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Geração à Rasca interrompe discurso de Sócrates - Política - Correio da Manhã
Geração à Rasca interrompe discurso de Sócrates - Política - Correio da Manhã
Na comemoração dos 40 anos da crise académica, Alberto Martins conta como despoletaram os acontecimentos que marcaram a Academia de Coimbra em 1969.
Foi no gabinete de Alberto Martins, na Assembleia da República, em Lisboa, que revisitámos as memórias de quem construiu parte da história da Universidade de Coimbra e da própria resistência ao fascismo. Com um sorriso no rosto e sempre de forma descontraída, o actual líder parlamentar do Partido Socialista fala do momento em que pediu a palavra na sessão de inauguração do Departamento de Matemática, em 1969, o qual se seguiu a sua prisão e uma intensa luta estudantil, pautada pela greve aos exames e o encerramento da própria universidade. Alberto Martins acredita que “a democratização do ensino é uma necessidade de desenvolvimento para Portugal” e que “os jovens não estão alheados das questões políticas”.
Até 1969, o movimento estudantil assentava na luta pelo direito de associação. A partir de 1969, passou a concentrar-se sobre a universidade. Para si, qual foi o momento que despoletou a crise académica?
O momento mágico da luta dos estudantes foi o pedido de palavra do presidente da DG/AAC, que era eu, na inauguração do edifício das Matemáticas ao chefe de estado da ditadura, o Almirante Américo Tomás. A partir daí, desencadeia-se um grande processo na vida da academia, muito intenso. Segundo alguns, a maior greve de resistência à ditadura que houve em Portugal.
Quais eram as principais bandeiras da Crise Académica de 1969?
Defendíamos uma universidade nova. Uma universidade com um novo ensino, novas qualificações, modernidade, abertura à sociedade. Queríamos também uma sociedade nova. A ideia de que a classe operária, as vanguardas populares eram os detonadores da história começa a mudar. Em Portugal, os detonadores do 25 Abril foram os oficiais jovens da universidade. Pela primeira vez na vida universitária, a mulher tem um papel importantíssimo. A luta de Coimbra, pela primeira vez na história da universidade, tem esse protagonista fantástico que são homens e mulheres em luta. Como dizem alguns, o 1969 foi não só uma festa da liberdade mas foi também uma festa do amor (risos).
De que forma foi feita a articulação entre a DG/AAC e os estudantes das faculdades?
Havia uma articulação muito forte. Não éramos dirigentes distanciados da vida estudantil. Qualquer fluxo informativo se verificava de forma muito veloz e regular. Como diz Mao Tsé-Tung, um líder sem massas é como um peixe fora de água. E nós éramos líderes de massas porque estávamos ligados aos estudantes.
Quando tomaram posse, em Fevereiro, pensaram que daí a dois meses estariam a quatro metros de distância do poder?
Não, nunca nos passou isso pela cabeça. Nunca pensámos que as coisas se fossem proporcionar de forma tão rápida.
No dia 17 de Abril, não temeu confrontos com a polícia?
Temi. A decisão de pedir a palavra foi tomada no dia anterior, numa reunião da direcção. Chegou-se à conclusão que quem estava em melhores condições para o fazer era o presidente da direcção-geral, porque podia sempre reivindicar a condição de ser representante de todos os estudantes. O nosso temor era que o pedido de palavra fosse visto como uma provocação gratuita. Tínhamos de pedir a palavra para que interpretassem isso como uma pretensão legítima, formulada de forma equilibrada e com rigor. Essa era a minha preocupação. E eu tinha de pedir a palavra, por uma questão de honra. Não ficaria bem comigo próprio se não o fizesse.
Em algum momento, ponderou não falar?
Não. Tinha de ter condições para o fazer. O que esperava era que me prendessem e espancassem, mas eu tinha de pedir a palavra. Era o meu compromisso. Mas quando entrei para a sala pensei para mim próprio: “isto não vai ter grande efeito, estou sozinho, eles vão fazer aquilo que eu estou a pensar que vão fazer, vão-me prender”. Mas entretanto entram os meus colegas que ocupam toda a sala. Recordo-me de uma fotografia do Celso em cima de um colega nosso a mandar entrar os nossos colegas. Quando vi os meus colegas na sala pensei: “a batalha está ganha”. Perante o meu pedido de palavra, o Américo Tomás disse “bom, e agora fala o ministro das Obras Públicas”. Depois prenderam-me nessa noite, à saída da AAC. Vinham com uma pistola e disseram “o senhor é o Alberto Martins? Então considere-se preso”. Levaram-me e lá fiquei até ao meio-dia do dia seguinte. Passada uma hora oiço um barulho brutal. Eram os colegas que tinham ido para a porta da PIDE a pedir a minha libertação. Foram banidos violentamente com graves agressões. No dia seguinte libertaram-me e suspenderam-me das aulas e de qualquer actividade universitária.
