O Império Português e a descolonização.

Penso como País devemos ter orgulho numa coisa. Fomos o primeiro a construir um Imperio espalhado pelos quatro cantos do Mundo, e o ultimo a cair.

E mesmo na queda somos singulares, ao fim de 13 anos de luta em três frentes não saímos derrotados do campo de batalha, mas sim por uma traição na rectaguarda, ou seja no T. Paço.

Estive na Guine durante 2 anos e meio, e fui ferido em combate duas vezes. Não falo de cor, sei o vi o que senti, portanto estou a vontade para falar.
É destes testemunhos que o país precisa!
 
Penso como País devemos ter orgulho numa coisa. Fomos o primeiro a construir um Imperio espalhado pelos quatro cantos do Mundo, e o ultimo a cair.

E mesmo na queda somos singulares, ao fim de 13 anos de luta em três frentes não saimos derrotadps do campo de batalha, mas sim por uma traição na rectaguarda, ou seja no T. Paço.

Estive na Guine durante 2 anos e meio, e fui ferido em combate duas vezes. Não falo decor, sei o vi o que senti, portanto estou a vontade para falar.

Não foste traído..se calhar salvaram-te a vida! Ou preferias continuar por lá...?
Pensa antes que foste enganado por quem te disse que a tua vida valia que aquilo continuasse a ser parte integrante do território nacional, como as Beiras, o Alentejo, o Minho..quando de facto apenas servia para alguns fazendeiros e algumas empresas nacionais em monopólio continuarem o negócio. Aquilo era tão português que nem a moeda era a mesma...
 
A traição! Almeida Santos & Companhia - Parte 1

A traição! Almeida Santos & Companhia - Parte 1

Meus caros, certamente ficariam indignados se tentassem branquear o Holocausto Nazi ou os Massacres do Ruanda - recomendo a visualização do filme Hotel Ruanda, não implica leitura e pode ser encarado como um entretenimento não entediante mas de boa base histórico cultural -, e então porque zarão muitos teimam em comprar e aceitar a história que lhes é vendida ?

Os factos e os relatos vividos na 1º pessoa, são muitos, extensos e proficuos, Portugal não pode nem deve continuar a querer viver no torpor e na apatia perante o acto de abandono e traição a que foram sujeitos cidadão nacionais.

E se duvidas há, leiam, raleiam , pesquisem, sobretudo informem-se porque das mesma forma que lixaram os "coloniais", também têm lixado os que nunca sairam da metrópole, e esse lixar há muito que prolonga, pelo menos há 30 anos e os protagonistas, desse lixar de portugueses, são os mesmos.


E o que tenta branquear Almeida Santos ?
Com quem é ele conivente ?
A que interesses e a que irmandade é ele fiel ?

Há quem saiba mais do que eu, eu fui um mero peão, ao serviço do nosso estado.


Quase Memórias. Almeida Santos* - Comentário ao 1.º Volume

por Silvino Silvério Marques

Deslocara-me, creio que em 1972, de Nampula a Lourenço Marques, para tomar parte num Conselho Provincial de Defesa, e encontrei ali um bom amigo que me tinha dado uma colaboração leal, esclarecida e importante em Angola: o Dr. Ferro Ribeiro, transferido para Moçambique após a minha saída de Angola. Falou-me das suas relações de amizade com o Dr. Almeida Santos e do livro “Já Agora…” que ele, na altura, havia publicado e no qual respondia a criticas que lhe haviam sido feitas pelo jornalista Rui Cartaxana numa revista da Beira. Comprado e lido o livro, nele me impressionaram duas confissões do autor. Por um lado, uma relação das razões por que não se importava de ser rico; por outro, a confissão que fazia de que os seus sentimentos se repartiam pelo seu amor a Portugal (entenda-se europeu) e o seu amor a Moçambique. Ocorreu-me oferecer-lhe um exemplar de que dispunha do meu livro “Estratégia Estrutural Portuguesa” e escrevi uma dedicatória em que insinuava que talvez a doutrina tradicional portuguesa sobre o Ultramar que nele se defendia desfizesse as suas hesitações, pois o que se lhe apresentava como dois sentimentos divergentes deveriam tornar-se apenas um e o mesmo: a grande Pátria de todos. Creio que não me foi acusada directamente a recepção do livro, mas pelo amigo comum, Dr. Ferro Ribeiro, foi-me transmitido que o Dr. Almeida Santos não concordava com o seu conteúdo político, porém, quanto ao seu conteúdo social, “estava à nossa frente”...

Mais tarde, logo a seguir ao 25 de Abril, o Gen. Spínola chamou-me para me convidar para Governador-Geral e Comandante-Chefe de Moçambique, convite anulado posteriormente, por elementos da Província (Grupo Democrático de Moçambique?) terem recusado o meu nome.

Nos princípios de Junho fui convidado pelo autor, então Ministro da Coordenação Interterritorial, para Governador-Geral de Angola, após consulta feita pelo próprio à população da Província. Aceite o convite, tive algumas conversas com Dr. Almeida Santos, nas quais trocámos impressões sobre a situação que se vivia lá e cá e a missão que procuraria cumprir: essencialmente preparar a Província para um referendo que se pensava fazer acerca do seu destino e preparar eleições para a administração, segundo legislação que ia ser promulgada. Recordo ter-me contado a forma como decorreu a consulta feita e o resultado, para si inesperado, e não desejado, da mesma. Recordo igualmente de me ter contado que no Conselho de Ministros que apreciou o assunto, ter havido um ministro que lhe perguntou se todos os Movimentos haviam concordado com a escolha, ao que o Dr. A. Santos lhe teria respondido “o Movimento em que está a pensar, também concordou”.

Tratando-me sempre com franqueza e simpatia, poucos dias antes da minha partida, advertiu-me de que eu não ia encontrar em Luanda o ambiente que conhecera e que ia ser recebido, logo que desembarcasse, com manifestação hostil. Assim aconteceu, quando desembarquei. Um grupo de africanos colocado, com dísticos que mal pude ler, no lado da rua em frente da saída do aeroporto, dirigiu-me apupos. Porém logo se calou, quando lhe acenei em estilo amigável e correspondeu com palmas. Segundo me disseram, manifestação do mesmo ou de outro grupo estaria postada ou se postou em frente da residência, mas não dei por ela. Soube posteriormente que a organização das manifestações tinha cabido ao Movimento Democrático de Angola e que havia sido paga a poucos escudos por cabeça…Também num dos encontros, fui encontrar o Dr. Almeida Santos profundamente desgostado pela forma como decorrera a sua reunião em Londres com elementos do PAIGC. Chocado com a composição e a atitude da representação do PAIGC, confidenciou-me que não mais estaria disponível para conversações semelhantes. Algumas referências públicas, de que tive conhecimento, que me foram feitas pelo Dr. Almeida Santos já depois do meu regresso de Angola, foram correctas e simpáticas. De meu conhecimento, apenas a sua confessada discordância com a ideia do referendo a qual tem declarado como apadrinhada pelo Gen. Spínola, me causou profunda surpresa por não ter descortinado, nas instruções saídas das nossas conversas, qualquer sua oposição a essa ideia, então corrente, e infelizmente repelida, nem tentada…Estes os contactos que tive com o autor do livro agora publicado.

Em dezenas de páginas com que se inicia esta importante obra em dois volumes, quase que todo o texto se refere a erros, desvios, ignomínias da acção portuguesa no que foi o seu Ultramar, essencialmente em África. Da escravatura, aos trabalhos forçados; da soberania imposta a populações que parece serem tratadas como constituindo, desde sempre, estados e não, como durante muito tempo, grupos étnicos tantas vezes digladiando-se, fazendo escravatura e traficando-a; das nossas” bravatas militares” (como com desdém refere várias vezes), do nosso “quadrado à beira de ser feito num oito, se não num zero, em Marracuene, Macontene e Magul”… estes e muitos outros senãos da cultura e da acção portuguesa são contrastados com as culturas e qualidades das populações que contactávamos. Os erros e crimes do Acto Colonial (escrito pelo punho de Salazar, segundo o que ensina e salienta), o indigenato, e as políticas da assimilação e da integração, tudo é desfeito no texto do autor. Alguns casos, entre os muitos que profissionalmente viveu, ou que conheceu, exemplificam o que aconteceria por todo o lado, e demonstram o erro de se querer impor uma cultura onde existia outra que devia ser conhecida e respeitada. E todo um estendal de erros, iniquidades e crimes da autoria do cidadão comum, da administração ou dos governos, são encaminhados para apontar como responsável o “ditador”. Talvez uma meia dúzia ou uma dúzia de linhas digam algo de bem. Entre elas a sua surpresa perante a admiração que lhe manifestara um vice-presidente da ONU, o qual acompanhava em visita a Angola, por ali existirem várias cidades que poderiam ser capitais, ao contrário do que era habitual em África onde uma só cidade, em cada país, tinha condições para capital. Nem uma palavra sobre o que foi feito pelos territórios e pelas suas populações no estudo e na investigação, incluindo a cartografia, na saúde, na escolarização, nas comunicações, rodo e ferroviárias, portos e aeroportos, nas barragens, na urbanização, na agricultura, na indústria, no comércio, a partir de fins do século XIX, e essencialmente entre 1926 e 1974 (nos tempos dos “ditadores”). Omite-se que tudo andou para trás nos últimos 30 anos com destruições e crimes cometidos entre as próprias populações e entre os seus próprios governantes. Omite-se que foi com o indigenato e a assimilação, e estava a ser com a integração, que as populações se prepararam para que os seus governantes pudessem hoje aplicar-lhes as soluções jurídicas, políticas, administrativas e sociais, que assimilaram, semelhantes às generalizadas no mundo…. Omite-se que as políticas que agora se consideram erradas foram transição. Esquece-se até que, se de facto se caminha para a “globalização”, era para lá, no seu entendimento material e espiritualmente positivo, que apontava a nossa integração (a portuguesa e verdadeira descolonização). Como poderíamos ter avançado mais rapidamente, havendo partido em tantos aspectos do zero deixado em todo o Portugal pela primeira República? Talvez com gente de melhor qualidade e certos responsáveis mais esclarecidos que, localmente, ignoraram e fizeram por ignorar, que tais doutrinas procuravam defender as culturas encontradas, sem que se desembocasse no apartheid, e que era necessário impedir que, na sua aplicação, gente local, ambiciosa e mal formada, cometesse abusos e vilanias que, aliás, havia localmente obrigação de evitar e poder para punir. E, não esquecendo que Moçambique tinha fronteiras com países reconhecidamente racistas, teria de haver localmente uma “pedagogia” anti-racista, conduzida por elites oficiais e privadas, que repusesse a acção política nos termos da lei que não admitia desvios e abusos que se verificassem.

Porem acontecia que, em vez disto, as elites, e nestas o Grupo dos Democratas, integradas no meio tolerante habitual em que gostavam de conviver, desabafavam protestos, atribuindo a responsabilidade desses erros, desvios e abusos não aos que localmente os praticavam e, ou, os toleravam, mas ao regime, a Salazar, utilizando-os como importante e demolidora oposição. Oposição conduzida essencialmente por altos líderes locais que, nunca esconderam e sempre foram mantendo, a ambição do auto-governo, de início “branco”, o qual, adaptando-se às circunstâncias, foram, sucessivamente, tolerando ir-se “escurecendo”…Em Angola, por mais de uma vez, figuras importantes de uma Associação Africana respeitada me manifestaram o receio de Governos Provinciais “brancos”, mesmo que “escurecidos”, e a sua confiança no Governo Central …

Apesar de defender, e bem, o respeito pela cultura africana (certamente sem esquecer os princípios cristãos conhecidos como direitos humanos) e de se manifestar contra a assimilação, não deixa de assinalar que, em Moçambique, eram poucos os assimilados… Compara os muitos “mestiços” que encontrou na África do Sul com os poucos de Moçambique e não pode deixar de desmistificar as nossas farroncas machistas… (pág. 98). Cita Gilberto Freire que “ganhou esporas de doutrinador oficial do Governo de Lisboa, ao escrever em prosa os novos Lusíadas, da nossa vocação luso-tropical”, para referir que, “segundo ele”, os Portugueses tinham logrado a harmonia racial. Deixa como instrumento privilegiado desse milagre: “a miscegenação, ou seja a cama”…Não compreende, parece, que a miscegenação portuguesa foi sendo desde sempre, e cada vez mais étnica, física, espiritual e também cultural, recebendo e dando….

