Vignette - BAC Lightning, o último caça Inglês

RAF Binbrook, Lincolnshire, Inglaterra 1987 (Episódio 2)
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"Quando obti contacto visual a velocidade já ultrapassava 800km/h por isso mantive potência militar. Balbuciei um silencioso "obrigado" aos instructores dos Phantom que me passaram a sua sabedoria de combate aéreo - eu tinha um plano... Imediatamente antes do merge* o T.5 inchou em tamanho e cruzamo-nos a mais de 900km/h, 1800km/h combinados! Meti afterburner suavemente, não tinha tempo para olhar para trás mas os dois audíveis 'whompf whompf' dos "aquecedores" asseguravam-me que estavam bem acesos."

(*) Merge significa, basicamente, o momento em que dois (ou mais) aviões se cruzam antes do combate. Acho preferível usar os termos ou palavras originais em Inglês quando não encontro boa tradução para Português, e acredito que assim seja até mais fácil de entender.


O curto alcance do Lightning sempre foi um dos seus grandes defeitos. Fuselagem esguia, dois motores sobrepostos, design compacto, asa esguia - sobrava pouco espaço para combustível (até nos flaps alojava pequenos tanques).
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"A pressão no manche começou a ficar leve - esquisito. Olhei por um instante para os instrumentos - não podia perder de vista o meu adversário - e vi que a minha velocidade era de Mach 0.99. Era altura para aliviar a pressão no manche, não queria perder demasiada energia (velocidade). Mantive sempre os aferburners no máximo e quando nivelei gentilmente o altímetro marcava mais de 10000m. Vi o T.5 do meu oponente muito mais abaixo, a minha velocidade era de 370km/h e as forças no manche começaram outra vez a desaparecer - desta vez por outra razão; falta de sustentação nos pequenos planos traseiros e também a reduzida velocidade. Olhei para o manómetro do combustível, desliguei o afterburner e apontei o nariz para baixo. Ganhei velocidade rapidamente; a aceleração, mesmo sem motor, era intensa. O meu instructor viu-me e estava a lutar pela vida e credibilidade. Tinha de ter cuidado para não mergulhar demasiado o nariz senão ia gastar toda a energia a nivelar. Mas, com calma, consegui alinhar-me na cauda to T.5. Assim que entrou no meu alcance gritei;

"Fox 2!" (disparo de míssil IR)

"Depois disso, paramos o exercício e regressámos a Valley com pouco combustível. Pura adrenalina; não há como descrever de outra forma. Ainda não era meio-dia a já tinha voado duas vezes. Conseguimos treinar mais dois combates durante a tarde mas não tive a mesma sorte - nunca tentem o mesmo truque duas vezes. Voltamos a Brinbrook na manhã seguinte, quando o tempo melhorou. 5 saídas em 24 horas, um total de 2 horas de voo. O Lightning pode ter 60 anos mas estou confiante que nenhum outro avião conseguiu criar tanto entusiasmo nos pilotos e mecânicos. Provavelmente nunca iremos ver outro semelhante..."


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Dois motores, um piloto e pouco mais. Simples e totalmente focado na performance o Lightning era o expoente máximo (para o bem e para o mal) da mentalidade dos anos 50/60. Junto com o MiG-21, F-104 Starfighter, Saab Draken, F-8 Crusader ou Dassault Mirage III faz parte da última geração dos verdadeiros gunfighters.
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RAF Gutersloh, Renânia do Norte, Alemanha 1988 (Episódio 3) (Último)
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Depois de dois episódios onde acompanhamos alguns momentos de treino, segue agora o relato de um destacamento operacional na Alemanha, a "linha da frente" na Europa durante a guerra fria. Conforme o mapa abaixo, a função dos caças Lightning numa eventual guerra "a sério" contra os Russos seria defender o espaço aéreo atrás da zona de misséis anti-aéreos, apontada no mapa a amarelo (sim, as minhas capacidades de PhotoShop são excelentes). Nessa função os pontos fortes do Lightning seriam bem aproveitados; excelente manobralidade, velocidade e rapidez de reacção enquando que as limitações ("perna curta", radar incipiente, só armas de curto alcance) não teriam grande impacto. Claro está, isto partindo do princípio que os Russos não iniciariam o conflito com uma "chuva" de IRBM, como o SS-20 Saber, contra todas as bases aéreas da NATO (Gutersloh incluída, obviamente). Mas isso ficará para analisarmos noutra altura, para já fica então o relato final de Ian Black;