Depois, a academia faz greve às aulas com uma grande adesão, inclusive dos professores, e o José Hermano Saraiva afirma que “a ordem será inexoravelmente mantida na Universidade de Coimbra”, com rosto e voz ameaçadora, algo que teve uma resposta esmagadora com a greve. Depois, o governo encerra a universidade e nós decidimos fazer então a greve aos exames. Fizemos piquetes de greve, fomos espancados, presos pela Polícia Judiciária, levados a tribunal e absolvidos, acusados do crime de tumulto público que era um crime que não era exercitado em termos de acusação desde a monarquia. Em Agosto, após a greve aos exames, a AAC é encerrada e 49 de nós são incorporados compulsivamente no exército, como traidores à pátria. Coimbra, na altura, foi uma ilha de liberdade.
A partir do momento em que o reitor, Andrade Gouveia, em comunicado, nega a palavra à DG/AAC, como foi traçada a estratégia para poderem intervir?
Dissemos em comunicados públicos que íamos usar todos os meios legítimos para poder usar da palavra. Claro que era uma situação de risco, mas foi um risco racional e criteriosamente assumido.
As repúblicas e os Organismos Autónomos da AAC tiveram um papel preponderante na crise académica.
Sim. Tiveram um papel muito importante porque eram uma forma de organização livre e autónoma de autogestão dos estudantes.
O movimento juntou pessoas de esquerda, de direita, católicos, mulheres. Como foi possível juntar pessoas de vertentes tão diferentes?
Sobretudo pela grande capacidade de luta de todos nós. Pela grande capacidade de fazermos o movimento de massas, de termos consciência de que o que era importante era os estudantes estarem unidos.
Esperava que a mobilização depois dos acontecimentos do 17 de Abril fosse assim tão grande?
Não. Tínhamos sempre uma grande dúvida: se não tivéssemos em Assembleia Magna um mínimo de três, quatro mil estudantes, não tínhamos condições para avançar para a greve aos exames. Aquele período que medeia a greve às aulas, o encerramento da universidade e a greve a exames foi um período de grandes movimentações culturais. Foram a Coimbra as grandes figuras da canção, da literatura, da oposição democrática. Os convívios eram uma forma de atrairmos os estudantes para uma mobilização colectiva e para os focalizar naquilo que era o grande objectivo da luta, que era a greve aos exames. Fizemos luto, acabamos com a praxe dos caloiros e fizemos a greve aos exames. Não fizemos a Queima das Fitas e fomos prestar esclarecimentos à cidade porque tinha uma importância económica muito grande para a cidade de Coimbra, e nós tivemos que pôr os comerciantes e os habitantes ao lado dos estudantes. Eu posso dizer a esta distância que a universidade, os professores, os funcionários e a cidade de Coimbra esteve ao lado dos estudantes em 1969. E isso foi conseguido pela capacidade dos estudantes de fazer sentir que a sua luta era justa. Era uma luta pela liberdade, por uma universidade melhor, por um país melhor.
A crise foi um passo importante para a queda do regime?
Sim. Nós fomos, a determinada altura, a esperança na mudança de uma ditadura que já tardava em cair. Na memória das lutas estudantis em Portugal, o melhor delas é a luta da resistência à ditadura.
A visão que tem da crise académica a esta distância é a mesma que tinha por exemplo em 1980, quando escreveu o texto “Há Onze Anos em Coimbra – A Crise Académica de 69”?
Não sei… O tempo faz-nos ver a história de forma cada vez mais distanciada e é curioso que quarenta anos depois nós estejamos a comemorar a crise académica. Significa que não foi um episódio, significa que foi uma marca. Eu hoje tenho a noção clara, que já tinha na altura, que em 1969 os estudantes de Coimbra estavam do lado certo da história. O lado certo da história é sempre o lugar da liberdade.
“A partilha da responsabilidade dos estudantes nos órgãos de gestão deve ser diminuta”
Há cada vez mais alunos a abandonar o ensino superior devido a dificuldades económicas. Pensa que a democratização do ensino, pela qual lutou em 1969, está ameaçada pela actual crise económica?
Acredito que a democratização do ensino é uma necessidade de desenvolvimento para Portugal. Essas dificuldades são conjunturais, mas não nos podem distanciar do que é fundamental. Não há limites para a qualificação da nossa formação. Eu quero uma melhor democracia, uma melhor universidade, e um maior progresso para Portugal. Demos um salto mas não chega, e a insatisfação faz parte do espírito lúcido de quem olha o futuro com vontade que ele mude e que seja melhor. A insatisfação é uma exigência de uma pessoa inteligente e que quer um futuro melhor.