Afirmando-se como prestigiado e afortunado advogado de Moçambique, nem uma palavra deixa sobre o largo e brilhante contraditório que foi sendo formulado e difundido, na oportunidade, pelo governo português, abdica dos naturais e espontâneos sentimentos de pessoa nascida no Portugal do seu tempo, e reforça, com a sua, a argumentação dos adversários que hostilizavam a Pátria dos portugueses. Esta não era, pelos vistos, a sua, tal como acontecia com o Dr. Eduardo Lourenço, conforme esclareceu, respondendo, num debate que vi televisionado, ao Gen. Kaulza, que invocara a traição havida. Não teme, assim, o risco que o seu colega, igualmente prestigiado, Palma Carlos, não quis correr, quando se demitiu de Primeiro-Ministro. Mas, apaixonado advogado dos nossos adversários, num período importante e grave da História de Portugal, como nela será julgado?

Impregnado do gosto, dito progressista, de se copiar o que se faz lá fora para fazer lei cá dentro, arruma-nos a par e passo do seu texto, ao mesmo tempo que vitupera Salazar e a sua acção, com as descolonizações levadas a cabo quase exclusivamente pela Inglaterra e pela França. Contei nas citações que o autor foi deixando cair, cerca de cinquenta descolonizações efectuadas, entre 1930 e 1974. O autor cita o que em memorando enviado, em 1963, por George Ball a Salazar, é referido (pág. 218): “No breve espaço de vinte anos, mil milhões de pessoas deixaram de estar sujeitos a sistemas coloniais”. Compare-se isto com a modéstia daquilo que, para nos denegrir, mesmo pessoas aqui nascidas, passaram a designar como “colonialismo”, representavam as nossas oito Províncias Ultramarinas e os seus cerca de quinze milhões de habitantes que constituíam pouco mais de metade da nossa população total…Poucas gentes envolvidas. Muito espaço cobiçado, muitas ambições decepcionadas…

O autor, pessoa que sabia inteligente e julgava simples, mostra, com meu sincero pesar, sobre estimar-se, na medida em que não controla o ódio que revela por Salazar que culpa de tudo e a quem trata de forma grosseira e desprezível. Além dos manifestos que sentiu e redigiu, dos discursos que proferiu, das páginas que escreveu, da justiça que procurou que fosse aplicada, que de muito importante e grande deixou para o país em que nasceu e para o respectivo povo, que justifique a superioridade arrogante e verdadeiramente totalitária, na abrangência destruidora envolvida. Porquê tal complexo. Que trauma? A suposta tentativa de defenestração? Os erros que entende cometidos pelo regime anterior? Os crimes que atribui à Polícia Internacional? O “ditador” responsável e culpado de tudo o que de mal (em sua opinião) havia acontecido?

Orientador de uma oposição contínua e intolerante ao regime - bem legitimado pelas relações cordiais com a generalidade dos Estados e das organizações do mundo e aclamado pela defesa do Ultramar- e, apoiante em tempo de guerra dos inimigos que então nos combatiam, sabia que teria de contar com muitos que, politicamente, o detestavam. Sabia que, até em tempo de guerra, tinha mantido uma tarefa que lhe traria dissabores e riscos. Não creio que apenas dai tenha vindo o ódio que não reprime e que tanto desvaloriza o reconhecido brilho da sua escrita corrente. Outras razões explicarão, creio, o recalque que evidencia. Ao começar a ler o Capítulo “Os Primeiros Passos” não pude deixar de o associar ao sonho da sua vida, relativo a Moçambique, “a terra que por amor havia escolhido para viver e da qual teria de desenraizar os cinco filhos que ali haviam nascido” (págs. 230-231), sonho abandonado ao aceitar o desafio de fazer parte do Primeiro Governo Provisório, dado que havia “lutado por uma descolonização política” e entendeu não poder recusar “ajudar a fazê-la” (pág. 232). De Moçambique, onde tinha vivido vinte e um anos e que visitado por si, quatro dias depois de empossado como Ministro, amigos de sempre, e outros novos, viveram tempos de esperança…Amigos correligionários, muitos dos quais, mais tarde o erigiram “em bode expiatório” (pág. 246). Certamente o que se estava a passar não era o que teriam esperado…

Talvez que o ódio destilado se destine, essencialmente, a, cómoda mas friamente, personalizar a oposição a um regime, de muita gente ilustre, que os líderes oposicionistas “brancos” de Angola e Moçambique necessitavam destruir para realizar os seus sonhos, inicialmente de “autonomia branca” que, sucessivamente, foram tolerando se limitassem a ser de federação ou confederação com um pouco de escuro, e até mesmo de separação esbranquiçada. E que, quando julgaram que nem isso era possível, se juntaram ao inimigo de então e passaram também a bater-se pela independência, ainda com derradeira esperança num reconhecimento que lhes consentisse continuar lá, sem problemas, a sua actividade…Afinal, consumada a almejada independência que tinham ajudado a desencadear, não ficaram. Tiveram de correr à Pátria que passaram a tratar, justificando-se, que essa sim era a sua. A outra que os vira nascer e os formara era um mito de utópicos…
 
A traição! Almeida Santos & Companhia - Parte 2

A traição! Almeida Santos & Companhia - Parte 2

Claro que não houve traição -estou a ser ironico -, houve abandono !!

No caso do autor, todo o amor a Moçambique e toda a devotada e, quero crer que em geral justa, defesa dos africanos contra excessos de alguns “brancos de lá” se desmoronam quando, como Ministro escreve (não sei se por seu punho como tantas outras leis que se lhe devem) e publica,”a mais patriótica das leis”, como ousa afirmar (pág.283), a chamada “lei celerada” com a qual, por medo de uma, pacífica, invasão de Portugal por ultramarinos africanos, lhes faz retirar a nacionalidade, num verdadeiro genocídio espiritual que envolveu muitos milhares de vítimas… Quando aqui os revolucionários civis e militares designavam por colonialistas os “brancos” de África e apregoavam o ódio que os ditos explorados africanos tinham aos “brancos” não se percebe o receio manifestado pelo Ministro de que os explorados desejassem, e pudessem, refugiar-se entre os seus ditos exploradores…Parece ser de concluir que o seu amor a Moçambique era ao País que não à sua população… Racismo? Em política, o que parece é. E como se trata de alguém nascido em Portugal, talvez que só por influência de países vizinhos… Fica-se na dúvida se nas ambições políticas do Grupo dos Democratas de Moçambique não haveria, pelo menos, uma réstia de apartheid…Talvez, também, daí que, em resposta a um jornalista numa entrevista publicada a 10 de Abril de 2004 no “Público”, de que só agora tive conhecimento, me tenha considerado, antes do 25 de Abril, defensor de uma Angola branca… Como isto é um disparate de que me repugna não tivesse consciência, só o posso compreender como sendo propositado, talvez por, enfim, sentir necessidade de insinuar que se excluía de tal ideia racista…

Não concretizado, em nenhum grau, o sonho que haviam vivido, coube-lhes regressar à Europa e passar a tentar justificar a tragédia a que deram origem lá, e estão dando aqui…

A habilidade semântica de designar como mito utópico Portugal de Minho a Timor, de que o autor, e com ele tantos, passaram a usar como tábua de salvação para justificar o que fizeram, não pode convencer um povo que não é estúpido, e que se foi espalhando, vivendo e morrendo em tão grande Pátria. E é estranho que isso parta de quem amou Moçambique, conheceu Angola e, em Timor, se comoveu com o amor a Portugal, exibido ali pelos timorenses. Dir-se-à que, ou não conhece o Minho, ou entende que o Minho não é Portugal…E, talvez, tenha sido em Timor, onde me dizem que chegou a lacrimejar pelo portuguesismo ali manifestado, que, recalcando sentimentos, lhe ocorreu, para se compensar, a ideia “utopia” que depois passou a usar como refúgio de culpas próprias, assim lançadas sobre os outros…

Considerando justificado o golpe militar e a descolonização, com as razões apresentadas nas numerosas páginas para o efeito carregadas de desprezo e ódio, com que inicia a sua obra, e assim certamente confortada a sua consciência, deixa compreendido que não pode recusar, embora com sacrifício o convite para Ministro da Coordenação Interterritorial no novo Governo, para, como escreve (pág.232) ajudar a fazer a descolonização política por que havia lutado. Fá-lo com sacrifício, “por deixar Moçambique, a terra que por amor havia escolhido para nela viver…”(pág.30-231). Mas não deixa de vir a esclarecer que como Ministro, no “que diz respeito quanto a orientações políticas sobre o Ultramar, iria em dizer que, por meu mal, tive mais liberdade de actuação do que seria desejável no respeitante aos salvados da administração dos territórios, e menos liberdade do que eu próprio desejei quanto ao seu processo autodeterminativo” (pág. 240). Fica assim (e deixa-se ficar…) menos livre do que desejava para ajudar a fazer a descolonização política por que havia lutado, descolonização que redundou em “tragédia” como foi referido por um dos mais celebrados teóricos fundadores do MFA. Processo que passa a historiar com minúcia, nas suas confusões, intrigas, e nos seus erros (dos quais assim algo se exclui).
Com o à-vontade, de hábil interveniente, inteligente e bom advogado e escritor e de, precatado observador, escreve, com pormenores, certamente verdadeiros, pouco conhecidos, e assim, portanto, com interesse para a História, a baralhada militar, política e social que se desenrolou, e muitos de nós vivemos, a partir do 25 de Abril. Da baralhada vergonhosa, que considera, adoçando-a, como “embriaguez da liberdade”, e das chamadas descolonizações, o autor segue a dar conta dos desaires, dos erros cometidos, dos juízos errados quanto à prática de uma solução política em que sempre falavam, e para cuja preparação tantos contactos os próceres tinham estabelecido aqui e lá fora, a qual afinal se verificava que não sabiam como fazer, como aplicar. As responsabilidades e culpas vão ser, atribuídas, aos militares e entre estes, especialmente ao MFA e a Spínola… Refere mesmo a “quebra de moral, da coesão da disciplina dos nossos soldados…e… em verdadeiros actos de rebelião” (pág. 242), o que não pode deixar, recorrendo aos seus ódios, de explicar: ” Foi a erupção do gás por longo tempo represada.” Isto certamente para não confessar a culpa que os civis políticos tinham (e continuam a ter) na destruição das Forças Armadas que infelizmente não deixou de prosseguir…

As circunstâncias em que decorre a chamada descolonização e que a determinam são descritas com pormenor. Em síntese, são:

- A embriaguês da liberdade que inclui a baralhada, a bagunça política, social e militar, desencadeada logo a seguir ao 25 de Abril e que vai perdurar durante muito tempo. E escreve: “A hora vestia farda. Militar era in totum a glória, militar o essencial do poder, E no próprio âmbito das escassas competências, o Governo era confrontado com a explosiva erupção de poderes de facto, de reacções da sociedade emergente, das primeiras exibições de poder popular. Era escassamente obedecido. Nas escolas instalou-se a rebelião permanente. No mais, a confusão total.” (pág.293). E, como não pode deixar de ser, “ ao nível das causas” atribui a responsabilidade, de forma odiosa, ao regime anterior…É demasiado!...

