óleo e o hodômetro total e parcial. E o velocímetro? Ele é digital e está incorporado ao conta-giros. Mais uma vez o triângulo se faz presente na manopla da alavanca do câmbio e, vazado, também no encosto de cabeça dos bancos dianteiros, que têm formato de concha e vestem bem o motorista. Quando se liga a ignição, a iluminação azul cede espaço para a iluminação convencional do painel, em tons de vermelho e branco. O tom avermelhado também toma parte do console central, onde estão o rádio e os comandos do ar-condicionado digital. Próximo do freio de mão ficam os botões do sistema de navegação, opcional.
No mercado americano o RX-8 custa 26680 dólares. O preço do carro que você vê nas fotos beira os 34000 dólares. Isso porque os bancos com aquecimento, revestidos de couro (preto e vermelho), o controle de estabilidade, os faróis de xenônio e o sistema de navegação são opcionais. Um de seus rivais por lá é o Nissan 350Z, cujo preço também está na casa dos 26000 dólares, uma barganha em se tratando de carros deste naipe e temperamento. Os comandos do RX-8 parecem "orbitar" ao seu redor. Tudo está à mão, com a facilidade de o volante e os bancos contarem com regulagem de altura. O Mazda é um carro baixo - tem 13,5 centímetros de altura em relação ao solo - e a posição de dirigir do sedã é de esportivo, bem mais próximo do chão que num colega de espécie. Para quem viaja atrás, a abertura das portas - apesar de estreitas - e a ausência da coluna central facilitam o acesso. Mas a realidade é que apenas dois adultos viajam com conforto a bordo do RX-8.
Até aqui você deve estar se perguntando por que cargas d'água Jeremy Clarkson rasgou elogios a este Mazda. Mas basta girar a chave e acordar o motor para você começar a duvidar de que ele estivesse, de fato, mentindo. Nesse momento, um ruído metálico invade a cabine. Na primeira acelerada, em vez de um ronco grave, como todo esportivo, o que se ouve é um ziiiing. Essa é a forma de os 238 cavalos, vindos do motor 1,3 litro com dois pistões rotativos (veja quadro com mais detalhes no final desta página), manifestarem sua disposição. A alavanca de câmbio é baixa, com engates curtos que primam pela precisão. Logo depois de engatar a primeira, descobri que o câmbio de seis marchas também tem escalonamento curto. Isso tem lá seus motivos - para que o motor trabalhe em rotações mais altas. O RX-8 tem 90% do seu torque disponível a partir das 3250 rotações. Nessas horas, a elasticidade do motor Wankel mostra-se outro ponto forte. Ele vai bem até as 9000 rpm, permitindo boas retomadas sem ter que trocar as marchas. E tome ziiiing no ouvido.
O desempenho em linha reta do RX-8 impressiona - ele chega aos 100 km/h em cerca de 6 segundos, de acordo com a Mazda. O mais legal de tudo é observar a agulha do conta-giros voar até a faixa vermelha - que começa em 8500 rpm - antes de trocar de marcha. Mas meu interesse era ver como ele se comportaria nas curvas. Principalmente no quesito rigidez torcional, lembrando do fato de o RX-8 ter quatro portas sem a coluna central. A prova foi subir o monte Santa Inês, em Santa Bárbara, por uma estrada chamada Camino del Cielo. E, quanto mais forte eu fazia as curvas, mais o carro me instigava a acelerar. E nada de a carroceria torcer. Segundo a Mazda, a rigidez do RX-8 é maior que a de seu antecessor, graças a reforços no chassi. Parte desse bom desempenho está ligada à distribuição certeira de peso (50% na dianteira e 50% na traseira) e ao uso dos pneus 225/45 ZR18. O Mazda é equilibrado, mas responde às provocações à altura. Com tração traseira e motor dianteiro - e controle de estabilidade desligado -, eventuais excessos vão resultar em uma patinada das rodas motrizes nas saídas de curva. A partir daí, dá-lhe contra-esterços no volante para manter o RX-8 na trajetória. É o paraíso na pista para os adeptos do modo "com emoção". Quer saber? Acho que o Clarkson não estava mentindo, não.
Círculo virtuosoO motor Wankel possui as mesmas quatro fases de um motor convencional - admissão, compressão, expansão e exaustão -, com a diferença que três desses tempos ocorrem simultaneamente. O pistão rotativo, que é triangular, divide o interior do motor em três câmaras com volume variável. Enquanto a mistura ar-combustível é injetada, um lado do pistão está fazendo a compressão e o outro dando vazão aos gases. Em seguida, ocorre a expansão da mistura comprimida, a continuação do escape e uma nova injeção de combustível. O motor do RX8 - também chamado de Renesis ("re" vem de Rotary Engine e "nesis" é uma alusão à palavra genesis, "nascimento"). A mudança na localização da janela de escape e o aumento de sua área melhoraram o desempenho a ponto de dispensar os turbocompressores do antecessor. O Renesis promete ser mais durável, com uso de material mais resistente na fabricação do pistão, que ficou 14% mais leve.
ADMISSÃO (amarelo)
O disco rotativo abre espaço para a entrada da mistura ar-combustível
COMPRESSÃO (laranja)
Uma das paredes do disco comprime a mistura e a vela produz a faísca, provocando a explosão que impulsiona a rotação do pistão
EXPANSÃO (verde)
Após a faísca, os gases se expandem e empurram um dos lados do rotor, gerando movimento
EXPULSÃO (vermelho)
Escape dos gases produzidos
Mazda no Brasil
Em 1996 a Ford assumiu o controle da Mazda, depois de adquirir 33,4% das ações da companhia baseada em Hiroshima, no Japão. Nessa época, a Mazda do Brasil ainda estava firme por aqui, importando modelos como o 626, o MX-3 e o Protegé. Quatro anos mais tarde, a empresa encerraria suas atividades por aqui, deixando seus proprietários à mercê da própria sorte - e que até hoje sofrem com a falta de peças e têm de recorrer a importadores independentes. A Ford afirma que não tem planos de trazer a Mazda novamente para mercado brasileiro.
Ficha técnica
Motor
Rotativo, dianteiro, longitudinal, 2 rotores
Cilindrada: 1308 cm3
Taxa de compressão: 10:1
Potência: 238 cv a 8500 rpm
Torque: 22 mkgf a 5000 rpm
Câmbio
Manual, 6 marchas, tração traseira
Carroceria
Peso: 1347 kg
Peso/potência: 5,7 kg/cv
Peso/torque: 61,2 kg/mkgf
Volumes:
Porta-malas, 290 l; tanque de combustível, 45 l
Suspensão
Amortecedores hidráulicos e molas helicoidais
Dianteira: Independente, com dois triângulos invertidos
Traseira: Independente, do tipo Multilink com barra estabilizadora
Freios
Hidráulicos com disco ventilado nas quatro rodas, ABS e EBD
Direção
Hidráulica, pinhão e cremalheira
Rodas e pneus
Alumínio, aro 18; pneus 225/45 ZR18
Principais itens de série
Ar-condicionado, ABS, direção hidráulica, duplo airbag, piloto automático, trio elétrico, rodas de liga leve
Itens opcionais
Sistema de navegação via GPS, som Bose, controle de estabilidade, faróis de xenônio
Preço
26680 dólares
(nos Estados Unidos)