Actualmente verificam-se casos de estudantes que passam por sérios problemas económicos. Considera ser um retrocesso face aos tempos da crise académica em que lutava pelo fim de uma universidade elitista?
Nós, enquanto sociedade democrática, devemos ter condições de solidariedade. Eu não penso que os estudantes devam ser privilegiados, mas devem ser criadas condições essenciais para que tenham uma boa formação.
Que comentário faz às declarações que acusam os jovens de estar alheados das questões políticas? Acha que é um problema de causas ou de meios?
Eu não considero que os estudantes e os jovens estejam alheados das questões políticas. A política é tudo, é a vida.
Na Crise Académica de 69 os estudantes lutaram pela representatividade nos órgãos de gestão da universidade. Em 2007, com a aprovação do Regime Jurídico para as Instituições de Ensino Superior (RJIES), houve uma diminuição nessa mesma representação. O Partido Socialista, do qual é líder parlamentar, aprovou a lei. Na altura qual foi a sua posição? Votou a favor?
Sim, votei a favor. Fui a favor da participação dos estudantes nos órgãos da universidade, e continuo a ser. Mas acho que a partilha da responsabilidade dos estudantes deve ser diminuta nos órgãos de gestão, isto é, os estudantes devem apresentar a suas alternativas políticas fora desses órgãos. Eu defendo a participação de estudantes, mas com a responsabilidade a recair nos professores, nos elementos exteriores e nos funcionários, porque acho que os estudantes devem ter um espaço livre de alternativa e não um espaço de responsabilidade da gestão.
Não acha que isso cria um fosso entre a instituição e a comunidade estudantil? Uma opinião não é deliberativa.
Aquilo que interessa aos estudantes é o plano pedagógico, o plano científico. Os estudantes podem dar uma opinião analítica e eu acho isso positivo. Agora, a partilha responsabilizada da organização não me parece a melhor solução.
Uma dezena de jovens do movimento Geração à Rasca manifestou-se esta segunda-feira à noite em Viseu, quando o secretário-geral do PS, José Sócrates, discursava sobre a sua moção política ao congresso do partido.
José Sócrates apenas tinha tido tempo para fazer os agradecimentos quando os jovens, munidos de um megafone, começaram a dizer: "Chegou a hora de a geração à rasca falar, isto é pacífico, só queremos falar."
Os jovens foram colocados na rua pela segurança, queixando-se de terem sido agredidos.
"Eu fiz questão de dizer que era pacífico, mas fomos corridos a empurrões e houve uma rapariga que levou um pontapé", lamentou aos jornalistas Paulo Agante, do movimento, que agendou para sábado uma manifestação anti-Governo.
Enquanto os jovens eram expulsos do salão onde decorria o jantar, os participantes gritavam PS.
"Se me permitem, camaradas, eu gostaria de fazer um convite às pessoas que agora entraram para jantar connosco, não temos nenhum problema nisso. Somos um partido da tolerância, estamos no Carnaval e a verdade é que no Carnaval ninguém leva a mal", interrompeu-os José Sócrates.
Paulo Agante explicou aos jornalistas que ele e os colegas pagaram para entrar no jantar, durante o qual pretendiam manifestar ao primeiro-ministro o descontentamento que sentem por estarem desempregados e haver muitos jovens a trabalharem de forma precária.
"Peço desculpa não ter aceite o jantar, mas já estávamos cá fora a levar pontapés e empurrões e foi mesmo impossível", ironizou.
O jovem criticou ainda José Sócrates por ter dito que o PS é um partido de tolerância: "Enquanto nós estávamos a ser empurrados e pontapeados, não tirei os olhos dele, ele estava com um sorriso de satisfação na cara".
Antes de o grupo ter sido expulso, uma das jovens ainda teve tempo de entregar duas máscaras a José Sócrates.
"Uma delas laranja e a outra rosa, que era para se decidir pela políticas que toma, porque estamos fartos, não só das políticas do PS, como do PSD. Varia sempre entre os mesmos, o País vai de mal a pior e somos nós que sofremos", justificou Paulo Agante.
Garantiu que os jovens não queriam "estragar a festa" a José Sócrates, apenas deixá-lo a refletir sobre as palavras que iam dizer.
"Só queríamos expor a nossa palavra, ter um espaço onde pudéssemos falar, já que ninguém nos ouve, e iríamos sair pacificamente. Ninguém teria de nos expulsar, mas, enquanto estávamos a ser expulsos a empurrões e nos partiam o material, estava o primeiro-ministro a rir-se", criticou Paulo Agante.
Os jovens queixam-se ainda de lhes ter sido retirada a faixa que levavam, com a inscrição ‘Fim às políticas rascas’ e ‘619 mil amigos gostam disto’, numa alusão ao número de desempregados portugueses.