- As pressões internacionais, omitindo que, enfim, tinham encontrado aqui já não o Estado determinado que se havia batido denodadamente pela política tradicional e do interesse do conjunto de todo o seu povo, mas o Estado fraco, dividido, desorientado, acomodado de que necessitavam para imporem os seus interesses.

- A progressiva deterioração das Forças Armadas, que incluem verdadeiros ultimatos ao poder político. São páginas do comportamento vergonhoso de muitos militares que deveriam ter sido inquiridas, objecto de punição, sempre que se justificasse, divulgadas e objecto de profundo estudo dos Estados-Maiores da Instituição Militar para que se procurasse evitar repetições. Elas explicam muito da passividade da Nação face ao tratamento que a Instituição Militar passou a sofrer depois do golpe militar, quando, para o levar a cabo, até tanto se invocou o aludido desprestígio de então… Mas o autor não pode deixar de justificar tal comportamento vergonhoso, que constitui uma mancha a degradar a História Militar portuguesa. E explica: “A guerra havia durado tempo de mais. Até à exaustão física e psicológica...Com o avolumar das deserções…surgiu a necessidade de recorrer a contingentes africanos e a levas massivas de milicianos que introduziram nos quartéis o anti-colonialismo, o pacifismo, o anti-militarismo… Durante as longas vigílias, ou as tediosas esperas, os milicianos leccionavam a injustiça do colonialismo e das guerras coloniais. Daí que, já mesmo antes de Abril, a guerra fosse alvo em que não entrava a vontade de muitos, ou em que muitos se recusavam a pôr a alma…Resultado: as consciências devinham fenomenológicas, e a distinção entre o bem e o mal esbatia-se por entre convulsões cívicas sem controlo…Essa «revolução» em marcha, que desde o pós-guerra vinha fazendo por toda a parte o seu caminho, e havia penetrado a custo no bunker da ditadura Salazar-Caetanista. “Abertas as portas que Abril abriu, deu-se a inundação. Em dias apenas, Portugal acertou o passo com ela. E acertou-o da pior maneira: assimilando-o mal, e por via reactiva às injustiças, às privações e aos constrangimentos do passado” (pág.325)

Atribui-se, como tem sido hábito, com profunda injustiça, generalizadamente aos milicianos, entre os quais, antes do golpe militar, estiveram dos melhores operacionais, por um lado, um seu comportamento que alguns políticos revolucionários de Abril se esforçaram que tivessem, por outro uma cultura muito pobre dos quadros saídos da Escolas militares, grande influência na disposição dos militares para golpe. Esquece-se que eram numerosos os milicianos que desejavam continuar como militares e que, reconhecidamente, o tinham merecido. Estes eram tantos ou tão poucos que serviram de motivo ao golpe dos seus alunos de política, “durante as longas vigílias ou as tediosa horas de espera”…. Esquece-se que foi essencialmente de milicianos patriotas que ao surgirem sinais de lassidão que convinha ultrapassar, partiu a ideia do Congresso dos Combatentes, tão contrariado...

E, como era de esperar, sem referir o reconhecido comportamento operacional exemplar das Forças Armadas até ao 25 de Abril, recorre-se ao passado, omitindo a acção de forças políticas de várias tendências sobre quadros militares que nalguns poucos casos (praticamente os de uma promoção de contemporâneos) se deixaram infectar, do que é exemplo o MFA. Com quadros contaminados, e não dignos, nada se pode exigir de soldados, que assim deixam de o ser. Já o Marechal Montgomery havia advertido uma promoção de cadetes da Academia Militar, de que eram grandes as suas responsabilidades pois se destinavam a comandar soldados que, quando bem comandados, eram dos melhores do Mundo. E exortou-os, em formatura a que assisti, para que soubessem ser sempre dignos deles! Antes do golpe, raros, se alguns, foram os que o não souberam ser!

É extraordinário que pessoa que, ao longo do seu texto, tanto ódio concentra nas suas continuadas acusações, reaja, (pág.558) com tão pouco respeito, às acusações de Luís Aguiar, engenheiro em Moçambique, profundo conhecedor da chamada descolonização, em numerosos artigos e no seu histórico “Livro Negro da Descolonização” que tanto incomodou e continuará a incomodar os responsáveis pelo que fizeram. Livro sobre o qual, com a sobranceria que o domina, o Dr. Almeida Santos concede “escrito com algum talento - diga-se - e sobre tudo com enorme paixão”, mas comenta não ”merece resposta. Por isso nunca a teve. Nem agora pormenorizadamente a terá.” Pois não, não é fácil…

Quanto à queixa apresentada em tribunal contra os descolonizadores, que considera a “acusação de todas a mais delirante” , escreve duas páginas (págs. 575-576). E refere: “levei tão pouco a sério aquela esquipática imputação de «traição» que nem procurei, por largos tempos tomar conhecimento dela.” Revela assim, possuindo-a, uma consciência menos sensível do que a do seu muito prestigiado colega Palma Carlos. Dedica 14 linhas a referir o que, precavendo-se com justo medo, foram preparando para tentar evitar aquela terrível imputação de serem incursos no artigo 141 previsto no Código Penal, que estava em vigor. A lei 7/74, de 27 de Julho que o autor refere foi considerada pelos queixosos um desvio, uma vez que os povos envolvidos, não tendo sido ouvidos, não exerceram o direito previsto no acórdão do Supremo. Posteriormente, o Dr. Almeida Santos foi relator da Lei 34/77 apresentada pelo Partido Socialista, na qual são, prescritas para o mesmo Crime de Traição à Pátria, quando da responsabilidade dos titulares de cargos políticos, penas de 10 a 15 anos de prisão enquanto na legislação anterior eram de 15 a 20. Saliente-se que, tempos antes, o Dr. Almeida Santos tinha sido mal tratado, nos Açores, por independentistas ….

O desabafo do autor sobre o “Sentar os descolonizadores no banco dos réus” (págs.575-576) é rematado dizendo: “Que a grotesca queixa-crime em apreço se afoga no próprio ridículo, tem merecido e continuará a merecer o desprezo dos socialistas visados e…” O autor, confundiu-se: estava certamente a pensar na grotesca, na apalhaçada, sessão do parlamento de 24 de Novembro de 1981 resposta apavorada à notícia difundida pelo semanário “O Expresso” sob o título “Descolonizadores poderão ser julgados”. Grotesco esse sim que o autor omite… Que vergonha para o parlamento e seus deputados: ameaça aos juízes, insultos, legislação a preparar, certamente com efeitos retroactivos. Grotesca, ainda, e que, sem deixar o apalhaçado, é também profundamente ridícula, a sessão de 3 de Dezembro de 1981 na qual os deputados do povo ostentam o embaraço de um emendar de mão…Tudo é omitido por quem (como explicar?) não levava a queixa a sério…

Sobre esta queixa o autor nem parece o advogado ilustre de Lourenço Marques. Mostra-se pouco escrupuloso… Nem os históricos pareceres do grande criminalogista Professor Doutor Manuel Cavaleiro de Ferreira relativos ao processo lhe merecem a humildade do respeito.(1)

Resumiria o Primeiro Volume do Livro a três objectivos:

- Justificar o golpe com o “colonialismo” que, segundo o autor, seria prática generalizada, e tolerada, na acção de “brancos” em Moçambique e no Ultramar, o que verificado por uma tropa cansada e influenciada pelos camaradas milicianos a levou ao 25 de Abril. Justificar, essencialmente, com o “colonialismo” do regime, a sua adesão ao processo que se lhe seguiu…

- Isentar-se da barafunda polítco-militar e social desencadeada e atribuir as responsabilidades e culpas essencialmente aos militares. E nestes muito especialmente ao MFA e a Spínola, adoçando-as como consequência do antigo regime…

- Isentar-se da confusão da chamada “descolonização” e assumir-se essencialmente como negociador e produtor dos acordos com os interlocutores que foram entendidos como representativos das populações: os movimentos que nos haviam combatido.

É pena que o autor, que levou o tempo que o separa dos acontecimentos por desejar escrever História, tenha deixado, num texto bem escrito como o sabe fazer, numerosas informações e notícias importantes, conspurcadas por muito ódio, por exageros, por omissões, por injustiças, tudo essencialmente, creio, que por um sonho de muitos anos que não conseguiu concretizar.

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(1) Para se avaliar da ligeireza e do desdém com que o Dr. Almeida Santos trata este assunto consulte-se o livro “Os Descolonizadores e o Crime de Traição à Pátria” S. Marques, L. Aguiar e G. Santos e Castro, 1983, Ed.Ulisseia e, no jornal “O Dia “ de 15 de Dezembro de 1987, o artigo “Para que se não esqueça”.



* Publicado em revista Estratégia, vol XVI, Instituto Português da Conjuntura Estratégica, Lisboa, 2007.
http://www.alamedadigital.com.pt/n7/almeida_santos_1.php
 
A traição! Almeida Santos & Companhia - Parte 3

A traição! Almeida Santos & Companhia - Parte 3

Há muito para ler e assimilar.

E há muito bom vendedor de banha da cobra, aquela pomada inócua que tudo cura, neste caso vende-se a politico hábil e sem escrúpulos, que em supremo golpe de rins, até não fez o que fez, haja quem comprem.

E faltam sempre os documentos históricos, que, ou somem miraculosamente, ou estão perdidos nas calandras gregas, algures nas necessidades - de alguém presumo.

Quase Memórias. Almeida Santos* - Comentário ao 2.º Volume

por Silvino Silvério Marques

No 1.º volume o autor justificou a sua adesão ao golpe dos militares e a colaboração como Ministro no processo a que o mesmo deu origem, pela sua oposição ao regime derrubado e ao “colonialismo” que considerava ser praticado no Ultramar português. Assume-se isento da barafunda politico militar desencadeada pelo processo, e, apesar de nos governos provisórios durante os quais se processou a chamada “descolonização” ter sido a pessoa que tutelava o Ultramar, considera-se também isento relativamente à confusão que envolveu a decisão de “descolonizar” e às circunstâncias em que tal teve de ser feito. Alguns militares e alguns políticos teriam sido os responsáveis directos pelo que aconteceu, mas a culpa original é atribuída (agora já não em todas as páginas, mas com menos frequência, só para não esquecer…) ao regime derrubado, e aos seus chefes, pela forma como haviam conduzido o país e resistido a que o Ultramar fosse ”descolonizado, quando quase todos os outro países haviam “descolonizado.” Praticamente em todo o 2º Volume, recheado de informações historicamente importantes, e como o primeiro, bem meditado e escrito, a estes se insinua a atribuição da referida responsabilidade, e se dá conhecimento da acção que o autor considera louvável e exaltante, e que foi de facto complexa, de procurar remendar a situação algo caótica criada.

Antes de entrarmos no comentário a este segundo volume, uma observação geral. Toda a argumentação que tem sido usada para justificar a secessão do Ultramar português anda à volta de que, no ambiente internacional que se vivia, a ”moda” (cuja aplicação depois rapidamente passou, especialmente em relação aos “grandes”) consistia “em auto-determinação e independência” dois conceitos que intrinsecamente se podem anular, pelo que só é correcto entendê-los, e aplicá-los, separando-os. No caso português, não tendo sido, após o “golpe”, feitos quaisquer esforços para se tentar que as populações fossem consultadas, por não ter sido possível, como se pretende, ou por se temer um resultado não desejado, como suponho, os processos levados a efeito não foram legítimos. Os responsáveis, que mais pareceram desejar ver-se livres de um “fardo” do que preocuparem-se em levar mais felicidade às populações envolvidas, declaravam que não tínhamos outra solução que não fosse seguir a moda. E acabaram por reverter, satisfeitos, à Pátria deles, então, uma pequena fracção da dos de cá e dos de lá, a actual franja da Europa, sempre cobiçada por interesses exteriores e sujeita a traições interiores. Ameaça esta agravada na medida em que o País empobreceu e enfraqueceu e o ambiente criado fez, entrar em crise as Forças Armadas, a Universidade e a Igreja, pilares tradicionais da nossa existência.

