Quem é amigo, quem é?
A Presidência da República já anunciou que não vai receber Hugo Chávez. Mas o primeiro-ministro aparentemente tem assuntos importantes a debater com o presidente venezuelano e vai recebê-lo oficialmente em S. Bento, terça-feira à tarde. Naturalmente que não conhecemos a agenda do encontro, mas podemos facilmente aventurar algumas hipóteses. Vamos explorar aqui três possibilidades.
Primeiro cenário possível – O presidente venezuelano podia estar a tentar uma aproximação à Espanha, em cujo caso Portugal podia ser-lhe de utilidade, já que, além de país vizinho, detém a presidência da UE. Não seria a primeira vez que um tal volte face aconteceria na política exterior venezuelana. Lembremos que a Venezuela tem andado a tentar restabelecer relações diplomáticas com o México depois de o presidente Fox ter cortado relações com o governo venezuelano porque Chávez lhe chamou “cachorro do imperialismo”. Lembremos ainda que a Venezuela tem andado a pôr água na fervura com o Peru depois de Chávez ter intitulado o presidente Alan García de “ladrão carteirista de meia-tigela”. Também o presidente Bush tem sido sistematicamente alvo de um interminável arsenal de insultos – desde “burro” a “bêbedo” –, mas, curiosamente, nunca reagiu. Na cimeira ibero-americana realizada no Chile, há poucos dias, o rei Juan Carlos ainda se dignou ouvir como o senhor Chávez insultava o ex-primeiro-ministro Aznar, mas quando o presidente venezuelano interrompeu a réplica de Zapatero, o rei perdeu completamente as estribeiras e mandou-o calar da forma mais taxativa e vexatória. A resposta de Chávez ao incidente foi que iria passar as contas das empresas espanholas a “pente fino”, a mais perfeita e descarada manifestação do caudilho que se sente dono do país e por cima da lei. A Espanha é o único país do mundo que nos últimos anos tem feito investimentos avultados na Venezuela, ao abrigo de umas excelentes relações diplomáticas que o governo de Zapatero tem mantido com o país sul-americano. O Ministério dos Negócios Estrangeiro espanhol, através do próprio ministro Moratinos, tem defendido as trafulhices pseudo-democráticas de Chávez, ultrapassando os limites do defensável, mas, em compensação, tem sido generosamente retribuído. As grandes empresas espanholas – Telefónica, Santander, BBVA, Repsol, etc. – constituem o último grupo de grandes empresas estrangeiras que ainda não abandonaram a Venezuela e que continuam a realizar investimentos neste país. O governo de Zapatero tem sido ainda um recurso de legitimidade que tem mantido abertas as portas da Europa ao senhor Chávez. Mas, se é a própria Espanha que está num processo de reavaliação desta posição (ao que tudo indica, face ao que está a acontecer com a reforma constitucional venezuelana) e que lhe quer fechar agora essas portas, o governo português só podia fazer um papel ridículo ao tentar mediar um conflito de “comadres”.
Segundo cenário possível – Tem-se vindo a afirmar que o governo venezuelano podia estar eventualmente interessado em comprar leite a Portugal e que, nesse caso, o senhor Sócrates se prestaria a propiciar tais negócios. Não cabe na cabeça de ninguém que fosse preciso um encontro ao mais alto nível para tratar um assunto que podia ser discutido por funcionários de terceiro nível, mas examinemos ainda assim tão peregrina hipótese. Por um lado, basta dar um passeio por um hipermercado português para se perceber imediatamente que Portugal não tem capacidade para abastecer de leite um país de quase trinta milhões de habitantes. Além disso, a Venezuela tem a tradição de comercializar e de consumir o leite quase exclusivamente em pó, o que em Portugal é muito pouco comum. E, por último, convém explicar que a falta de leite (e de muitos outros produtos básicos) que tem assolado a Venezuela nos últimos tempos é resultado da política económica do senhor Chávez, que obriga os empresários venezuelanos a venderem os produtos a um preço estipulado pelo governo – e que há anos que não é actualizado –, sob pena de fecho e expropriação das instalações fabris e comerciais. Dado que os produtores e as entidades comerciais não podem vender a preços inferiores ao custo, os produtos desaparecem do mercado e os industriais e comerciantes são acusados de boicote à revolução. Esta situação não é nova e tem-se estado a resolver à força de petro-dólares: o governo compra (trigo, leite, frango, etc.) no estrangeiro e depois revende estes produtos através da sua própria rede de supermercados (Mercal), a preços exorbitantemente subsidiados, demonstrando assim que, afinal, os produtos nacionais não se vendiam aos preços estipulados porque os “burgueses oligarcas” não queriam, “obviamente” implicados em grandes conspirações para derrubar o governo. Com este procedimento já se comprou trigo à Argentina e carne ao Brasil, mas seria verdadeiramente lamentável que, por falta de informação, Portugal se chegasse a ver envolvido em negócios que não são nada transparentes do ponto de vista formal e totalmente condenáveis do ponto de vista moral. Grande parte da comunidade portuguesa na Venezuela, que ocupa variadas posições na cadeia logística alimentar daquele país, desde posições humildes até grandes conglomerados industriais e comerciais, são vítimas directas destas políticas, que, em última análise, visam arrasar com o tecido industrial do país, porque é nesses sectores mais cultos e informados da população que se encontram mais objecções à natureza pseudo-democrática do regime bolivariano.
Terceiro cenário possível – Uma última hipótese que justificaria a presença de Chávez em S. Bento seria a existência de uma importante comunidade de portugueses na Venezuela. Encontros bilaterais deste tipo têm-se vindo a realizar ao longo de muitos anos, sem que a comunidade portuguesa tenha daí colhido grandes frutos. Para mencionar um exemplo, a princípios dos anos noventa, o então ministro da Segurança Social do governo de Cavaco Silva, Silva Peneda, foi à Venezuela assinar um protocolo de reciprocidade em matéria de segurança social. Tal acordo nunca entrou em vigor e um emigrante português que pode ter passado vinte ou trinta anos a enviar remessas para Portugal, que investiu todas as suas poupanças numa casa em solo português para o seu regresso à terra natal, encontra-se de súbito desprovido de reforma e de direitos básicos de segurança social – e nesta situação encontram-se milhares de famílias. Aparentemente o senhor Sócrates e o senhor Chávez interessam-se ambos pela comunidade portuguesa, mas os portugueses residentes na Venezuela sentem que não lhes têm nada que agradecer porque vêem que as suas lojas, as suas fábricas, os seus supermercados todos os dias são ameaçados, como estão a ser ameaçadas as suas mais elementares liberdade civis, como a liberdade de escolher os seus governantes, a escola onde estudam os filhos ou a rua por onde preferem transitar para não serem tão facilmente sequestrados.
Percebo que a Presidência da República não tenha manifestado interesse em receber uma personalidade que cada dia com mais força se revela contrária aos princípios democráticos e até aos mais elementares princípios da boa educação e do bom senso. Lamento, por isso, que o senhor Sócrates ainda não consiga enxergar bem o assunto Chávez com a mesma clareza franca que mostra o professor Cavaco Silva.
Jaime Senra
Filho de emigrantes portugueses nascido na Venezuela