Quando os Dalai Lamas Governavam – O Inferno na Terra
Um Clima Cruel, Uma Sociedade Sem Piedade
O Tibete é um dos lugares mais remotos do mundo. Situa-se num planalto de alta montanha bem no coração da Ásia. Está separado da Ásia do Sul pelos Himalaias, as montanhas mais altas do mundo. Inúmeros desfiladeiros cavados pelos rios e pelo menos seis diferentes cordilheiras de montanhas dividem essa região em vales isolados. Antes de todas as mudanças que chegaram com a revolução chinesa de 1949, não havia no Tibete nenhuma estrada em que os veículos de rodas pudessem andar. Todas as viagens eram feitas através de sinuosos e perigosos caminhos de montanha – em mulas, a pé ou em iaques (animais de montanha que parecem vacas peludas). O comércio, as comunicações e um governo centralizado eram quase impossíveis de manter.
A maior parte do Tibete está acima da linha das árvores. O ar é muito rarefeito. Aí não crescem a maioria das culturas e das árvores. Era uma luta dura cultivar alimentos e mesmo encontrar lenha para fazer fogo.
Por altura da revolução, a população do Tibete vivia extremamente dispersa. Cerca de dois ou três milhões de tibetanos viviam numa área quase igual a metade dos Estados Unidos – 3,9 milhões de quilómetros quadrados [cerca de 40 vezes Portugal ou metade do Brasil –
NT]. As aldeias, mosteiros e acampamentos nómadas estavam frequentemente separados por muitos dias de viagem árdua.
Os revolucionários maoistas viram que havia “Três Grandes Carências” no velho Tibete: carência de combustível, carência de comunicações e carência de pessoas. Os revolucionários concluíram que essas “Três Grandes Carências” não eram causadas pelas condições
físicas, mas sobretudo pelo
sistema social. Os maoistas disseram que as “Três Grandes Carências” eram causadas pelas “Três Abundâncias” da sociedade tibetana: “Abundância de pobreza, abundância de opressão e abundância de temor ao sobrenatural”.
A Sociedade de Classes no Velho Tibete
Antes das mudanças revolucionárias iniciadas em 1949, o Tibete era uma sociedade
feudal. Havia duas classes principais: os servos e os aristocratas proprietários dos servos. O povo vivia como os servos na Europa da “Idade das Trevas”, ou como os escravos e os meeiros africanos no Sul dos EUA.
Os servos tibetanos raspavam as colheitas de cevada da terra dura com arados e foices de madeira. Criavam cabras, ovelhas e iaques para obterem leite, manteiga, queijo e carne. Os aristocratas e os lamas dos mosteiros eram
proprietários das pessoas, da terra e da maioria dos animais. Forçavam os servos a entregar a maioria dos cereais e exigiam todo o tipo de trabalhos forçados (chamados
ulag). Entre os servos, tanto os homens como as mulheres participavam no trabalho duro, incluindo o
ulag. Os povos nómadas dispersos pelas áridas terras altas do Tibete ocidental também eram propriedade dos senhores feudais e dos lamas.
O irmão mais velho do Dalai Lama, Thubten Jigme Norbu, alegou que na ordem social lamaísta, “não havia nenhum sistema de classes e a mobilidade de classe para classe tornava impossível qualquer preconceito de classe”. Mas a própria existência dessa ordem religiosa baseava-se num sistema de classes rígido e brutal.
Os servos eram tratados como seres “inferiores” menosprezados – tal como eram tratados os negros no sistema Jim Crow do Sul dos EUA. Os servos não podiam sentar-se nos mesmos sítios, usar o mesmo vocabulário ou comer com os mesmos talheres que os seus donos. Tocar num dos pertences dos amos poderia mesmo ser punido com chicotadas. Os amos e os servos estavam tão distante uns dos outros que em muitas partes do Tibete falavam idiomas diferentes.
Era costume um servo pôr-se de joelhos e mãos no chão para que o seu amo pudesse usar as suas costas para montar um cavalo. O estudioso do Tibete A. Tom Grunfeld descreveu uma menina da classe dominante que habitualmente fazia com que os criados a levassem escada acima e escada abaixo por pura preguiça. Frequentemente, os amos atravessavam os riachos às costas dos seus servos.