Neste 2º Volume, a essência do texto é a seguinte: a independência devia ter sido prometida imediatamente após o golpe, antes que as tropas desistissem de combater, dado o colapso moral em que se encontravam. Teria sido possível assim negociar em condições diferentes e melhores. Segundo o autor, a ideia de Spínola de transformar o País numa Federação de Estados, tornada inexequível, fez retardar o anúncio das independências, levando a situação tão crítica que tropas de Moçambique e de Cabo Verde (!) chegaram a apresentar gravíssimos ultimatos ao Governo. Deixa o autor que o leitor conclua assim que, Spínola primeiro, embora bem intencionado, mas fantasista, com as suas delongas, e depois as tropas, com o comportamento execrável de alguns (ressalvando, ou não fossem de militares de Abril, por cansadas e ansiosas pela paz, após as promessas do golpe…), são os culpados da forma como decorreu a “descolonização”, forma cujo remedeio se deverá essencialmente à sua acção. E como já no 1.º Volume havia o autor devotadamente demonstrado que a culpa da situação era de…Salazar, é, em última e muito responsável instância, a ele que a atribui. Salazar que até se tinha metido em bravatas militares, como gosta de repetir, em contra ciclo com a moda dos países que seriam colonialistas, como nós. Alguns mesmo até com mais mestiços, menos colonialistas, entende-se…

O autor não considera necessário, ou adequado, recordar que, quando Salazar proclamou o “rapidamente e em força”, a Nação em peso o acompanhou, como sempre de Minho a Timor, o acompanhara, nas situações de crise, embora se tivesse de progredir ao ritmo consentido pela situação deixada pela Primeira República. Até oposicionistas daqui o acompanharam, com o entusiasmo dos de lá, estes certamente receosos pelos massacres cometidos e talvez alguns esperançados em governos nos quais viessem a estar mais presentes…

Omite-se o esforço que, afastado o perigo inicial, por acção governamental e militar, a oposição entendeu oportuno aplicar numa campanha de destruição das Forças Armadas difamando os seus chefes e promovendo a deserção das tropas. Esforço acompanhado de insistente acção sobre os milicianos convidando-os a fugirem ao Serviço Militar e facultando-lhes, no estrangeiro, apoios de acolhimento, actuação em prol das pátrias de outros. E também, relativamente a muitos, procurando que, desde que incorporados, procurassem influenciar os “incultos” das Academias Militares no sentido de se insubordinarem. Quanto a estes devem contudo ter sido poucos os que se deixaram convencer, dado serem tantos os milicianos que desejaram passar a servir nas Forças Armadas. Pode-se mesmo pensar se não teria ocorrido uma inversão de actuações, ou, pelo menos de resultados…

Não se recorda a apelativa voz (que agora, uma vez por outra revela, parece, sincera tristeza pelo caminho a que aqui e lá se foi conduzido…), apelativa voz que tempo a fio, a partir de Argel, denegriu as chefias militares, convidou à insubordinação e à deserção os nossos combatentes… Quando é que militares, ou civis, aceitam o desafio, tantas vezes já feito, para darem a conhecer aqui, ao povo, o teor dessas emissões? Não se recordam as cantatas demolidoras que convidavam à insurreição. E quem se não lembra da invocação da guerra perdida feita logo a seguir ao 25 de Abrir por tantos altos políticos responsáveis que um grupo de generais sérios, teve de contestar e provar que era injusta e estava errada, como o próprio inimigo de então chegou, algumas vezes, a confirmar. Não compreenderam que perdida só com e depois do golpe de Abril, como era de prever e, pelos vistos, certamente desejado …

Quem não se lembra da lenga-lenga da solução política que certamente os expatriados políticos (e devotadamente o próprio autor que por ela aceitou ser Ministro) andaram a preparar, a combinar, e que desencadeada a altura de a aplicar, não souberam como, pois, conforme o autor deixa entendido, no 1º.Volume, os entusiastas pela solução política não sabiam nem o que, nem o como fazer…e deu o que se conhece: uma tragédia, segundo um outro dos seus responsáveis. Eu não esqueço esses grandes patriotas que tanto se esforçaram pela destruição da minha Pátria a qual não era dos poucos estrangeirados, estes sim miticamente cidadãos de um Mundo futuro, que, bons e pressurosos alunos quiserem antecipar, indiferentes às dores que vão semeando e que grandes tragédias originaram já em tantas populações portuguesas, dores provocadas em circunstâncias que conhecemos por as termos vivido e não noutras que evocam, sofridas em circunstâncias históricas do tempo de outros. Dores que, em relação a África, se continuam a verificar nas migrações actuais, fruto do que, para alguns, foram meras largadas de “fardos”, designadas eufemisticamente por descolonizações...

Nas atoardas emitidas pela troante “voz de Argel”; no espezinhar-se, em Londres, em manifestação conduzida por gente aqui nascida, a bandeira portuguesa que no Ultramar era içada e arriada perante a respeitosa e impressionante homenagem de quantos, passando, paravam e, em sentido, se quedavam a assistir; no escrever-se, em letra de forma, que Timor devia ser entregue à Indonésia; no acto terrorista do Sta. Maria; nas bombas lançadas sobre instalações militares; no aliciamento e apoio nacional e estrangeiro às fugas e deserções a partir do Portugal europeu… vários civis, intrinsecamente por ódio a Salazar, visaram e prepararam a desmoralização, face à defesa do Ultramar, dos portugueses, em particular dos combatentes. Defesa do Ultramar e das suas populações a que se fora obrigado, que se iniciara com o assentimento generalizada da Nação, após o massacre terrorista de que se havia sido vítima, em Angola. Lançados para negociações os que tinham desejado que a guerra fosse perdida, e passaram, após o golpe abrilista a “saber” que a guerra estava perdida (por essa razão, diziam e escreviam, os militares tinham feito o golpe), viram, nessas condições, facilitada a tarefa que se haviam imposto de “largar” o fardo, alguns até de o entregar a amigos. Nas Províncias onde não havia guerra, inventaram-na e deixaram que, como tal, se desencadeasse. Com, por vezes, insólita, e despropositada, colaboração de golpistas, ditos militares, passou-se às negociações, com a decisão de “largar”, ou entregar, facilitada pela pressa que as circunstâncias criadas por alguns militares foram impondo. Os que tentavam um procedimento diferente face à situação jurídica criada, foram abandonados impiedosamente até pelos que os tutelavam e quando procuravam executar as missões que tinham aceitado…

As chamadas “descolonizações” limitaram-se a entregar as Províncias aos movimentos que havíamos combatido, que não às populações, após negociações facilitadas pelo clima de derrotados que militares e civis tinham preparado para se livrarem do fardo…Onde não tinha havido guerra, apareceram ou criaram-se grupos para receber a dádiva. Em Macau, não houve quem o quisesse receber…Tem todo o interesse ler o texto que às descolonizações das várias Províncias está consagrado neste volume pelas importantes, e algumas muito tristes, informações que contém, e pelo labor e dedicação a que obrigou, infelizmente em sentido errado, agora contra os ventos da chamada globalização… Não era a integração portuguesa uma globalização que bem desejável e natural seria que se multiplicasse? Não será globalização outro nome da nossa integração? Não estaríamos já a promovê-la de uma forma humana muito mais abrangente? Não se andou a contra-ciclo? Fica-nos a convicção de que tanta energia e dedicação consagrada a uma missão errada, se invertida, poderia bem ter impulsionado, sem tanta desgraça, cá e lá, em paz, a integração portuguesa que se vinha construindo, essa sim, a lança no futuro …!

Fica-me a admiração por quantos, tratando-se de um Golpe de Militares encabeçado por dois Generais, então de prestígio reconhecido, nas posições militares cimeiras em que foram colocados pelo Governo do País, acreditaram no Programa das Forças Armadas e nas declarações da Junta de Salvação Nacional, e nos membros militares que a compunham. Afinal foi-se verificando que o golpe era intrinsecamente de portugueses mal formados, pois alguns que vestiam farda militar não possuíam a alma que os deve distinguir. Anoto, como exemplo, aquele, importante, que, vestindo farda, declarava, exultante, no Expresso, que «a profissão militar não era um modo de morte, mas um modo de vida!». Já me não recordo qual o civil fardado que o declarou, mas certamente um dos heróis que por aí anda abraçado a outro herói, por vezes um “desertor assumido, com muita honra.” Alguém que não havia apreendido que ser militar, é apenas uma “vocação” ao serviço dos grandes deveres e interesses da sua Pátria e do seu povo.

Pesa-me que muitos que se viram enganados e ultrapassados, tenham decidido continuar a colaborar no que no íntimo, se eram sérios e não mitómanos, não podiam deixar de considerar errado. Mas foi assim que pessoas de talento, oposicionistas do antigo regime, que, apesar de ultrapassado o regime, como tinham levado grande parte da vida a desejar (erradamente como muitos estarão no seu íntimo, a concluir) embora discordantes do que estava a ser desencadeado, não tiveram a força que a autoridade lhes dava para aproveitar a muita gente capaz que existia para dar ao golpe, contra ventos e marés, a guinada, o rumo, que se justificava em prol de todas as populações e da paz. As qualidades de inteligência e de perseveração de muitos que aderiram ao 25 de Abril, e assim se mantiveram, mesmo quando começaram a viver os desastres que se avizinhavam aqui e no Ultramar, foi pena que não tivessem sido colocadas ao serviço da Pátria e de todas as suas populações, mesmo que se viessem a aconselhar mudanças que se considerassem necessárias. Assim muitos acabaram por se tornar responsáveis pelo que deixaram fazer e sobre tudo pelo que fizeram… Talvez que as qualidades que possuíssem lhes permitissem ajudar a evitar as tragédias que se vieram a verificar.

De qualquer maneira, os textos deste 2º.volume constituem uma importante e pormenorizada descrição da história das descolonizações que foram ou, como pretende o autor, face às circunstâncias, puderam ser levadas a cabo. Circunstâncias, porém, muito preparadas e criadas pelos civis oposicionistas que se esforçaram por destruir a “tropa” e que quando verificaram que precisavam dela não a tinham. Poucas referências me merecem os textos, que considero históricos pelas muitas ocorrências que dão a conhecer, entre as quais algumas profundamente desonrosas para as tropas e para Instituição Militar que, por reflexo, as sofre. Não posso entretanto deixar passar o seguinte reparo: Não se compreende como o autor, para descrever a situação da guerra nos três teatros de operações em que se verificava, antes do golpe militar, a não vá buscar ao que foi declarado pelos derradeiros Comandantes-Chefes, mas a opiniões de empenhados no golpe que procuram justificar, ou, a autores estrangeiros que a não viveram. A situação na Guiné prescinde da opinião de um dos mais prestigiados generais portugueses, último Governador e Comandante-Chefe da Província o que torna escandalosa a forma displicente como o General Bettencourt Rodrigues, a pág. 34, é tratado. Em seu lugar vai-se buscar a opinião de Norrie Mac Qeen, que, arruma o assunto, escrevendo que, no início de 1974, “o moral das Forças Armadas Portuguesas, que nunca fora muito elevado…roçava já o do amotinamento”. O mesmo se poderá observar quanto às opiniões sobre a situação em Moçambique e até quanto a Angola…A guerra para o autor estava perdida, nos três teatros. Tinha mesmo de estar perdida…Por pouco, como tal incluiria guerras onde as não tinha havido… Essas, se perdidas, não faziam porém tanta falta para facilitar a “descolonização” que se desejava feita contra as bravatas militares de derrotados…

O autor termina o trabalho, contente com o que escreveu e por o ter escrito. Manifesta-se também satisfeito com o que fez e, optimista, entende, ao contrário de um seu companheiro na acção, considerado ilustre, já falecido, que a descolonização não foi nenhuma tragédia. Nem cá nem lá. E é ele, que considera os outros mitómanos, que, exuberante, refere (pág. 442), depois de tudo o que aconteceu e em que se envolveu, esquecendo até que abandonou, como impossibilidade não tentada, a federação de Spínola:

“O novo desígnio foi a Europa. E foi nela que embarcámos, desta vez rumo ao «Prestes João» do futuro do mundo. Um mundo que a prazo será tão globalmente federado - ou no mínimo confederado - como a União Europeia já em si o é… Foi bom termos desvendado os mares? Claro que foi. Termos escrito a nossa odisseia com remos, e por fim com a pena genial de Camões, constituirá sempre o pico mais alto da nossa glória enquanto povo.

