Um hino à hipocrisia

Alpiger

Suspenso
Portugal teve mais orgulho em quinze pessoas que nunca foram apoiadas do que em toda uma indústria subsidiada (e, já agora, falida) que é o futebol.

Ricardo Costa

Devo ser dos poucos portugueses que não ficou espantado com as imagens dos jogadores da selecção nacional de râguebi a cantar o hino nacional. Conheço o jogo, tenho filhos que praticam este desporto e sei que toda a actividade do râguebi português gira em torno de boa-vontade, empenho, dedicação e sacrifício. Há ainda características próprias do jogo, que o distinguem de muitos outros, e que fazem de cada partida um “tudo ou nada” em que o colectivo pura e simplesmente apaga a mais ténue vontade de individualismo e fica à vista de todos.

Foi a absoluta “verdade” das imagens que espantou o país. Já ninguém canta o hino daquela maneira, muito menos sem ser a fingir. Portugal ficou a saber que por cá se joga râguebi e que uma equipa de médicos, advogados, estudantes, veterinários (etc) aguenta 80 minutos de pressão total contra alguns dos melhores profissionais do mundo. E ficou a saber isso, quando ainda estava a digerir a descoberta de Nelson Évora e a confirmação de Vanessa Fernandes. Descobrimos isto tudo e descobrimos também que os nossos campeões de atletismo treinam em Espanha porque não temos uma única pista coberta e que a selecção de râguebi treina, muitas vezes, às seis da manhã antes de ir para o trabalho!

Tudo isto somado às miseráveis exibições da selecção de futebol (o desporto de que mais gosto e que mais alegrias nos dá, isso é indiscutível) e à agressão de Scolari mostram que não existe em Portugal um mero rascunho de política de Desporto. Já aqui o escrevi e repito: uma verdadeira reforma estrutural seria implodir o estádio do Algarve, juntamente com o de Leiria e o de Aveiro. E quem devia pagar a dinamite da implosão era o actual primeiro-ministro e o José Luís Arnaut. Só a partir daí é que se pode fazer alguma coisa estrutural.

O que o hino de St. Etiénne nos disse, de forma transparente, foi que, em poucos segundos, Portugal teve mais orgulho em quinze pessoas que nunca foram apoiadas do que em toda uma indústria subsidiada (e, já agora, falida) que é o futebol. Para citar Luís Amado (que teve esta semana um ataque súbito de ‘realpolitik’), tudo isto acontece pelas “razões conhecidas”. E as razões conhecidas são uma mistura de vistas curtas e de hipocrisia.

Agora, já vamos construir uma pista coberta e de certeza que a malta do râguebi vai levar medalhas em Belém e louvores em São Bento. Emenda-se a mão onde se pode, mas nada muda. É um pouco como a triste história do Dalai Lama: a China pede, e nós, de gatas, fingimos que ele não anda por cá e que defende uma causa bizarra e duvidosa; mas quando a perigosa Inglaterra levanta dúvidas sobre o senhor Mugabe, nós batemos com a mão no peito e dizemos que quem manda aqui somos nós. Sinceramente não percebo: desde quando é que a China foi mais recomendável (a não ser, eventualmente, na culinária) que a Inglaterra? Nunca. E é extraordinário que aceitemos os caprichos da China e façamos um braço de ferro com o governo inglês…

A pouco e pouco vamos transformando o país num protótipo de hipocrisia. E é por isso que nos arrepiamos a ver certas imagens. São imagens sem um pingo de artificialismo, que não foram (nem podiam ser) encenadas por nenhuma agência de comunicação nem estudadas pelo protocolo do MNE. São imagens verdadeiras e nós já estamos pouco habituados a isso. Sugiro ao primeiro-ministro que passe as imagens do hino de St. Etiénne no próximo Conselho de Ministros e que as distribua em DVD nos Estados Gerais. São mais rápidas que um discurso do Almeida Santos e mostram o país que somos.
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Ricardo Costa, Director da Sic Notícias

in: DiarioEconomico
 
Na "muge" este comentario (!!!)[;)] [;)]
aliás há 2 jornalistas (pelo menos) que aprecio muito, pela forma lucida desassombrada, e pragmatica com que expoem ao ridiculo, a classe politica, e "apolitizada", e a mediocridade socio-cultural de varios sectores deste País, um é este RC, (ainda por cima meio-irmao de um..) o outro é o MST.
[:)] [:)] [:)] [:)] [:)] [:)]

boa escolha algiper [;)]
 
Ele até tem razão ... e vejo legitimidade na critica ... mas ...