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"No final da OCU (Operational Conversion Unit) fui destacado para a Alemanha, para o No. 19 Squadron em Gutersloh. Uma das funções do esquadrão, durante o dia, era de criar CAPs (Combat Air Patrol) a baixa altitude, à espera que surgisse alguém no nosso sector. E tudo o que viesse à rede era peixe! Se o avião agitava as asas era sinal para o deixar em paz; mas se queria ir a jogo, nós íamos a jogo. Os oponentes mais frequentes eram G.91 (Fiat), os F-104 Starfighter e os Phantoms ingleses. O Lightning era muito bom nestas lutas a baixa altitude com a sua asa de grande área e montes de potência; conseguia manobrar contra qualquer oponente. Os Phantom não eram problema. Normalmente tentávamos atacá-los individualmente porque costumavam operar em pares ou em quartetos enquanto nós patrulhávamos sozinhos ou, se tivéssemos sorte, com um "wingman". Nos grandes exercícios estabelecíamos uma linha de CAPs desde a fronteira austríaca até ao Báltico. Basicamente a nossa função era operar a baixa altitude, atrás da linha de SAMs (Surface-to-Air Missiles). Lembro-me de grandes combates contra os F-4! Atacava um que estava sozinho para, logo a seguir, pelo canto do olho, ver um segundo a surgir sabe-se lá de onde!"

- M****!! São dois!

A partir daí era uma gritaria pelo rádio a pedir ajuda a outros Lightning que estivessem por perto. Para quem conseguisse ouvir a nossa frequência era como reviver a Batalha de Inglaterra de 1940;

- Rápido, rápido, anda ajudar-me!

- Onde é que estás?

- Estás a ver o lago mais pequeno? Estamos mesmo por cima!

- Ok, estou a ver-te. Continua a mexer-te, continua a mexer-te!

- Oh, m****, também está aqui um Harrier...

"Espetacular, bons tempos, nunca me diverti tanto. Os Ginas (G.91) provavelmente eram os que causavam mais problemas, eram tão pequenos, difíceis de ver. O F-104 também era complicado, muito, muito veloz. Só apanhá-los era um problema. Lembro-me de perseguir um até à barragem do Mohne a 100m de altitude e Mach 1.1 e praticamente nem encurtei a distância. Mas nunca recebemos queixas por causa do barulho. Voávamos constantemente a baixa altitude, muitas vezes ultrapassávamos a barreira do som em combate mas nunca ninguém se queixou."


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Conforme dito acima, a convivência entre a população civil alemã e as numerosas forças da NATO lá estacionadas era muito pacífica. Os alemães sabiam que a ameaça de invasão da União Soviética era bem real, por isso eram muito gratos por esta presença militar estrangeira massiça no seu território. Nem o imenso ruído dos aviões de combate, nem os tanques mal estacionados em cima do passeio (como esta bela foto das manobras REFORGER em 1985 demonstra) eram suficientes para apagar o sorriso deste casal.​

"No final do meu destacamento os F-15 Eagle começaram a surgir na Europa. No início, os pilotos não eram formidáveis, quer dizer, numa luta directa 1-vs-1 não tínhamos hipótese, mas se usássemos boas tácticas, dois Lightning podiam surpreender um F-15 e, mesmo 2-vs-2, conseguíamos nos desenrascar. Eles costumavam voar em pares e o que fazíamos era tentar que se separassem e assim apanhar um isolado. Claro que, com o tempo e mais experiência com o avião, habituaram-se ás nossas artimanhas. Quando o Lightning foi retirado da Alemanha muitos de nós eram da opinião que o seu substituto, o Phantom, era um passo atrás. Não havia dúvidas que tinha mais autonomia, radar de longo-alcance com capacidade lookdown e muito melhor armamento, mas muitos pilotos de Lightning apontavam que conseguiam bater o Phantom em dogfight a qualquer altitude e em qualquer circunstância. Mas claro, todos os pilotos de caça defendem inequívocamente o "seu" aparelho!"