E termos podido estar na origem do fenómeno da globalização que agora se aproxima do ponto de chegada, converte-nos em percursores do futuro. E um percursor não pode travar o movimento que lança.”

Travaram-no! Com ódio, imaginação e ambição a mais, faltou-lhes, em problemas essenciais, discernimento para compreender e sentir que a integração que estávamos realizando, com aptidão herdada, era, no seu conjunto, essa sim, já real, e sobretudo profunda e abrangentemente humana, globalização, sempre a aperfeiçoar, das paragens por onde andaram os nossos maiores que desvendaram os mares.

Bem pode o autor confirmar que no social, mas não só,

Estávamos à sua frente…

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* Publicado em revista Estratégia, vol XVI, Instituto Português da Conjuntura Estratégica, Lisboa, 2007.
http://www.alamedadigital.com.pt/n7/almeida_santos_2.php
 
Traição ou venda? - PCP, Dr. Cunhal e a URSS - Parte 1

Traição ou venda? - PCP, Dr. Cunhal e a URSS - Parte 1

Foi simples traição, ou uma venda de activos por parte do PCP e dos seus dirigentes ?

O 25 DE ABRIL E A HISTÓRIA

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Quanto à descolonização havia trunfos para a realizar em boa ordem e com a vantagem para ambas as partes: o exército português não fora batido em campo de batalha; não havia ódio generalizado das populações nativas contra os colonos; os chefes dos movimentos de guerrilha eram em grande parte homens de cultura portuguesa; havia uma doutrina, a exposta no livro Portugal e o Futuro do general Spínola, que tivera a aceitação nacional, e poderia servir de ponto de partida para uma base maleável de negociações. As possibilidades eram ou um acordo entre as duas partes, ou, no caso de este não se concretizar, uma retirada em boa ordem, isto é, escalonada e honrosa.

Todavia, o acordo não se realizou, e retirada não houve, mas sim uma debandada em pânico, um salve-se-quem-puder.

Os militares portugueses, sem nenhum motivo para isso, fugiram como pardais, largando armas e calçado, abandonando os portugueses e africanos que confiavam neles. Foi a maior vergonha de que há memória desde Alcácer Quibir. Pelo que agora se conhece, este comportamento inesquecível e inqualificável deve-se a duas causas. Uma foi que o PCP, infiltrado no exército, não estava interessado
num acordo nem numa retirada em ordem, mas num colapso imediato que fizesse cair esta parte da África na zona soviética.

O essencial era não dar tempo de resposta às potências ocidentais. De facto, o que aconteceu nas antigas colónias portuguesas insere-se na estratégia africana da URSS, como os acontecimentos subsequentes vieram mostrar.

Outra causa foi a desintegração da hierarquia militar a que a insurreição dos capitães deu início e que o MFA explorou ao máximo, quer por cálculo partidário, quer por demagogia, para recrutar adeptos no interior das Forças Armadas. Era natural que os capitães quisessem voltar depressa para casa. Os agentes do MFA exploraram e deram cobertura ideológica a esse instinto das tripas, justificaram honrosamente a cobardia que se lhe seguiu. Um bando de lebres espantadas recebeu o nome respeitável de «revolucionários». E nisso foram ajudados por homens políticos altamente responsáveis, que lançaram palavras de ordem de capitulação e desmobilização num momento em que era indispensável manter a coesão e o moral do exército para que a retirada em ordem ou o acordo fossem possíveis. A operação militar mais difícil é a retirada; exige em grau elevadíssimo o moral da tropa.

Neste caso a tropa foi atraiçoada pelo seu próprio comando e por um certo número de políticos inconscientes ou fanáticos, e em qualquer caso destituídos de sentimento nacional.

Não é ao soldadinho que se deve imputar esta fuga vergonhosa, mas dos que desorganizaram conscientemente a cadeia de comando, aos que lançaram palavras de ordem que nas circunstâncias do momento eram puramente criminosas.

Isto quanto à descolonização, que na realidade não houve.

....

De: António José Saraiva

http://papiro.blogs.sapo.pt
 
Não foste traído..se calhar salvaram-te a vida! Ou preferias continuar por lá...?
Pensa antes que foste enganado por quem te disse que a tua vida valia que aquilo continuasse a ser parte integrante do território nacional, como as Beiras, o Alentejo, o Minho..quando de facto apenas servia para alguns fazendeiros e algumas empresas nacionais em monopólio continuarem o negócio. Aquilo era tão português que nem a moeda era a mesma...

Não me salvaram a vida, pois quando se deu a "punhalada pelas costas", já tinha regressado á um ano. Devo a vida sim, aos meus camaradas de armas que me socorreram quando fui ferido, assim como eu ajudei outros quando tambem cairam ao meu lado.

É muito bonito falar de ideais a tinta e tês anos de distancia, comodamente
sentado a trás de um computador, mas quem lá esteve é que pode avaliar aquilo que sentia quando sofria ou fazia emboscadas e assaltos.

Atenção que não faziamos a guerra pelo gosto da guerra, como alguns pacifistas de pacotilha dizem.
 
Sobre a relativização, que é usual ser feita a propósito da legitimidade, ou não de as colónias serem território Português, e a legitimidade de os POrtugueses possuirem esses territórios, que teriam, ou não, sido usurpados aos indigenas, tenho como referência este artigo


http://dn.sapo.pt/2005/05/26/opiniao/africa_e_sarsfield_cabral.html


E enquanto, quem tudo relativiza, não me conseguir responder a este ultimo excerto.




Direi sem sombra de duvida que Portugal, tem mais direito ás suas colónias ultramarinas que os EUA têm ao Texas e Novo México - só para citar dois inequivocos estados dos EUA -, que Portugal tem mais direito às suas colónias ultramarinas que a Espanha têm a Olivença.

E que na realidade, sob a administração de Portugal os indigenas de África, tiveram sem sombra de duvidas mais progresso, e evolução do que sob o dominio dos sobas tribais.

Sobas, que se revelavam mais tiranos e exploradores, do que se calhar o foram alguma vez os Portugueses.

Sobas que na era pós descolonização, tomaram o nome de Jonas Savimbi ou José Eduardo dos Santos.

Sobre isso, valerá, certamente ter um olhar deveras critico.


Sobre a traição dos políticos nacionais, e o atabalhoado processo de descolonização, sempre gostaria de saber porque razão Portugal não solicitou a mediação presencial no terreno de capacetes Azuis da ONU.

Evitavam-se massacres e tantos dramas humanos que ocorreram, os países evitariam ficar a saque, a transição seria assegurada, e a ONU que tanto pressionou Portugal ficaria com o ÓNUS final de um processo que iniciou sob pressões Americanas, Russas e Europeias.

Assim imperou a bandalheira, tão a gosto de uns quantos.

[8b]

Bravo! apr:)
 
Traição ou venda? - PCP, Dr. Cunhal e a URSS - Parte 2

Traição ou venda? - PCP, Dr. Cunhal e a URSS - Parte 2

Esta segunda parte, dedico-a a pessoas como o user AKAGI, que certamente se revêm nalgumas das passagens deste livro.

Estou certo, que muitos, mas muitos mesmo, choraram o sangue derramado dos camaradas de armas, e que no fim, viram o seu esforço, a sua dor tão pouco recompensada, e foram, cito:

" Portugal mobilizou para a guerra colonial mais de 800 mil jovens, teve 8 mil mortos, 112.205 feridos e doentes, 4 mil deficientes físicos e estima-se que cerca de 100 mil doentes de stress de guerra. "

Por isso, hoje, é fácil tudo relativizar.

Fica o que deve ser lido, e nunca esquecido, Portugal teve, a exemplo de algumas outras nações, os seus vendidos e traidores, que vivem hoje, como nababos na sombra de actos infames.

OS DIAS DA VERGONHA

Reis Ventura

PREFÁCIO

PALAVRAS DO GENERAL SILVINO SILVÉRIO MARQUES ANTIGO GOVERNADOR GERAL DE ANGOLA


General Silvério Marques

Um dia, que esperamos a justiça dos homens não faça esperar muito, será classificado o que se passou no Ultramar Português, e especialmente em Angola, no que se refere à chamada «Descolonização». Nessa altura haverá revelações que multo surpreenderão o nosso povo.

Entretanto, a verdade dos acontecimentos está sendo, aos poucos, descoberta por testemunhas atentas e sensíveis que, numa tessitura aqui e além romanceada, vão contando o que efectivamente presenciaram, ainda sem grande preocupação, ou possibilidade, de aprofundar as respectivas causas.

Deste modo se estão produzindo verdadeiras monografias do dia a dia vivido naquilo que constituiu não uma epopeia igual aos descobrimentos, como impudicamente foi dito, mas a maior tragédia (e vergonha) da nossa História: a «Descolonização» e o «Retorno».

Num tempo em que generalizada crise de carácter se reflecte na acomodação cobarde de muitos e na amnésia de quase todos, dos responsáveis às próprias vítimas, o aparecimento dessas monografias dos acontecimentos deve ser saudado como verdadeira pedrada neste charco.

Assim fui entendendo Os Dias da Vergonha, à medida que desfolhava as suas páginas. E ficou-me um sentimento, complexo e amargo, de saudade, vergonha e desespero...

Todos, em Angola, conhecemos Reis Ventura das suas numerosas obras literárias, da sua colaboração permanente num jornal da província, da sua fluente e empolgante oratória em momentos históricos da vida do País e de Angola.

Numa prosa simples, acessível a todos, e rica de sensibilidade e de expressão, retraía agora, nos sentimentos, nas atitudes e nas actuações, horas cruciais vividas em Angola, naquele período de infelicidade e amargura que sucedeu ao 25 de Abril.

Nesta Crónica dos Dias da Vergonha ficam fixados factos que então ocorreram e que será crime esquecer. A Reis Ventura passamos a dever, os "retornados» verdadeiros, e os que o somos espiritualmente e todos quantos conhecemos e compreendemos Angola e continuamos a sofrer o destino que lhe foi preparado e imposto, a gratidão por mais este trabalho.

Reavivar assim a memória é serviço prestado a muitos de nós. E também à História.

Silvino Silvério Marques.

EXPLICAÇÃO NECESSÁRIA


Neste livro se relatam factos que aconteceram em Angola desde 25 de Abril de 1974 a 11 de Novembro de 1975.

Começa ainda sob o signo da esperança, no engano do programa Inicial do Movimento das Forças Armadas, que preconizava a defesa da Nação Pluricontinental, e das promessas dos seus homens mais responsáveis. Mas termina em gritos de desespero, porque bem depressa a realidade mostrou que era tudo mentira, vergonha e traição.

Há muito boa gente da melhor do Portugal desta hora aziaga que se admira de que os homens de Angola, tão corajosos e resolutos nos dias trágicos de 1961, se tenham mostrado tão resignados e submissos depois do 25 de Abril de 1974.