No Tibete, a única coisa pior que um servo era um “escravo pessoal” que nem sequer tinha direito a cultivar nenhuma cultura para si próprio. Estes escravos eram frequentemente espancados, obrigados a passar fome e a trabalhar até à morte. Um amo podia transformar um servo em escravo quando quisesse. Na capital do Tibete, Lhasa, havia rotineiramente crianças a ser compradas e vendidas. Cerca de 5% dos tibetanos eram considerados escravos pessoais. E pelo menos outros 10% eram monges pobres que na realidade eram “escravos em túnicas”.
O sistema lamaísta tentava impedir qualquer fuga. Os escravos foragidos não podiam ir simplesmente estabelecer-se nas vastas terras vazias. Alguns ex-servos explicaram à escritora revolucionária Anna Louise Strong que, antes da libertação, “Não se podia viver no Tibete sem um amo. Seríamos apanhados como criminosos a não ser que tivéssemos um dono legal.”
Nascer Mulher – Prova de Pecados Passados?
O Dalai Lama escreveu: “No Tibete não havia nenhuma discriminação especial contra as mulheres”. O biógrafo autorizado do Dalai Lama, Robert Hicks, alega que as mulheres tibetanas estavam contentes com a sua situação e que “influenciavam os seus maridos”. Mas, no Tibete, nascer mulher era considerado um
castigo por comportamento “ímpio” (pecador) numa vida anterior. No velho Tibete, a palavra para “mulher”,
kiemen, significava “nascimento inferior”. Dizia-se às mulheres que rezassem: “Possa eu rejeitar um corpo feminino e renascer homem”.
A superstição lamaísta associava as mulheres ao mal e ao pecado. Dizia-se: “Em cada dez mulheres encontrarás nove diabos”. Tudo o que as mulheres tocassem era considerado contaminado – pelo que foram criados todo o tipo de tabus sobre as mulheres. As mulheres estavam proibidas de tocar em medicamentos. A escritora Han Suyin relatou: “Nenhuma mulher estava autorizada a tocar nos bens de um lama, nem podia construir uma parede, porque ‘a parede cairia’... Uma viúva era um ser desprezível, um diabo em vida. Nenhuma mulher estava autorizada a usar instrumentos de ferro ou a tocar no ferro. A religião proibia-as de erguerem os olhos acima dos joelhos de um homem, tal como os servos e os escravos não estavam autorizados a erguer os olhos até à face dos nobres ou dos grandes lamas.”
Os monges das principais seitas do Budismo Tibetano rejeitavam a intimidade sexual (ou mesmo o contacto) com mulheres, como parte dos seus planos de santidade. Antes da revolução, nenhuma mulher tinha alguma vez posto os pés na maior parte dos mosteiros ou nos palácios do Dalai Lama.
Há relatos de mulheres queimadas por darem à luz gémeos ou por praticarem a religião tradicional pré-budista (conhecida como
Bon). Os gémeos eram considerados prova de que a mulher tinha acasalado com um mau espírito. Os rituais e a medicina popular da
Bon eram considerados “bruxaria”. Como noutras sociedades feudais, as mulheres da classe alta eram vendidas em casamentos arranjados. A tradição permitia que um marido cortasse a ponta do nariz da mulher caso descobrisse que ela tinha dormido com outra pessoa. As práticas patriarcais incluíam a
poliginia (em que um homem rico podia ter muitas mulheres) e, nas famílias nobres das terras mais pobres, a
poliandria (em que uma mulher era forçada a ser esposa de vários irmãos).
Entre as classes mais baixas, a vida familiar era semelhante à da escravatura no Sul dos EUA. (Ver
A Vida de Uma Escrava Tibetana.) Os servos não podiam casar nem sair de uma propriedade sem autorização do amo. Os amos transferiam à sua vontade os servos de uma propriedade para outra, separando para sempre as suas famílias. A violação das servas era comum – no sistema
ulag, um senhor feudal podia exigir “esposas” temporárias.
Os Três Amos
O povo tibetano chamava aos seus governantes “Os Três Grandes Amos” porque a classe dominante dos proprietários de servos estava organizada em três instituições: os lamas dos mosteiros possuíam 37% das terras aráveis e de pastoreio do velho Tibete; a aristocracia laica 25%; e os restantes 38% estavam nas mãos dos agentes governamentais nomeados pelos conselheiros do Dalai Lama.
