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Membro histórico
"Se há característica dominante entre os portugueses, essa será, sem dúvida, a inveja. (Não é por acaso que o vate Luís Vaz a inscreveu como última palavra do Canto X dos Lusíadas.)
A inveja, tal como a encontramos em Portugal - uma dor persistente, aureolada pela suposta "decência" de quem se sente ungido para desferir estocadas - não se esgota em minutos, como o ciúme. Persiste, cresce, cultiva-se de acidez, amargura e frustração até dominar e obnubilar aqueles que a servem. Não sei, sinceramente, como pudemos fazer crescer tal monstro. Uns invocarão a Inquisição como fautora desta anomalia de carácter. Parcialmente errado, pois os espanhóis tiveram-na durante séculos e desprezam a inveja na proporção em que a acarinhamos. A incapacidade de emular, o medo de se atrever, a cobardia de medir forças e acarear qualidades, a inibição de dizer "aqui estou" e "sou assim", aliadas a uma cultura de resignação, a uma recusa de tudo o que envolve risco e novidade - ou seja, o sempiterno reaccionarismo - levam-nos a esgotar a energia remanescente em verrina, insulto, diz-se diz-se e frémito niilista. O grande problema, de que a inveja é parteira, é o facto de, em Portugal, se detestar tudo aquilo que não se conhece, de se odiar tudo onde se intui existirem qualidade e superioridade. Não é demais lembar que os nossos grandes homens tiveram uma vida miserável. Onde as franças, as espanhas, as itálias e alemanhas coroam, aplaudem, incentivam e premeiam, Portugal enterra vivos aqueles que pelas raras qualidades se elevam da mediocridade. Mas este sentimento ignóbil não se esgota nas "grandes invejas". É omnímodo, insinuando-se nas mais corriqueiras situações do dia-a-dia. O português nunca diz a um(a) amigo(a) : "como és inteligente", "tenho por ti grande admiração", "como estás bela", "esse corte de cabelo fica-te muito bem", "seria tão bom se ganhasses a lotaria", "tens uns filhos inteligentes". Não. Confrontado com uma boa-nova, o português cala-se, desvia o olhar, empalidece e esboça um gracejo: "parabéns, agora tens uma data de malta a invejar-te".
Durante a Inquisição - essa lepra que nos transformou em analfabetos e cobardes - enviavam-se uns papelinhos anónimos para um fradeco alcoolizado e obeso dar início a uma sórdida investigação que terminava, as mais das vezes, em confisco de bens ou churrasco. Depois, sob o Liberalismo, a inveja transformou-se em gazetas. As polémicas jornalísticas portuguesas do século XIX são um monumento erigido à inveja. Ao pé dele, a Praça do Comércio sentirá...inveja. Actualmente, a inveja está por todos os lados e torna-se ainda maior com o estreitamento de horizontes do país, outrora com 2.000.000 km2, hoje reduzido a 90.000 km2 carregados de queixas, ranger de dentes, ajustes de contas e esperanças mortas. Disse-me um dia um pianista brasileiro que o público mais frio que alguma vez vira fora o português. "Aqueles caras até olham uns para os outros antes de aplaudirem"........
http://combustoes.blogspot.com
A inveja, tal como a encontramos em Portugal - uma dor persistente, aureolada pela suposta "decência" de quem se sente ungido para desferir estocadas - não se esgota em minutos, como o ciúme. Persiste, cresce, cultiva-se de acidez, amargura e frustração até dominar e obnubilar aqueles que a servem. Não sei, sinceramente, como pudemos fazer crescer tal monstro. Uns invocarão a Inquisição como fautora desta anomalia de carácter. Parcialmente errado, pois os espanhóis tiveram-na durante séculos e desprezam a inveja na proporção em que a acarinhamos. A incapacidade de emular, o medo de se atrever, a cobardia de medir forças e acarear qualidades, a inibição de dizer "aqui estou" e "sou assim", aliadas a uma cultura de resignação, a uma recusa de tudo o que envolve risco e novidade - ou seja, o sempiterno reaccionarismo - levam-nos a esgotar a energia remanescente em verrina, insulto, diz-se diz-se e frémito niilista. O grande problema, de que a inveja é parteira, é o facto de, em Portugal, se detestar tudo aquilo que não se conhece, de se odiar tudo onde se intui existirem qualidade e superioridade. Não é demais lembar que os nossos grandes homens tiveram uma vida miserável. Onde as franças, as espanhas, as itálias e alemanhas coroam, aplaudem, incentivam e premeiam, Portugal enterra vivos aqueles que pelas raras qualidades se elevam da mediocridade. Mas este sentimento ignóbil não se esgota nas "grandes invejas". É omnímodo, insinuando-se nas mais corriqueiras situações do dia-a-dia. O português nunca diz a um(a) amigo(a) : "como és inteligente", "tenho por ti grande admiração", "como estás bela", "esse corte de cabelo fica-te muito bem", "seria tão bom se ganhasses a lotaria", "tens uns filhos inteligentes". Não. Confrontado com uma boa-nova, o português cala-se, desvia o olhar, empalidece e esboça um gracejo: "parabéns, agora tens uma data de malta a invejar-te".
Durante a Inquisição - essa lepra que nos transformou em analfabetos e cobardes - enviavam-se uns papelinhos anónimos para um fradeco alcoolizado e obeso dar início a uma sórdida investigação que terminava, as mais das vezes, em confisco de bens ou churrasco. Depois, sob o Liberalismo, a inveja transformou-se em gazetas. As polémicas jornalísticas portuguesas do século XIX são um monumento erigido à inveja. Ao pé dele, a Praça do Comércio sentirá...inveja. Actualmente, a inveja está por todos os lados e torna-se ainda maior com o estreitamento de horizontes do país, outrora com 2.000.000 km2, hoje reduzido a 90.000 km2 carregados de queixas, ranger de dentes, ajustes de contas e esperanças mortas. Disse-me um dia um pianista brasileiro que o público mais frio que alguma vez vira fora o português. "Aqueles caras até olham uns para os outros antes de aplaudirem"........
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