Compreendemos esta atitude, porque até nós próprios choramos de raiva, ao pensar que poderíamos ter altivamente salvo a terra dos nossos filhos, em vez de vir mendigar para a desolada Pátria de nossos pais. Correria sangue, que nós não queríamos, e haveria uma inevitável ruptura temporária com o Governo da Metrópole, que nunca deixou de ser a terra da nossa saudade. Mas não aconteceria a entrega de Angola aos russos, nem a ignóbil traição ao Ocidente, nem a tremenda desgraça de milhões de brancos, pretos e mestiços, nem a confrangedora e multimoda vergonha de uma velha e nobre Nação, nem a rápida e completa derrocada do que podia ser um grande e próspero País.

Se os brancos, pretos e mestiços que não andaram aos tiros nas matas, mas construíram a Angola moderna, tivessem decidido assumir o poder na sua terra, nunca os laços fraternos com a Mãe Pátria se quebrariam definitivamente; e dali poderia vir, a curto prazo, a força e a ajuda necessárias para salvar este velho Portugal, integrado numa efectiva e grandiosa Comunidade de Nações Lusíadas.

Mas é agora, depois dos acontecimentos, que tudo isto se vê com facilidade e clareza. No decurso deles era diferente. E é preciso tê-los vivido, no confuso clima dos primeiros meses da Revolução dos Cravos, para compreender a atitude dos portugueses de Angola.

Em 1961 tínhamos Salazar em Lisboa, um governador-geral bem português em Luanda (a) e a Nação inteira ao nosso lado.

Acordávamos com esse tremendo hino «Angola é nossa!», que parecia - e era - um clamor imperativo da alma milenar da Grei. Estávamos sem armas e sem soldados, mas sabíamos que todo o povo português acompanhava emocionadamente a nossa resistência e rezava pela nossa vitória. Durante a noite do cerco terrorista à pequenina povoação de Mucaba, houve na Metrópole muita gente que não dormiu. Tínhamos connosco a ansiedade e o apoio moral de todos os portugueses.

Depois do 25 de Abril de 1974, o mais pequeno gesto de resistência em Angola constituía pretexto para detenção imediata, à ordem dos novos senhores, que logo saltaram sobre aquela terra como lobos esfaimados. E o sofisma da «agressão ideológica» foi um látego de esclavagista nas mãos de Correia Jesuíno... Todos os homens e mulheres que tinham apoiado Salazar e Marcelo Caetano na sua decisão de defender o Ultramar ficaram imediatamente sob suspeita, quando não sob atenta vigilância. O general Costa Gomes teve o cuidado de substituir sem demora nem aviso prévio todos os comandos das Forcas Armadas de Portugal em Angola. Não se podia escrever uma palavra em defesa da acção portuguesa naquela terra, sem ser logo apodado de reaccionário e fascista. Os videirinhos de sempre trataram de alinhar na condenação de tudo quanto antes se tinha feito. A colaboração do autor deste livro para a Emissora Oficial foi suprimida por sugestão de antigos elementos da União Nacional. Quando o governador-geral Santos e Castro, tão vivamente entusiasmado com o progresso daquela portentosa terra, tomou o navio do regresso, o porto de Luanda foi fechado, para que ninguém se despedisse dele.

A independência de Angola, que primeiro se declarou dependente da vontade de todas as populações, rapidamente se tornou uma decisão ditatorial e irreversível do Governo de Lisboa. As notícias da Metrópole eram tão más que os melhores portugueses do que foi a maior província de Portugal compreenderam que nada podiam esperar desse lado. E o dr. Mário Soares declarava então, para quem o queria ouvir, que os nossos soldados abririam fogo contra os brancos do Ultramar que tentassem qualquer aventura.

Mas há outra realidade ainda mais importante: e é que os brancos de Angola foram torpemente levados de engano em engano, precisamente porque os vendilhões da Pátria sabiam que a sua reacção seria inevitável, se em tempo oportuno pudessem imaginar o que lhes viria a acontecer.

Todos os governantes de então declaravam que Angola era um caso especial. O general António de Spínola disse que a escolha do governador-geral de Angola era mais importante do que a nomeação do primeiro-ministro. E ainda hoje não somos capazes de compreender porque deu ouvidos aos emissários do MPLA, que vieram a Lisboa caluniar o general Silvino Silvério Marques, e substituiu esse homem íntegro, leal e sabedor por uma criatura tão reles e tão comprometida com os comunistas, como o almirante Rosa Coutinho.

Muito mais se poderia aqui dizer sobre a maneira covarde e nojenta como foram ludibriados os bons portugueses de Angola. Mas acrescentaremos apenas que o próprio general Costa Gomes afirmou bem alto estar convencido de que Angola continuaria portuguesa e várias vezes tranquilizou amigos íntimos, assegurando-lhes que os brancos seriam sempre consultados e tudo se faria para conservar aquela terra ligada à Metrópole da melhor forma possível.

Foi neste deslizar de engano em engano que os brancos de Angola, ainda com soldados portugueses e autoridades portuguesas naquela terra, chegaram até à situação de se verem inteiramente dependentes dos movimentos de libertação, que tinham ocupado todas as posições abandonadas pela nossa tropa no Norte da província e já em princípios de 1975 faziam em Luanda tudo quanto lhes apetecia, agredindo, incendiando e roubando, à vista da polícia e dos nossos soldados, alguns dos quais eu vi chorar de raiva, porque os não deixavam fazer-se respeitar.

Com o decorrer do tempo as nossas Forças Armadas, sobretudo o Exército, ficaram tão infiltradas por elementos comunistas, propositadamente enviados de Lisboa, que assistiam, sem um gesto, a toda a espécie de infâmias praticadas contra os brancos. E no que respeita à defesa das valiosíssimas estruturas da economia angolana, comportavam-se com a mesma indiferença.

Bem me recordo ainda de como, durante um dos dias em que os empregados da Petrangol foram impedidos de entrar na Refinaria do Alto da Mulemba por piquetes da UNTA (União Nacional dos Trabalhadores de Angola), que era - e é - uma organização do MPLA, os Unimogs da nossa tropa paravam junto das centenas de empregados acumulados à entrada do grande complexo industrial, e os nossos soldados riam da cena, inteiramente desinteressados do enorme prejuízo económico resultante da paralisação da unidade. Houve até alguns mais atrevidos (ou mais progressistas...) que foram buscar dois estrangeiros para fotografar aquele belo quadro da descolonização exemplar. Tudo uma tristeza!...

Foi neste clima humano que decidi publicar este livro no jornal A Província de Angola, pela única forma então possível, escolhendo para narrador e principal personagem um jovem angolano, que sinceramente desejasse, com dignidade e bom senso, a independência de Angola.

Não direi o seu nome, nem a sua raça, nem a sua religião.

Nada disto é da sua escolha. Usa o nome que outros lhe deram; tem a cor da pele com que nasceu; professa o culto de seus pais.

Citará o nome de outros homens, as suas ideias políticas e religiosas, a cor do seu rosto. Mas ele - o principal personagem deste livro - é apenas um homem, com o idealismo de todos os jovens, com raízes bem mergulhadas na terra de Angola, com as ambições e limitações da condição humana. Um homem com virtudes e pecados, com sonhos e desilusões, com os olhos ávidos da juventude. Um homem em que muitos homens se podem encontrar, se abstraírem de pequenas diferenças, olhando apenas o que é essencial no seu corpo e na sua alma de filhos de Deus sujeitos às tentações do diabo.

Um homem que pensa, que fala, que julga o presente, que interroga o futuro, que vive na convivência de outros homens.

O seu bilhete de identidade não é da sua iniciativa. Não foi convidado a nascer, não escolheu as linhas ou a cor do seu rosto, não influiu na posição social de seus pais. Ninguém o consultou sobre a terra da sua naturalidade. Na sua realidade mais profunda, é apenas um homem.

Mas esse jovem angolano existe e, felizmente, continua vivo.

Reproduzo, por vezes textualmente, afirmações que lhe ouvi. Creio ter interpretado as suas ideias e sentimentos, com respeito e fidelidade. Nem sequer fechei os olhos à sua arrepiante desgraça e à sua amarga desilusão que, por incrível que pareça, também aconteceu.

Não estou arrependido desta decisão, que me permitiu fixar, neste volume, o que foi uma forte e muito expressiva tendência da Juventude Angolana, na sequência da revolução de 25 de Abril de 1974. Na verdade, e sem falsa modéstia, parece-me de alguma utilidade para os futuros historiadores que se tenha anotado, ainda em cima dos acontecimentos, como foi que tantos angolanos, honestamente adeptos da independência de Angola, passaram da esperança ao desespero.

O meu ideal sempre foi outro.

Desde que me conheço, em livros, artigos, discursos e conferências sempre defendi a continuação de Portugal no Ultramar Português. Sonhei uma Pátria Grande, desde o Minho a Timor, onde coubessem todos os portugueses, em igualdade de direitos e deveres, com idênticas possibilidades de acesso ao trabalho e aos seus frutos, de participação na administração pública e suas responsabilidades, de completa integração na carne e na alma da Nação.

Queria que um preto de Luanda, um mestiço de Cabo Verde ou S. Tomé, um indiano de Goa, um fula da Guiné, um macarta e de Moçambique ou um montanhês de Timor, qualquer deles, sem distinção de raça, cor ou religião, apenas pelas suas virtudes pessoais e com a sua dignidade de português, pudesse ascender à Suprema Magistratura da Nação. Sonho grande demais?

Não há sonhos demasiadamente grandes, «se a alma não é pequena».

Esse ideal não morreu: - mataram-no! Mas eu nunca o reneguei.

Em Angola, mesmo durante os dias malditos, as semanas da traição e todo o tempo da vergonha, continuou a existir muita gente fiel ao belo sonho da Pátria multirracial e pluricontinental.

Em 4 de Maio de 1974, na minha primeira crónica do jornal A Província de Angola, publicada depois do 25 de Abril, escrevi o que a seguir transcrevo:

«Perante a viragem política efectuada pelas Forças Armadas de Portugal, eu, que sempre defendi os governantes agora depostos, poderia ceder à tentação de me remeter ao silêncio.

Era cómodo, mas indigno. Mantenho inalterado todo o meu respeito pela figura histórica de Salazar. Mantenho inalterada e inalterável a admiração que sempre manifestei ao sr. professor Marcelo Caetano, antes e depois de ele ser Presidente do Conselho de Ministros.

Considero que o sr. engenheiro Santos e Castro, que meras circunstâncias políticas afastaram do Governo Geral de Angola, fez aqui um bom trabalho e se revelou profundamente dedicado a esta terra. Quando, no último sábado (27 de Abril findo) fui ao Palácio dar-lhe um abraço de despedida, encontrei-o a arrumar, numa das malas da sua bagagem particular, as bandeiras de todos os distritos de Angola. E isso comoveu-me quase até às lágrimas.

Sempre vivi do meu trabalho e espero poder continuar a viver.

Saiu há cerca de dois anos, numa edição de cinquenta mil exemplares, um texto meu, subordinado ao título UMA PÁTRIA PARA TODOS.

Não por minha iniciativa mas com o meu consentimento, essa pequena brochura foi a única das minhas obras que saiu sem o meu nome, porque a outros pareceu que assim produzia melhor efeito. Julgo do meu dever, neste momento, assumir a responsabilidade do que então escrevi e representa o que penso sobre a Nação Portuguesa.»

Escrevi estas palavras, sem medo nem arrogância, em plena sinceridade, apenas porque a consciência assim mo pediu. E nunca pensei que tal atitude pudesse desencadear a catadupa de telefonemas e de telegramas de apoio e aplauso, alguns em voz embargada pela emoção, vindos de várias regiões de Angola.