Este Ricardo Costa é dos maiores comentadores terroristas de que há memória nos media portugueses.

Não deixa de ter razão em alguns comentários, como é o exemplo deste, mas poderia era evitar uma atitude sobranceira e arrogante.
 
Ele até tem razão ... e vejo legitimidade na critica ... mas ...



Este Ricardo Costa é dos maiores comentadores terroristas de que há memória nos media portugueses.

Não deixa de ter razão em alguns comentários, como é o exemplo deste, mas poderia era evitar uma atitude sobranceira e arrogante.

...e começar a criticar também as atrocidades que o seu irmãozinho também faz!
 
O director do 24 horas fez exactamente o contrário num comentário no "Global Noticias" de terça feira e ontem foi completamente torcidado pelo correio do leitor!!

Aos menos os amadores têm orgulho em representar o País e dão o litro em campo, não sao como outros!
 
tu realmente não curtes malta do rugby... que tirada mais infeliz!
[:D]

O que eu quero dizer é o seguinte:

Não é preciso "endeusar" a malta do rugby, porque eles não são uns coitadinhos sem condições...

Eles não tiveram que trabalhar nas obras (Obikwelo), nem tiveram que fazer limpeza (campeão de kickboxing), nem tiveram que ter profissões menores para estarem onde estão...

Muito pelo contrário, eles têm as melhores condições para lá chegarem, exemplos:

- Vêm de famílias abastadas que os apoiam, permitindo praticar o desporto e não trabalhar ou trabalhar a tempo parcial.
- Como estão no meio, têm acesso a cargos que o comum dos mortais nem sonha...
- Têm estatuto de atleta de alta competição, o que facilita nos estudos e têm vagas cativadas para eles no acesso ao ensino superior.
- Têm um estatuto que lhes permite faltar ao trabalho com tudo pago.
- têm um subsídio em função daquele estatuto.
- Têm uma época de exames especial (e como representam a selecção o prof até é benovelente...)
[kiss]

Coitados, somos nós... Nós que suamos pelo País todos os dias e ninguém nos dá os parabéns... Pois eles estão a fazer aquilo que gostam (ainda bem)...

Quem me dera ser atleta de alta competição no boyboard, mas infelizmente tive que trabalhar e ser estudante ao mesmo tempo... Não tinha disponibilidade para fazer desporto a todo o tempo...[;)]

Percebem a ideia?
 
O problema é que, se passarem a subsidiar o "rugby" e a dar visibilidade a esse desporto, vai tornar-se em algo "comercial". Vão começar a ir para lá gajos que querem sucesso e projecção em vez de gajos que estão lá por amor à camisola.
Eventualmente, acabaria por ser uma faca de dois gumes. Digo eu...
Depois fica como o futebol: acabam sempre lá alguns que só querem ser vedetas.
 
Médicos? Pois, com o estatuto de atleta de alta competição até um macaco que pratique ragby entra em medicina...

O Tomaz Morais deu-nos uma palestra este ano sobre trabalho de equipa e referiu que um aluno do 4º ano era jogador de rugby.

1, numa faculdade com mais de 1000 alunos.

É escusada a parte do macaco [;)]
 
O Tomaz Morais deu-nos uma palestra este ano sobre trabalho de equipa e referiu que um aluno do 4º ano era jogador de rugby.

1, numa faculdade com mais de 1000 alunos.

É escusada a parte do macaco [;)]

Se um Macaco tivesse personalidade jurídica na lei portuguesa e se ele fosse praticante de Rugby... Podia perfeitamente obter essa vaga cativada...[:D]
 
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