"Pátria" de Guerra Junqueiro

T? Z?

Banido
Felizmente que Portugal mudou muito e nada disto se verifica hoje (passados 112 anos)!!! (eh, eh)
Leiam:
" Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e
sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos
de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de
dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz
de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se
lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo,
enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da
sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, -
reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta (...)

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta ate à medula, não
descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem
carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida intima, descambam
na vida publica em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a
veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao
roubo, donde provém que na politica portuguesa sucedam, entre a
indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis
no Limoeiro (...)

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este
criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto
pela abdicação unânime do pais, e exercido ao acaso da herança, pelo
primeiro que sai dum ventre, - como da roda duma lotaria.

A justiça ao arbítrio da Politica, torcendo-lhe a vara ao
ponto de fazer dela saca-rolhas;

Dois partidos (...), sem ideias, sem planos, sem convicções,
incapazes (...) vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e
pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao
outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgando e fundindo,
apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, - de não
caberem todos duma vez na mesma sala de jantar (...)"

Guerra Junqueiro, in "Pátria", escrito em 1896
 
Última edição:
O livro Viagens na Minha Terra e Uma Família Inglesa também apresentam trechos deliciosos sobre a nossa "portugalidade"

Atentemos nesta frase:

<<Não se
lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai;>>

Não admira portanto que Salazar viesse a dizer décadas mais tarde <<sei muito bem o que quero e para onde vou" e iniciando aquilo que viria a ser chamado de Estado Novo.
 
O livro Viagens na Minha Terra e Uma Família Inglesa também apresentam trechos deliciosos sobre a nossa "portugalidade"

Atentemos nesta frase:

<<Não se
lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai;>>

Não admira portanto que Salazar viesse a dizer décadas mais tarde <<sei muito bem o que quero e para onde vou" e iniciando aquilo que viria a ser chamado de Estado Novo.

Pena foi tê-lo feito da maneira que fez...
 
Pena foi tê-lo feito da maneira que fez...

Acima de tudo foi um político habilidoso que soube aproveitar as circunstâncias e as características do povo português para exercer a ditadura.

Para que conste não sou Salazarista e o meu av[SIZE=-1]ô[/SIZE] materno foi inclusivamente perseguido pela PIDE. [;)]
 
Pena foi tê-lo feito da maneira que fez...

Como?!
Pena, desgraça q restava p este país, foi tê-lo feito.
E fê-lo como só o podia fazer, instituindo uma ditadura corporativa, apoiado numa polícia política e sacralizando os nossos mais (ou menos...) brandos e miseráveis costumes.

E n, n sou do B.E. nem nada disso.
 
Como?!
Pena, desgraça q restava p este país, foi tê-lo feito.
E fê-lo como só o podia fazer, instituindo uma ditadura corporativa, apoiado numa polícia política e sacralizando os nossos mais (ou menos...) brandos e miseráveis costumes.

E n, n sou do B.E. nem nada disso.

Acreditas mesmo no que escreveste, ou foi só porque estás chateado com o tópico do Sporting?

Voltando ao tópico, nada mudou...
 
Yup, e podes ler comentários de Eça, escritos há 100 anos tb, e vês que nada, mas mesmo nada, mudou. Ou melhor, mudaram as moscas.
 
Acreditas mesmo no que escreveste, ou foi só porque estás chateado com o tópico do Sporting?

Voltando ao tópico, nada mudou...


Respondo... n respondo...
O gajo nem me conhece de lado nenhum, quanto mais "chateado" ou pensar q tem graça...
Mas como sei sepatrar as coisas, respondo.


Acredito mesmo.
 
De uma actualidade atroz...

De uma actualidade atroz...

Será que alguém me sabe dizer quem e quando escreveu isto:

"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta. [.]
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provem que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.
Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."
 
Será que alguém me sabe dizer quem e quando escreveu isto:

"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta. [.]
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provem que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.
Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."


Muito bom.
Conheço bem, já li várias vezes, a 1ª das quais há muito tempo... mas o nome do autor n me sai de baixo da língua!
Isto antecede por pouco o regicídio de D. Carlos, numa altura em q se chamavam os bois pelos nomes. A imprensa n tinha o menor dos problemas em reproduzir coisas destas e, até, muitíssimo piores, c caricaturas comentadas do piorio pelo meio. Olha q, muitas vezes, apelava-se à urgencia do regicídio!
As analogias c a estagnação e relativismo podres actuais são muito fáceis de fazer. Nem precisamos de substituir muitas cabeças, apenas actualizar um ou outro cargo, um ou outro badameco. Mas coisa, de facto, muito pouca.
 
Voltar
Superior