Recordo este pormenor de ordem pessoal, porque de algum modo documenta a afirmação que acima faço e quero deixar aqui, bem clara e peremptória: mesmo durante os dias malditos, nunca deixou de haver em Angola, entre brancos, pretos e mestiços, muita gente fiel a Portugal!

Completamente abandonados pelos novos governantes da sua Pátria, vilmente caluniados pela imprensa, rádio e televisão de Lisboa e Porto, repentinamente privados do clarão de esperança que para eles representou o Governo do general Silvino Silvério Marques, obrigados ao silêncio pela ditadura anti portuguesa de Rosa Coutinho -, esses bons portugueses, que continuavam a querer uma Angola portuguesa, viveram numa angústia permanente, esperando um líder que lhes marcasse o rumo, orientasse os passos e aglutinasse as dispersas energias.

Assim o exprimem algumas das suas atitudes, desde as sensatas às desvairadas, como a reacção ao estrangulamento dum motorista de táxi no Muceque Rangel, a greve dos camionistas, a invasão do Palácio para interpelar o Almirante Vermelho, ou essa vaga de incontível entusiasmo que deles se apoderou em 7 de Setembro, perante as notícias que vinham de Lourenço Marques, através da Rádio Clube de Moçambique...

O desejado líder nunca apareceu. Os brancos foram desarmados. Uma a uma, caíram todas as ilusões. E, só então, os melhores portugueses de Angola, que sempre estiveram dispostos a segurar nas suas mãos a mais rica parcela da sua Pátria, só então é que aflitivamente se agarraram à derradeira esperança: uma independência real e verdadeira para todos, embora sob um governo da maioria negra.

Dessa última fase dá testemunho o pescador português Manuel da Costa Marques, quando, já durante o Governo de Transição, o ministro Johnny Eduardo vai ao porto pesqueiro recomendar a reactivação das pescas.

Eu fico por todos estes pescadores - respondeu-lhe Manuel da Costa Marques - porque os conheço a todos. Aqueles que por aqui aparecem, de noite, para roubar e com ameaças, são desconhecidos. (...) Todos nós queremos trabalhar. E é o que eu tenho feito desde que para aqui vim, em 1957. Olhe as minhas mãos, Excelência (e mostrava-Ihas, possantes e bem calejadas...).

E não estou arrependido. Tenho filhos mulatos. A minha casa é um paraíso com todas as cores e sinto-me feliz: Agora, humilhado é que eu não quero ser. Mandem-me embora mas não me humilhem!

- Ninguém o vai mandar embora! - interveio o ministro. E esta foi apenas uma das muitas promessas não cumpridas...

a) O dr. Silva Tavares.


http://www.macua.org/livros/diasdavergonha.html

http://petrinus.com.sapo.pt/vergonha.htm
 
Última edição:
Descolonização. O Cravar do Punhal !

Descolonização. O Cravar do Punhal !

Certamente será indigesto, levar com estes artigos e excertos em dose tão elevada, mas quando se abre a caixa de pandora devemos estar na disposição, de levar até ao fim, a demanda da busca da verdade.

Não nos podemos cingir à versão, tantas vezes repetida como verdadeira, que uns determinados vendilhões do templo contaram, porque, como é sabido, o taberneiro nunca diz mal do seu lote de vinho, mesmo que o mesmo esteja azedo ou baptizado.

E é isso, que temos visto enfaticamente, alguns tentarem mostrar, que após 25 de Abril de 1974 o processo de retirada das colónias e territórios ultramarinos, era inevitável, dada a má condução do antigo regime, contudo foi nessas datas, no pós 25 de Abril, que a conspiração grassou e proliferou.


O General Sem-Honra.

Autor: Lourenço Marques <fisga_40@sapo.pt>
Data: 04-06-2006


Enquanto Silvino Silvério Marques, não desejou "aviltar" com mera despromoção um camarada general; en*quanto, lhe deu a mão para não passar à Reserva, requisi*tando-o até para Comissão; enquanto o considerava e o tra*tava com lealdade, o Amigo protegido, general Joaquim António Franco Pinheiro, Comandante-Chefe das Forças Armadas de Angola, na sombra e de acordo com o M.F.A. de Angola, ia traindo o governador-geral.

Todos sabíamos que difícil seria o acentuar da tran*sição e com ela viria a violência. O problema de Angola pairava acima da "Revolução dos Cravos" e, como seria ló*gico, muito acima dos seus eventuais acertos e desastres. Mas, a praga política saída do 25.Abril. 1974, conseguiu de*negrir e mutilar o espírito revolucionário de 25, e o M. F.A. logo se sentiu com a capacidade de ver conspiração e maquinações diabólicas nos que, sentindo a necessidade de redemocratizar o País, pretendiam, sem sair fora da rota traçada pelo Programa do M.F.A., levar Portugal a entrar no estrito cumprimento do chamado "processo de descolonização" que, a partir da segunda metade do século XX se vinha acelerando na África e na Ásia, com o apoio da O.N.U. que, desde a sua primeira sessão, realizada em Ja*neiro e Fevereiro de 1946, em Londres, tinha proclamado o direito de os povos se autogovernarem. Um parêntisis pa*ra afirmarmos que não foi necessário a "Carta do Atlânti*co", em 1941, nem a O.N.U., para fazer nascer a ideia da autodeterminação aos "brancos" do Ultramar...

Na sequência do seu procedimento o gen. Francisco Pinheiro, enviou a Costa Gomes, em 17.Julho.74, um Rela*tório — "Secreto — Pessoal", acompanhado de um "cartão de visita", que define não só, a tibieza e a subserviência deste oficial, como uma traição vergonhosa ao então governador-geral. Nesse Relatório e apenso estava um documen*to, elaborado em reunião do gabinete das Forças Armadas em Angola, e que no seu ITEM 1, propunha: "que seja de*mitido o actual Governo Geral de Angola e todos os gover*nadores do distrito". No nº. 5, era dado um prazo de 72 horas, contadas desde a sua recepção e conhecimento e no nº. 6 dizia-se: "Ora não cumprido o prazo referido em 5., desta proposta, o M. F.A. de Angola assume implicitamente a obrigação da tomada das medidas adequadas, ou julgado como tal, face à gravidade do actual momento em Angola e à sua previsível evolução que veio a inaugurar um novo e triste, período na História de Angola!

Em 19.Julho.74., Costa Gomes, tão sinistro como pérfido, respondeu ao gen. Pinheiro. Original assinado e en*viado ao seu destinatário em MP pelo comandante de Bor*do da Missão FAM — Lx — LD, de 17/7/74. Conspirava-se, abertamente, nas costas do Governo Geral! Sem respeito por um alto dignitário da Nação e sem vergonha por parte dos comparsas desta nojenta conspiração.

Mas Costa Gomes e Almeida Santos dão as mãos e, no "fritar dos ovos", pretendem, tão-somente e em síntese, alcançar os seus desígnios, saltando por cima de todos os princípios e humilhando quem honesta e patrioticamente queria servir Angola. Assinam ambos um telegrama que fe*re a dignidade do Governo Geral e cilindram as suas prorrogativas, cerceando os seus direitos de governante(1). Telegrama "Secreto-Pessoal", próprio de quem chafurda nas vielas esconsas da traição. Silvino resolve mandar a Lisboa, o seu Secretário de Estado da Comunicação Social e Turis*mo, major Mariz Fernandes. Este contacta com Costa Go*mes e Almeida Santos. Pretende saber o alcance do conteú*do do telegrama. Costa Gomes denega o seu envio. Almei*da Santos, seráfico e melífluo, silencia. Mariz Fernandes em face da posição assumida por Costa Gomes, saca do te*legrama e mostra-o ostensivamente! Apanhado em flagrante na mentira e na traição Costa Gomes, perturbado replica: "Como é que anda na algibeira com um documento secre*to? (2)

E, assim, foi Silvino, o grande injustiçado, traído pe*lo tremor de terra político que os sinistros Costa Gomes e Almeida Santos, provocaram em Angola (3). Estes maquiavélicos comparsas do maior drama da nossa História, esqueceram que eles não representavam em Angola a ideia revolu*cionária que tinha sido assegurada ao povo angolano e que mais não eram que xenófobos duma mini-plateia manobrada por interesses que, certamente não eram os de Portugal e, muito menos, de Angola.

Em boa verdade Costa Gomes, enganou, vigarizou e traiu o Povo!

Como político-militar, bem poderemos parafrasear Cavalcanti: "Ê indivíduo que pensa uma coisa, diz outra e faz o contrário". Foi assim, que levou os ingénuos moçam*bicanos e angolanos... nas suas andanças, prédicas e actos... Até este general — só não enganou Salazar — não resistiu ao apetite pantagruélico do comunismo internacional.

Com homens desta estatura foi possível vencer o obs*táculo português e, até para a"balada", se estender ao do*mínio do Atlântico Sul...

Mas, já em 11 de Julho, outro facto concorrera para o agravamento da situação em Angola. Após o assassinato do taxista e no explodir de raivas e retaliações nos muceques, com a expulsão violenta dos comerciantes brancos, dos roubos, saques e incêndios dos seus estabelecimentos e casas, realizou-se uma reunião de "alto nível", não só com o Governo Geral, mas também com os altos comandos mi*litares, "os estrelados" e que assistiu o governador da Pro*víncia de Luanda, Vilanova. Este, que tinha já sido sanea*do do Comando da Defesa Civil, teve a coragem de propor o estabelecimento do "Estado de Emergência", que rece*beu a pronta adesão do Governo Geral.

Todavia, o general Pinheiro e outro, perguntaram porque razão se havia de proceder assim, quando no mo*mento crucial de 1961, a tal se não tinha recorrido. Vila*nova replicou, que o caso da situação vertente situava-se nas antípodas do de 1961, pois, nessa altura, todos os "brancos" sabiam o que queria o Governo de Portugal e, mais, tinham recebido uma "palavra de ordem": Para An*gola em força! No momento dos acontecimentos sangren*tos dos muceques, ninguém ainda sabia, em boa verdade, o que queria o Governo de Lisboa. Uma certeza se tinha: da demissão dos Comandos das Forças Armadas e da sua cedência ante as provocações e violências das "massas ululan*tes"!

Se o "terrorismo" nasceu pelo egoísmo do Governo de Portugal antes de 25 de Abril de 1974, tudo o que de*pois subverteu Angola deve-se, única e exclusivamente, às Forças Armadas de Portugal, em Angola. A falta da "pala*vra de ordem" contribuiu para a passividade dos civis, ante as arremetidas furiosas dos apelidados "nacionalistas ne*gros", nessa altura sem "poder ofensivo" perante o poderio do exército português em Angola.

SECRETO-PESSOAL

Luanda, 17 Jul 74 Exmo. Senhor General Chefe EMGFA

1. Quando assumi as funções de Comandante-Chefe, rodeei-me de 8 oficiais do MFA, para me auxiliarem, em acumulação de serviço, na integração dos problemas deste Comando no espírito do Movimento.

Igual procedimento se seguiu em todos os escalões dos três ra*mos, sendo notáveis os serviços que tais elementos têm prestado, dentro da maior lealdade e com integração completa na hierarquia militar.

2. A nomeação do actual Governador-Geral (de quem sou ami*go pessoal) veio, contra a minha expectativa, perturbar o esquema
montado, visto que, por razões várias que não tenho tempo para de*talhar, o MFA em Angola não crê que o Governador-Geral esteja in*-
tegrado no espírito do Movimento, atribuindo às suas atitudes muita responsabilidade no deplorável panorama político-militar de Angola.

3. A situação tem-se agravado progressivamente, a tensão MFA-GGA tem crescido e eu tenho tentado por todas as formas possíveis e leais dissuadir os elementos do MFA de tomarem atitudes graves. Esgotei a minha capacidade de argumentação e vejo-me na situação de, ou passar o problema a Vá. Exa., ou arriscar-me a atirar oficiais que estimo sinceramente, para atitudes tomadas clandestina*mente, ficando eu como inimigo, quando afinal tento apaziguar e salvar uma situação crítica.