Cerca de 2% da população do Tibete pertencia a essa classe alta e mais 3% eram seus funcionários, encarregados, mordomos, gerentes das propriedades e oficiais dos exércitos privados. A
ger-ba, uma minúscula elite de cerca de 200 famílias, governava no topo do sistema. Han Suyin escreveu: “Apenas 626 pessoas possuíam 93% de toda a terra e riqueza e 70% de todos os iaques do Tibete. Entre essas 626 pessoas estavam 333 dirigentes de mosteiros e responsáveis religiosos e 287 autoridades laicas (incluindo nobres do exército tibetano) e seis ministros do governo”.
Os comerciantes e os artesãos também pertenciam a um aristocrata. Um quarto da população da capital Lhasa sobrevivia a mendigar aos peregrinos religiosos. Não havia nenhuma indústria moderna nem uma classe operária. Até os fósforos e os pregos tinham que ser importados. Antes da revolução, ninguém no Tibete tinha alguma vez recebido salário pelo seu trabalho.
A essência desse sistema era a exploração. Os servos trabalhavam 16 a 18 horas por dia para enriquecerem os seus amos – recebendo apenas cerca de um terço da comida que produziam.
A. Tom Grunfeld escreveu: “Essas propriedades eram extremamente lucrativas. Um antigo aristocrata disse que uma ‘pequena’ propriedade consistiria tipicamente em alguns milhares de ovelhas, mil iaques, um número indeterminado de nómadas e duzentos servos agrícolas. A produção anual consistiria em mais de 36 toneladas de cereais, mais de 1800 kg de lã e quase 500 kg de manteiga... os funcionários governamentais tinham ‘poderes ilimitados de extorsão’ e podiam fazer uma fortuna com os seus poderes, extraindo subornos em troca de não encarcerarem nem castigarem as pessoas... Também podiam extorquir aos camponeses mais dinheiro que o dos impostos oficiais”.
Os proprietários dos servos eram parasitas. Um observador, Sir Charles Bell, descreveu um funcionário típico que passava uma hora por dia nas suas tarefas oficiais. Nas suas festas, a classe alta passava dias a comer, jogar e descansar. Os lamas aristocratas também nunca trabalharam. Passavam os dias a cantar, a memorizar dogmas religiosos e a não fazer nada.
Os Mosteiros: Praças-Fortes do Feudalismo
Os defensores do velho Tibete retratam o Budismo Lamaísta como a
essência da cultura do povo tibetano. Mas na realidade não é mais que a
ideologia de um
sistema social opressor específico. A própria religião lamaísta é
exactamente tão antiga quanto a sociedade feudal de classes. O primeiro rei tibetano, Songsten-gampo, estabeleceu um sistema feudal unificado no Tibete, por volta do ano 650. Casou-se com princesas da China e do Nepal
para aprender com elas as práticas feudais de fora do Tibete. Essas princesas trouxeram o Budismo Tântrico para o Tibete, onde foi fundido com as antigas crenças animistas para criar uma nova religião, o Lamaísmo.
Essa nova religião teve que ser
imposta pela violência ao povo pela classe dominante durante o século e meio seguinte. O rei Trosong Detsen decretou: “Quem apontar um dedo a um monge terá o dedo cortado; quem disser mal dos monges e da política budista do rei terá os lábios cortados; quem olhar desconfiadamente terá os olhos arrancados...” (Grunfeld, pág. 33).
Entre os séculos XIII e XVII, teve lugar uma sangrenta consolidação do poder e os abades dos grandes mosteiros tomaram o poder global. Como esses abades praticavam um celibato misógino (anti-mulher), o seu novo sistema político não se podia basear na sucessão
hereditária de pai para filho. Por isso, os lamas criaram uma nova doutrina na sua religião: anunciaram que conseguiam identificar crianças recém-nascidas que seriam reencarnações dos altos lamas mortos. Centenas de altos lamas foram declarados “Budas Vivos” (
Bodhisattvas) que supostamente governavam há séculos, mudando ocasionalmente para novos corpos quando se gastavam os velhos corpos anfitriões.
