A geração perdida!? A geração perdida é esta e as anteriores. Perdidos andamos há muito todos nós.
As universidades dos dias de hoje, muitas vezes, mais não são do que máquinas de venda de canudos. Através de uma mentalidade puramente mercantilista limitam-se a abrir cursos, muitos dos quais sem saída profissional, mesmo debaixo do olhar governamental que vai fechando os olhos à venda desta autêntica «banha da cobra».
A massificação do acesso ao ensino levou muitos pais a entrarem na miragem de outros tempos de querer que os seus filhos tirem um curso superior, ou melhor, consigam o tal canudo. Talvez até estejam mais a projectar nos seus filhos a realização de um sonho seu nunca realizado do que a empreender para que o filho tenha um futuro melhor.
Entrámos na era dos canudos e depois temos falta de técnicos em electricidade, carpintaria, canalizações, mecânica, construção civil, agronomia, etc.
A imagem social instituída de que é preciso tirar-se um curso para conseguir um bom emprego está claramente a sair defraudada por culpa de todos nós. E as maiores vítimas são os jovens. Eles são as primeiras vítimas desse engodo e os pais que os têm de sustentar durante mais um sem número de anos acabam por se aperceber que a realidade é outra bem diferente.
Mas também um novo código do trabalho que permite despedir sem ter de fazer um processo disciplinar pelo trabalhador vem agudizar esta situação. O trabalhador deixou de ser um valor de uma empresa e passou a representar apenas um número.
O que interessa é ter emprego. Nem que se seja às custas de perder direitos adquiridos; nem que seja às custas de trabalho precário; nem que seja a recibos verdes; nem que seja com a imposição unilateral de flexibilização de horários; nem que seja através da penalização das mulheres grávidas; nem que seja através da exploração de horas extra não remuneradas; nem que seja através da exploração do homem pelo homem.
Reina o sentimento de que os trabalhadores são os culpados pela crise e terão de pagar por isso. E quem paga em primeiro lugar é a parte mais fraca e fácil de se explorar: os mais jovens. Isto é inadmissível numa sociedade que se diz civilizada. Cobra-se aos mais velhos o sacrifício de um prolongamento na carreira enquanto se vão frustrando e calando os jovens com fortunas em subsídios para os ir mantendo anulados. Depois arranjam-se uns trabalhos precários a termo ou a recibos verdes e criam-se todo o género de explorações aos nossos filhos para que os mesmos possam pelo menos ter um emprego.
Tudo isto é culpa dos sucessivos governos que nos têm desgovernado.
É fundamental que se discuta o emprego, mas o emprego com direitos, ou seja, não é agora validarmos a lei da selva par se resolver o problema. Não é agora a regredirmos 100 anos. A crise está a ser o mote usado para a exploração e humilhação de quem apenas quer trabalhar.
E se nós mais velhos fomos a geração hipotecada, estes mais novos são a geração enganada. Mais do que geração perdida, eles estão perdidos no meio de toda esta trapalhada em que se transformou um país que se esqueceu do seu sector primário, das PMEs, dos seus jovens e, por conseguinte, do seu futuro. Um futuro que, pelos vistos, apenas passa em investir fortunas em projectos megalómanos que hipotecarão de vez, não só o nosso futuro, como principalmente o dos nossos jovens. Um assalto que, uma vez mais, se direcciona na direcção do betão em vez de se preocupar em investir naquilo que temos de melhor: as pessoas.
E assim se vai pagando (o subsídio de desemprego) para manter os jovens calados. E eu pergunto: até quando poderá isso acontecer? Até quando será essa a solução? Até quando continuaremos a hipotecar o nosso futuro? Até quando continuaremos os mais velhos a andar perdidos arrastando os jovens neste abismo?