4. Hoje, foi-me presente o documento que junto e representa a vontade inabalável, segundo me dizem, dos oficiais do MFA. Não vejo outra solução que não seja fazê-lo chegar às mãos de Vá. Exa., visto estar esgotada a minha capacidade de argumentação.

Sinto e foi-me transmitido que os oficiais não recuarão na ati*tude anunciada e, por isso mesmo, peço esclarecida e urgente inter*venção de Vá. Exa. num assunto que reputo extremamente grave.

5. Se Vá. Exa. não intervier, a minha posição será a de tentar controlar, muito lealmente, os acontecimentos. E isto (seja qual for o desenrolar do processo) só até que possa subsituir-me por quem tenha talento político para resolver problemas para os quais não es*-
tou preparado. Sinto-me extremamente fatigado, física e moralmen*te, e Vá. Exa. desculpará não me ter sido possível fazer melhor.

6. Finalmente, devo acrescentar que não transmiti o problema ao Governador-Geral, pela simples razão de que receio que ao fazê-lo se antecipe uma crise que — em minha opinião —só Vª.. Exa. pode evitar.

Com os meus melhores cumprimentos

O CCFAA

(assinatura)

17.Jul.74

( l ) Neste telegrama. Costa Gomes e Almeida Santos mandavam extinguir a SCCIA (Serviços de Centralizações e Coordenação de Informações de Angola) e a PI M (Polícia de Informações Militares) o que deixava as Forças Armadas Portuguesas na situação de cegas e surdas. Extintos todos os serviços de informação então existentes, tanto o governo geral como o Comando Chefe das Forças Armadas ficavam impedidos de fazer face à gravíssima situação que se atravessava nessa altura da eclosão dos motins. O general Silvino Silvério Mar*ques rejeitou essas medidas de extinção dos serviços, por considerá-las contra o espírito e a letra do Programa do M.F.A.

(2) O Major Mariz Fernandes contacta com o Presidente da República, General Spínola, e este convoca à sua presença Costa Gomes e Almeida San*tos. Depois de ter exposto a situação gravíssima dos tumultos de Luanda que os jornais de Lisboa procuravam atenuar, minorizando os factos, o Major Ma*riz Fernandes afirmou considerar a extinção dos serviços de informação impe*ditiva de fazer face à guerrilha urbana que então alastrava em Luanda. O Ge*neral Costa Gomes desmentiu-o e negou a existência e conteúdo do telegrama. Tendo o Major Mariz Fernandes apresentado o telegrama, como prova da mentira e traição do general, este titubeou embaraçado: "Como é que anda, na algibeira, com um telegrama secreto". Mariz Fernandes retorquiu-lhe: "Co*mo membro do Governo que sou, o telegrama, para mim, não é secreto. Além disso, como o próprio texto manda dar conhecimento das medidas nele preco*nizadas, entendo que, a partir deste momento, deixou de ser secreto, não é verdade? "

(3) O próprio Conselho do Governo não queria e se opôs, unanimemen*te, a que Silvino Silvério Marques, viesse a Lisboa !

Secreto

Documento elaborado em reunião do Gabinete do Movimento das For*ças Armadas de Angola, assistido por delegados do mesmo na R M A até ao nível sector.

Atendendo a que:

1. O Programa do Movimento das Forças Armadas preconiza "o lança*mento dos fundamentos de uma política ultramarina que conduza à paz", a par do saneamento das anteriores estruturas;

2. Não se verificou até à data em Angola, qualquer atitude ou medida a nível de Governo Geral, que dê cumprimento ao exposto em 1.;

3. Pelo contrário, as estruturas governamentais continuam a ser servi*das por indivíduos que se distinguiram no anterior regime;

4. O descontentamento anteriormente expresso é comungado não só pêlos signatários, mas também pela maioria da população, que o tem deixado bem claro em várias manifestações escritas que têm chegado ao conhecimento deste Gabinete;

5. Dentro do espírito do Programa do Movimento das Forças Arma*das, o processo de descolonização só pode ser levado a cabo com a participação directa dos elementos locais;

6. O Movimento das Forças Armadas se comprometeu a garantir a adopção das medidas preconizadas no seu Programa, compromisso que não pode ser assumido sem a sua comparticipação directa no processo Governamental, à semelhança do CE da Metrópole;

Propõe-se:

1. Que seja demitido o actual Governo Geral de Angola e todos os Governadores de Distrito;

2 Que seja nomeado um Governador Geral para Angola por S. Exa. o Ministro da Coordenação Inter-Territorial, com a aprovação do GMFA

deste Estado;

3. Que o Governador Geral nomeado, designe o elenco Governamental entre elementos locais e/ou militares, com prévio sancionamento do re*ferido Ministro e dó citado GMFA;

4. Que o Governo de Angola seja assistido por um órgão consultivo, tipo Conselho de Estado, composto em maioria por elementos do MFA em Angola;

5. Que a proposta enunciada em 1., tenha execução no prazo de 72 (setenta e duas) horas, contadas desde a sua recepção e conhecimento;

6. Que não cumprido o prazo referido em 5., desta proposta, o MFA em Angola assume implicitamente a obrigação da tomada das medidas adequadas, ou julgadas como tal, face à gravidade do actual momento em Angola e à sua previsível evolução.

Secreto

EMGFA, 19 de Julho de 1974

Acuso recepção da sua carta de 19 de Julho e em relação ao problema que expõe informo o seguinte:

1. A Comissão designada por mim e pelo Ministério da Coor*denação Inter-Territorial para se deslocar a Angola a fim de apreciar "in loco" a situação e colaborar com o Governo Geral e com o Co-mando-Chefe nas medidas a tomar para a solução da crise é portadora de instruções especiais que atendem ao assunto versado na sua carta.

2. É minha intenção satisfazer o seu pedido pessoal, porém, não considero que seja, nesta data, conveniente fazê-lo, pelo que tal terá de ser adiado para melhor oportunidade.

3. Está a ser objecto de estudo a solução que mais convém para o problema, solução essa que terá de ser adoptada nos Estados de Angola e Moçambique, a fim de evitar que se repitam incidentes como os que ocorreram em Luanda.

O original foi assinado e enviado ao seu destinatário em MP pelo Cndt. de Bordo da missão FAM Lx-Ld de 19-7-74.
http://jn2.sapo.pt/seccoes
 
"Portugal mobilizou para a guerra colonial mais de 800 mil jovens, teve 8 mil mortos, 112.205 feridos e doentes, 4 mil deficientes físicos e estima-se que cerca de 100 mil doentes de stress de guerra. "

Pergunta lá a esses que morreram e aos que ficaram estropiados e aos que ficaram afectados, se valeu as pena as sequelas por "defenderem" terras que não conheciam, que nunca tinham ouvido falar e para onde não queriam ir...
 
Penso como País devemos ter orgulho numa coisa. Fomos o primeiro a construir um Imperio espalhado pelos quatro cantos do Mundo, e o ultimo a cair.

E mesmo na queda somos singulares, ao fim de 13 anos de luta em três frentes não saimos derrotadps do campo de batalha, mas sim por uma traição na rectaguarda, ou seja no T. Paço.

Estive na Guine durante 2 anos e meio, e fui ferido em combate duas vezes. Não falo decor, sei o vi o que senti, portanto estou a vontade para falar.

O abandono de Goa evitou uma vitória militar brilhante...
 
Vieira bem viu que o império português era uma miséria que não podia antecipar o seu 5º império...

Portugal teve um império medíocremente organizado.

O autismo chegou ao ponto de se pretender que o império já não era império: que era um Portugal total...

Erro grave que se pagou pesadamente.
 
"Portugal mobilizou para a guerra colonial mais de 800 mil jovens, teve 8 mil mortos, 112.205 feridos e doentes, 4 mil deficientes físicos e estima-se que cerca de 100 mil doentes de stress de guerra. "

Pergunta lá a esses que morreram e aos que ficaram estropiados e aos que ficaram afectados, se valeu as pena as sequelas por "defenderem" terras que não conheciam, que nunca tinham ouvido falar e para onde não queriam ir...


Seguindo a tua logica as forças de segurança devem ficar sempre em casa para não se magoarem e deixar os criminosos fazerem o que querem...

Infelizmente a mobilização dos militares para a guerra (contra o terrorismo) foi um mal absolutamente necessario.
 
"Portugal mobilizou para a guerra colonial mais de 800 mil jovens, teve 8 mil mortos, 112.205 feridos e doentes, 4 mil deficientes físicos e estima-se que cerca de 100 mil doentes de stress de guerra. "

Pergunta lá a esses que morreram e aos que ficaram estropiados e aos que ficaram afectados, se valeu as pena as sequelas por "defenderem" terras que não conheciam, que nunca tinham ouvido falar e para onde não queriam ir...


:(

Não vos percebo, a sério preocupa-me.

Com uma visão tão redutora, até será caso de pedir responsabilidades a D. Afonso Henriques, perguntar-lhe porque razão se meteu na aventura de expandir o condado portucalense em territórios desconhecidos.

Certamente também muitos dos que o acompanharam nunca haviam ouvido falar nos reinos de Além Tejo e Algarve, e certamente muitos também saíram das suas terras e lares para locais onde não queriam ir, e sim também muitos ficaram estropiados.

Contudo hoje falais num pais de nome Portugal, porque precisamente muitos não tiveram a visão redutora que agora vós demonstrais.
 
:(

Não vos percebo, a sério preocupa-me.

Com uma visão tão redutora, até será caso de pedir responsabilidades a D. Afonso Henriques, perguntar-lhe porque razão se meteu na aventura de expandir o condado portucalense em territórios desconhecidos.

Certamente também muitos dos que o acompanharam nunca haviam ouvido falar nos reinos de Além Tejo e Algarve, e certamente muitos também saíram das suas terras e lares para locais onde não queriam ir, e sim também muitos ficaram estropiados.

Contudo hoje falais num pais de nome Portugal, porque precisamente muitos não tiveram a visão redutora que agora vós demonstrais.
Exactamente!
 
O abandono de Goa evitou uma vitória militar brilhante...

Lê, qual era a guarnição de Goa e os meios disponíveis.
Lê, quais eram as forças á disposição da União Indiana.

Depois talvez possamos falar em abandono, certamente querias um qualquer suicídio ou sacrifício - Salazar também assim o desejou, Glória ou Morte -, basta ver como a guarnição foi tratada pelo governo Português quando chegou a Portugal após meses de cativeiro.

Mas se procurares um pouco mais, talvez encontres um outro denominador comum, URSS.

Os ingleses deixaram a Índia em 1947, os franceses deixaram Pondicherry em 1954. O governo português, por seu Primeiro Ministro Salazar, recusou-se a negociar com a Índia. Em 1961 uma tropa indiana de 40.000 soldados conquistou Goa, encontrando pouca resistência.


O Conselho de Segurança da ONU considerou uma resolução que condenava a invasão, vetada pela União soviética.


A maioria das nações reconheceram a acção da Índia mas Portugal apenas a reconheceu depois da Revolução dos Cravos em 1974.

A parte urbana de Goa chama-se actualmente Panjim (ou Panaji). Apenas a parte histórica da cidade, que é pouco habitada, conserva o nome antigo.
 
"até será caso de pedir responsabilidades a D. Afonso Henriques, perguntar-lhe porque razão se meteu na aventura de expandir o condado portucalense em territórios desconhecidos."

Agora que falas nisso, estamos a falar de um país cuja origem é um pecado mortal: honrar pai e mãe. O dito cujo o que fez foi rdesonrar a figura materna, Claro que o que torto nasce nunca mais se endireita...
 
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