Disseram que o símbolo central desse sistema, os vários homens chamados Dalai Lamas, eram o antigo deus tibetano da natureza, Chenrezig, que pura e simplesmente tinha reaparecido em 14 corpos diferentes ao longo dos séculos. Na realidade, apenas três dos 14 Dalai Lamas governaram de facto. Não houve nenhum Dalai Lama adulto no trono do Tibete entre 1751 e 1950 durante 77% do tempo. Os abades mais poderosos governaram como conselheiros “regentes” que ensinavam, manipulavam e chegavam a assassinar as crianças-rei Dalai Lamas.
Os mosteiros tibetanos não eram nenhuns
Shangrilas santos e de compaixão, como nas actuais fantasias
New Age. Esses mosteiros eram escuras fortalezas de exploração feudal – aldeias armadas de monges, que incluíam depósitos militares e exércitos privados. Os peregrinos iam para alguns santuários para rezarem por uma vida melhor. Mas a principal actividade dos mosteiros era roubar os camponeses vizinhos. O enorme e ocioso clero religioso cultivava pouca comida – alimentá-los era um grande fardo para o povo.
Os maiores mosteiros alojavam milhares de monges. Cada mosteiro “pai” criava dezenas (ou mesmo centenas) de pequenas praças-fortes dispersas pelos vales das montanhas. Por exemplo, o enorme mosteiro de Drepung alojava 7000 monges e era proprietário de 40 000 pessoas em 185 diferentes propriedades com 300 pastos.
Os mosteiros também criaram inúmeros impostos religiosos para roubarem o povo – incluindo impostos sobre cortes de cabelo, janelas, soleiras de portas, sobre crianças ou bezerros recém-nascidas, sobre bebés nascidos com pálpebras duplas... e por aí adiante. Um quarto dos rendimentos de Drepung vinha dos juros do dinheiro emprestado aos servos camponeses. Os mosteiros também exigiam aos servos que entregassem um grande número de rapazes para servirem como crianças-monges.
As relações de classe do Tibete foram reproduzidas
dentro dos mosteiros: a maior parte dos monges eram escravos e criados dos abades superiores e viviam vidas meio-esfomeadas de trabalho servil, cânticos de orações e espancamentos rotineiros. Os monges superiores podiam obrigar os monges pobres a fazerem os seus exames religiosos ou a prestarem serviços sexuais. (Na seita tibetana mais poderosa, o sexo homossexual era considerado um sinal de sagrada distância em relação às mulheres.) As freiras constituíam uma pequena percentagem do clero.
Depois da libertação, Anna Louise Strong perguntou a um jovem monge, Lobsang Telé, se a vida do mosteiro seguia os ensinamentos budistas sobre a compaixão. O jovem lama respondeu que nas salas das escrituras ouvia muita conversa sobre generosidade para com todas as criaturas vivas, mas que a ele o tinham chicoteado pelo menos mil vezes. “Se algum lama da classe alta se abstém de nos chicotear”, disse ele a Strong, “isso já é muito bom. Eu nunca vi um lama superior a dar comida a nenhum lama pobre que tivesse fome. Eles tratavam os leigos crentes da mesma forma ou ainda pior”.
Nos dias de hoje, o Dalai Lama é “apresentado” internacionalmente como um homem santo não-materialista. Na realidade, o Dalai Lama era o maior proprietário de servos do Tibete. Legalmente, possuía
todo o país e todos os seus habitantes. Na prática, a sua família controlava directamente 27 solares, 36 pastos, 6170 servos de campo e 102 escravos domésticos.
Quando se movia de palácio em palácio, o Dalai Lama seguia num trono transportado por dezenas de escravos. As suas tropas marchavam ao som de “It's a Long Way To Tipperary”, uma canção que aprenderam com os seus instrutores imperialistas britânicos. Ao mesmo tempo, os guarda-costas do Dalai Lama, todos com mais de dois metros de altura, ombros almofadados, caras pintadas e longos chicotes, espancavam as pessoas para as afastar do caminho. Este ritual é descrito na autobiografia do Dalai Lama.
Da primeira vez que fugiu para a Índia em 1950, os conselheiros do Dalai Lama enviaram à frente várias centenas de mulas carregadas de barras de ouro e prata para assegurarem o seu conforto no exílio. Depois da segunda vez que fugiu, em 1959, a revista
Peking Review noticiou que a sua família tinha deixado para trás grandes quantidades de ouro e prata, mais de 20 331 jóias e 14 676 peças de roupa.