Esquerda-Libertário: acredita que liberdade econômica e político-social são completamente diferentes (anti éticas até), e escolhe a segunda. Não percebe que tanto a experiência empírica quanto a teoria económica e política modernas mostram que, para estabelecer controles realmente rigorosos sobre a economia, é necessário realizar “intervenções despóticas” não apenas sobre os direitos de propriedade, mas sobre todos os direitos individuais. Um Estado que controle a economia de forma central e planificada não pode, por exemplo, aceitar que as pessoas decidam seguir rumos de ação distintos dos que ele definiu; como os interesses econômicos da colectividade têm prioridade sobre os desejos dos indivíduos, cabe a cada um apenas cumprir sua parte do plano, jamais inovar ou buscar seus próprios desejos. O esquerdista-libertário radical é inconsistente por não entender o mercado como uma dimensão da vida humana, e para estrangulá-lo, inadvertidamente defende um conjunto de medidas que resultará inevitavelmente em uma ditadura totalitária.
Esquerda-Autoritário: este, infelizmente, a realidade mostrou ser amplamente possível na prática. Quem tem dúvidas sobre as consequências desse modelo não precisa ir mais longe do que ler o Livro Negro do Comunismo. O controle férreo da economia, casado com a tirania política, não é inconsistente de forma alguma; a inconsistência do esquerdista-autoritário é considerar que vai criar um paraíso humanista a partir de uma montanha de cadáveres.
Direita-Autoritário: crê que é possível construir uma economia livre que conviva harmoniosamente com um regime politicamente fechado e restritivo, que imponha à população os valores “correctos” de ética, moral, e comportamento. A inconsistência: a liberdade de mercado é baseada, entre outras coisas, na liberdade de empreendimento e, ainda mais importante, na liberdade de questionamento intelectual, de inovação. Em um regime autoritário de direita, é impossível manter tamanho controle sobre o comportamento social sem extinguir a chama da livre iniciativa individual e do pensamento crítico, levando à estagnação económica, política e científica.
Direita-Libertário: acha que é possível construir uma sociedade livre, democrática e capitalista sem Estado. Ignora que o Estado é importante para construir as exatas bases institucionais de que o mercado precisa para funcionar de forma eficiente. Pior: o Estado, ao que tudo indica, é uma forma de sistema emergente, que surge de forma mais ou menos espontânea onde quer que os homens construam uma sociedade sedentária com um mínimo de complexidade. Todas as alternativas anarquico-capitalistas para substituir o Estado pecam pela sua fragilidade; não há como garantir que mecanismos de livre-mercado construídos para substituir a ação estatal não possam evoluir gradualmente para transformar-se em Estados.
No fim das contas, todos os extremos partilham, ao meu ver, de um mesmo problema: uma falta aguda de apreço pelo mais impressionante feito da Humanidade: a moderna civilização ocidental. Pela primeira vez na história humana, temos uma civilização que trata a fome como uma aberração, e não como um fato da vida, e age consistentemente para combatê-la; que dá às pessoas liberdade de crer no que bem entenderem e discutir suas ideias livremente, sem medo de coerção; que contempla e valoriza o esforço individual, mas não acha correto deixar os que não têm oportunidades morrerem à míngua; que considera educar suas crianças mais importante do que colocá-las no mundo para servirem de mão-de-obra adicional; que busca conciliar as múltiplas demandas colectivas com controles sobre o poder do Estado que impeçam o abuso dos governantes; que cria leis em nome do colectivo, mas que busca proteger os interesses da sociedade protegendo o indivíduo; que dá chances a qualquer um com ideias e disposição de buscar o sucesso no mercado, mas não dá aos bem-sucedidos no mercado o direito de agirem acima da lei e da ética. A civilização moderna é um edifício complexo e de equilíbrio delicado, cheio de falhas e imperfeições, mas superior a qualquer coisa que os homens conseguiram criar antes. E se queremos construir um futuro melhor, essa é a fundação que devemos usar. Quem opera nos extremos, no fundo, prega que joguemos fora uma parte (ou toda) essa vasta herança humanista, fruto de séculos de lutas, avanços, reformas, retrocessos, dor e esforço, em nome de uma visão finalista, utópica da realidade. Buscam um modelo qualquer de perfeição social que não existe nem pode existir, porque os homens não são perfeitos, e obra nenhuma pode ser mais perfeita que seus criadores.
