O proprietário do café-pastelaria Infante, nas Caldas da Rainha, teve ontem de pedir a intervenção da polícia por causa de um cliente que insistia em fumar dentro do estabelecimento apesar de não haver sistemas de exaustão de fumos nem uma divisória para fumadores. Hoje, com o regresso ao trabalho, após o feriado, a nova lei do tabaco vive a sua prova de fogo perante o grau de civismo dos consumidores de cigarros. Assim, um maior número de casos que obriguem a chamar as autoridades poderão surgir.
Nas Caldas da Rainha, o proprietário do café, Dimas Andrade, explicou o incidente: “Foi logo de manhã, um dos primeiros clientes, que alegou que vendíamos tabaco e achava-se no direito de fumar. Não refilou muito mas tivemos de chamar a PSP, que esteve um bocado a falar com o homem, e acabou tudo bem”, contou Dimas Andrade.
Fonte da GNR admite que casos semelhantes tenham ocorrido um pouco por toda a parte. contudo o mesmo militar garante que debaixo da jurisdição da GNR não se verificou qualquer caso em que elementos da Guarda tivessem interferido em resultado de desentendimentos que originassem casos de violência.
Um outro cigarro indevido foi puxado ontem à tarde no snack-bar Galeto, em Lisboa. A proprietária, Romilde Oliveira, viu-se obrigada a ameaçar que iria chamar a polícia perante um cliente que insistia em acender o cigarro. Romilde Oliveira contou que este foi o único caso verificado ontem, “o que demonstra o elevado civismo das pessoas”, acrescentou.
Diferente foi a postura de dois clientes de um bar na Praça 5 de Outubro, nas Caldas da Rainha, que o CM encontrou a fumar. “Tenho a ideia de que estou em contravenção”, admitiu José Soares, manifestando que “a problemática do vício é complicada”. Joaquim Moreira desculpou o gesto com os cinzeiros. “Se não estivessem aqui cinzeiros nem me lembraria de fumar”, disse.
INFRACÇÕES EM SHOPPINGS DO ALGARVE
Ana J., de 43 anos, fuma há 20 e ontem à tarde, depois de beber um café no Centro Comercial Continente, em Portimão, ‘distraiu-se’ e puxou do cigarro. O gesto foi, contudo, imediatamente detectado pelo segurança, que ontem tinha como missão expressa informar o público de que ali era totalmente interdito fumar. Ana J. foi a terceira pessoa que teve de avisar e, tal como as anteriores, respeitou de imediato a indicação. “Ainda estou a dormir, nem vi o sinal de proibição de fumar que está na mesa”, disse ao CM. Quem também não se apercebeu de que estava a transgredir a nova lei foi Sandro Claro, de 31 anos, que ontem, descontraidamente, acendeu um cigarro nas galerias do Fórum Algarve, em Faro. Como ele, várias foram as pessoas que não se aperceberam da proibição. O vigilante depressa o alertou para a infracção. “Não sabia que era proibido em centros comerciais semiabertos”, disse ao CM o fumador. Já Paulo Barreiros e Susana Campos aperceberam-se da proibição e escolheram um espaço amplo e aberto para acender o cigarro.
LEI OBRIGA A ALTERAÇÃO DE HÁBITOS
- Salas para fumadores são hoje uma rara realidade em espaços comerciais. Um exemplo são os Grandes Armazéns El Corte Inglés, que disponibilizam aos clientes espaços com extracção de ar, em Lisboa, no 7.º piso, no restaurante e cafetaria, e na semicave, na cafetaria, num total superior a 200 lugares. Também no Porto é possível fumar.
- Dimas Andrade, proprietário do café-pastelaria Infante, nas Caldas da Rainha, adiantou que “são os próprios fumadores a dizer que percebem a lei e vão para fora fumar”. Um cliente, Edgar Magalhães, comparou a lei ao cinto de segurança dos automóveis e desabafou: “Vamos habituar-nos.”
- Clientes fumadores de centros comerciais entendem ser penoso não haver espaços para fumar. Nas Galerias Saldanha, em Lisboa, a proibição é acompanhada de cartazes que explicam as vantagens de não fumar. Nuno Menezes diz que, na escolha, dará prioridade a cafés e restaurantes para fumadores.
MUDANÇAS
FIM DE ANO
Um ambiente de tolerância dominou as primeiras horas após a mudança de ano. Em plena festa de réveillon, muitos esqueceram a entrada em vigor da lei e continuaram a acender cigarros em bares e discotecas. Também os não-fumadores não levaram muito a peito os seus direitos, não sendo conhecido qualquer caso de desentendimento no fim de ano.
HOSPITAIS
Os hospitais psiquiátricos reservaram salas exclusivas a fumadores com sistemas de extracção de fumo porque muitos doentes não podem sair. São conhecidas propriedades à nicotina no combate aos sintomas de doenças do foro psicológico.
VENTILADORES
O sector de venda de aparelhos de extracção de ar não regista um aumento de vendas em resultado da obrigatoriedade destes em espaços comerciais para fumadores, divulgaram empresas do ramo. A maioria dos lojistas só farão obras verificadas quebras nas vendas. Francisco Gomes / João Saramago / A.P. / R.P.G.
in: Correio da Manhã