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Apesar da má qualidade, esta foto revela o grande salto de capacidade quando o Lightning foi substituído pelo F-4 Phantom. Maior autonomia, radar AN/AWG-11 ou 12, 4 misséis Sparrow (médio alcance) e 4 Sidewinder (curto alcance) contra os míseros 2 misséis Red Top (curto alcance) do Lightning. Mas não digam isso aos pilotos dos Lightning...
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Muito bom caro Icterio.

Por um lado não posso criticar os pilotos do Lightning, pois percebo perfeitamente que o afecto e orgulho que têm da máquina que pilotavam seja muito grande.

No entanto, por mais que se esforçassem para sublevar as diferenças entre o Lightning e o F-4 Phantom II (que o UK comprou aos USA, para servir tanto na sua Força Aérea, como inicialmente na Marinha)... as mesmas e a superioridade tecnológica estão lá. [:cool:]

Algumas vantagens do Phantom sobre o Lightning:

- avião multitarefa: caça, interceptor, ataque (bombardeiro) ligeiro, reconhecimento, guerra electrónica, etc;
(o Lightning creio que foi essencialmente interceptor, se não me engano)
- aviónicos mais modernos;
- radar consideravelmente melhor em muitos (todos?) os apectos;
- misseis Ar-Ar melhores, no alcance, aquisição do alvo, seguimento deste, capacidade de manobra, etc;
- maior capacidadde de carga e versatilidade da mesma;

Ou seja, enquanto o Lightning ainda era um caça de 2ª geração, o F-4 Phantom II já era de 3ª... e como tal, tecnologicamente superior em muitos aspectos.

No combate aéreo a curta distância ( dogfight ), é verdade que o Phantom não era conhecido por ser o mais ágil / manobrável, mas julgo que o Lightning também não era necessariamente um "F-16" nesse aspecto...
 
O Phantom foi uma lenda durante 30 anos, "O" avião de combate padrão de combate da NATO (e do Ocidente).
A única crítica que lhe era apontada era o... aspecto. Universalmente classificado como "feio", ganhou alcunhas achicalhantes como; Rino, Tijolo Voador ou Porco de Ferro.

As linhas brutas e a aparência pesada levaram alguns a dizer que era o "triunfo da potência sobre a aerodinâmica".
Eu sempre gostei, uma máquina de combate deve ter um aspecto a condizer.

Não ligues Phantom, eles não percebem nada.


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O pior na história do F-4 foi passar por Mig-29 no filme Águia de Ferro II...

Olha... quem diria que num forum automóvel se vai encontrar quem conheça algumas "pérolas", da aviação militar na industria cinematográfica das décadas de 80 / 90...

De facto o que mencionas era um bocado "estranho", pois o ar pesadão e as dimensões do F-4 contrastavam com o conceito de agilidade e manobrabilidade do F-16.

Quanto a isso não há muito a fazer. Tal como os F-5 a passar como MiG-28 (?) no Top Gun ou o Puma a fazer de Mi-24 Hind no Rambo III...

Esses dois são também casos caricatos, à sua maneira:

- o aspecto e dimensões mais "light" do F-5, ainda passa por caça inimigo agil e perigoso a curta distância;
(E a 'arte' produzida nas filmagens aéreas de TOPGUN, ajudaram a dar realismo a isso... já no Iron Eagle II percebe-se que o papel de 'dogfighter' atribuído ao F-4 é metido ali um bocadito à pressão...)

- o Puma com as asas acrescentadas, a imitar o Mi-24 Hind, também é caricato - os pilotos que o usaram afirmaram que, ficaram com a impressão de que essas asas 'estéticas' melhoravam um pouco a manobrabilidade do helicoptero ! [:D]
 
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