O mundo é pequeno
Destruído por dentro e com a passividade assombrosa das autoridades reguladoras, as soluções possíveis para o BCP foram queimadas a conta-gotas.
Ricardo Costa
A iniciativa privada em Portugal fez esta semana a figura mais triste de que me lembro (enfim, sem puxar muito pela memória...). Quando o BCP precisa de ser salvo, e a expressão é mesmo literal, por uma equipa de gestão da Caixa Geral de Depósitos, está tudo dito. Não passava pela cabeça de ninguém que o exemplo máximo da economia de mercado portuguesa, um banco estudado pela sua excelência, capaz de criar quadros excelentes a um ritmo forte, não tivesse capacidade de se renovar nem de ir “pescar” gestores ao sector privado. Não tenho nada contra a Caixa (para além de ter uma sede “tipo Ceausescu” e de me ter feito perder milhares de horas da minha vida em filas intermináveis noutros tempos...). Mas não percebo, não percebo mesmo que os accionistas do BCP (um saco de gatos com ‘pedigree’ mas muito assustados) não tivessem sido capazes de formar uma alternativa no mercado, sem precisarem de ir ao beija-mão ao ministro das Finanças.
Nunca fui um fã do BCP e nunca lá tive um tostão guardado. Desdenho o Opus Dei e tudo o que me cheira a moralismo e falso estoicismo. Sempre achei o BCP uma instituição pesada, embora o tom ‘cerise’ do Millennium e a volta que Paulo Teixeira Pinto lhe tentou dar tenham sido um óptimo esforço no sentido contrário – acho, aliás, que o choque entre o salto de modernidade dos dois últimos anos do Millennium, protagonizado por Teixeira Pinto, e a velha tradição do BCP, corporizada em Jardim, Alípio ou Beck, está na origem de toda esta crise. Mas há uma coisa que sempre admirei no BCP: durante anos a fio foi a melhor escola da banca portuguesa, a concorrência seguia-o com inveja, os lucros eram astronómicos, o crescimento absolutamente consolidado e a liderança era excepcional. Era lá que o ‘benchmarking’ estava parqueado.
Todos sabemos, ou fomos sabendo, como é que o BCP chegou ao estado em que agora está. Destruído por dentro e com a passividade assombrosa das autoridades reguladoras, as soluções possíveis foram queimadas a conta-gotas, quase sempre pelos próprios accionistas e/ou gestores. E foi assim que chegamos à “solução Caixa”. Uma solução surrealista por tudo o que escrevi antes. E quando todos achamos natural uma solução surrealista é porque já estamos à espera de qualquer coisa. É certo que a quadra é festiva, e que nesta altura temos mais açúcar e álcool no sangue que o normal, mas quando todos acordarmos no dia 2 de Janeiro, a verdade é que quem manda no BCP é a “malta da Caixa”.
O mais estranho em tudo isto é que a “malta da Caixa” não é constituída pelos “águias” da banca nacional: Carlos Santos Ferreira é um excelente líder e gestor, mas é, acima de tudo, um homem que sabe de seguros como poucos; Vítor Fernandes tem exactamente os mesmos pergaminhos nos seguros; Armando Vara é o mais atacado de todos (é fácil atacá-lo), fez um grande trabalho na Caixa e vai fazer tudo para mostrar que pode ser um grande gestor na banca (e só quem não o conhece é que pensa que ele vai falhar nisto), mas ainda não está na lista dos melhores quadros da banca nacional. É certo que a actual administração da Caixa fez um trabalho notável, levou os lucros a valores astronómicos, encheu o Tesouro de dividendos e, mais importante ainda, foi o braço armado do Estado em casos como a PTM, a Galp ou mesmo a Compal, elevando os sumos de fruta a desígnio nacional!!!
Muito mais importante que a alegada entrada do PS no BCP (quem pediu esta solução foram os accionistas) é a proximidade aos interesses do Estado. Com o fim anunciado das ‘golden shares’ (ainda bem), o Estado usa sempre os seus bancos como braços armados na economia nacional. A Caixa sempre fez isso muito bem. O BES, o BPI ou o BCP também o fazem, mas quase sempre por interesse dos seus accionistas. A partir de agora, o Estado passa a ter um ‘leverage’ sobre o BCP e vai usar isso sempre que precisar. Não há almoços grátis.
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Ricardo Costa, Director da Sic Notícias
Fonte:
DiarioEconomico