Em contexto de mercado livre, os preços ajustam de forma a que o preço acumulado a pagar pela casa própria seja mais elevado que o preço acumulado a pagar pela casa arrendada. Esse diferença será, no muito longo prazo (50 anos ou mais), mais ou menos equivalente ao valor comercial do imóvel. É mais ou menos assim que um mercado livre funciona.
O problema é que em Portugal o mercado imobiliário está totalmente desregulado, fruto, paradoxalmente, de regulamentações exageradas no passado: a lei das rendas. Isto fez com que o mercado de arrendamento oscilasse entre rendas antigas estupidamente baixas, e rendas recentes estupidamente altas. Ao mesmo tempo assistiu-se desde a entrada no euro a uma década de juros artificialmente baixos, o que fez pender ainda mais a balança para o lado da aquisição.
Contudo, se os mercados de compra/venda e arrendamento estabilizarem, e se a fiscalidade não nos trouxer grandes surpresas, é natural que as relações de forças se equilibrem. Em suma, deixando-se o mercado funcionar, o que deverá suceder é que a pessoa de 30 anos que comprou casa, aos 60 já a tem paga, mas gastou mais que a pessoa que nunca comprou e que viveu em casa arrendada. Em teoria a pessoa que arrendou, porque gastou menos em habitação, terá poupanças acrescidas que lhe permitirão continuar a viver por mais 20 ou 30 anos em casa arrendada.
Isto tudo em teoria, claro.
Não acredito nisso, mesmo que o ajustamento em Portugal fosse rápido e duro (e está a ser).
A prova disso é que os filhos dos detentores de património são quase sempre os mais ricos da geração seguinte (em suma o mercado não é livre).
Só mesmo em teoria, porque na prática a pessoa que arrenda tende a gastar o excedente(diferença entre pagar crédito habitação e pagar renda) e porque a pessoa que compra tem património (muitas vezes superior à poupança de quem arrendou).
Imaginemos alguém que ao arrendar poupa 300 euros por mês e comparemos com quem compra.
No exemplo que coloquei na pág. anterior seria compra de uma imóvel de 187.500€.
Quem arrenda, em 30 anos poupou: 300€ x 12 meses x 30 anos = 108.000€.
Este valor dará para comprar (30 anos depois) uma casa? Provavelmente não.
Ainda que dê para comprar: Se passados 30 anos comprou uma casa, porque é que não o fez logo de início? Faz sentido poupar para depois retornar à opção que não se seguiu?
E se não comprar nada e viver mais 20 anos? Gasta os 108.000€, ok. Mas no final de vida o património = Zero. É esta a diferença, gastou-se e não se investiu.