O que fica então? Temos um conjunto de doutrinas que oscilam ao redor do centro do gráfico, e que fundamentalmente variam no seu balanceamento de valores subjacentes. O grande debate político atual é sobre como balancear as demandas por igualdade e liberdade, e as várias doutrinas “realistas” tentam responder essa questão.
A palavra é balancear mesmo. Erra quem considera que igualdade e liberdade são valores intrinsecamente opostos: na verdade, não existe liberdade real sem algum tipo de igualdade, e a igualdade só é factual quando as pessoas têm a liberdade de decidir o que fazerem com as oportunidades que a igualdade lhes dá. Erra igualmente quem considera que um desses valores deve ter prioridade absoluta sobre o outro; quem sacrifica a liberdade em nome da igualdade, ou vice-versa.
Se é assim, então por que me considero um liberal?
Porque acredito que não se constrói uma sociedade que seja ao mesmo tempo igualitária, próspera e justa sem a boa e velha liberdade negativa dos liberais clássicos.
Igualdade sem liberdade também existe: é a dos escravos.
Essa eu não quero.
Nem toda igualdade, vejam só, é positiva.
Também acredito que a liberdade é a base da impressionante obra que é a civilização ocidental.
Foi a liberdade de questionamento e pensamento, de tentar, experimentar, contestar, que permitiu à civilização ocidental romper com os grilhões do Antigo Regime e do Feudalismo, produzir a Revolução Industrial, e construir a sociedade que temos hoje.
É ela que permite que a discussão sobre a igualdade seja levada mais a sério em nossa civilização do que jamais foi em qualquer outra, em qualquer tempo.
E é ela, e não sua abolição, que detém a chave para resolver os problemas actuais que enfrentamos. Quem quer sacrificar a liberdade em nome da igualdade (ou de qualquer outro motivo) quer matar a galinha dos ovos de ouro.
Sou um liberal porque acredito que a liberdade é a base para uma sociedade próspera e fraterna.
Acredito que a pluralidade de ideias, o debate franco, e o reconhecimento do outro são parte fundamental da herança ocidental e o segredo do seu sucesso.
Assim, reconheço que existe legitimidade em muitas demandas que são feitas pela Esquerda em nome da igualdade; mas reservo-me o direito de discordar dos métodos que ela propõe para atingí-los.
Acredito que o caminho que leva à igualdade passa por mais, e não por menos, liberdade, mais respeito pelo indivíduo, e também mais senso de responsabilidade de cada um de nós para com a sociedade de que fazemos parte.
Vislumbro como o desafio dos liberais hoje encontrar meios para ao mesmo tempo satisfazer as demandas legítimas de igualdade, sem sacrificar ou cercear as liberdades fundamentais.
Isso significa encontrar formas de usar todas as ferramentas que a Humanidade desenvolveu ao longo dos milénios para atingir os objectivos humanitários que todos nós defendemos: é usar o Estado, o mercado, a sociedade civil, a cultura, a liberdade individual, os sistemas legais, a tecnologia, e a ciência para mudar a condição humana para melhor, mas tendo sempre em mente que seres humanos são faliveis e fracos (o que significa que não se pode esperar deles que hajam correctamente quando providos de poder sem controle), que a realidade é mais complexa do que imaginamos (o que significa que os melhores planos podem falhar ou resultar em efeitos inesperados ou indesejados) e que o sacrifício da liberdade presente por uma suposta liberdade futura é uma ilusão.