O sindicato xiíta
Há muito tempo que os sindicatos deixaram de importunar as empresas privadas com greves sucessivas.
André Macedo
Além de ser pouco eficaz, a manobra revelava-se tão perigosa como fazer um voo rasante: as empresas paralisadas ficavam em situação ainda mais difícil e eram obrigadas a fechar as portas de vez. Como o emprego é cada vez mais um bem escasso, esta forma de protesto perdeu relevância. Hoje está confinada a dois oásis: a função pública e as empresas que ainda funcionam debaixo do tolerante guarda-chuva do Estado. Compreende-se: para estes trabalhadores privilegiados – privilegiados por terem emprego para a vida, sem riscos e sujeitos a fraca concorrência – não há dias de chuva. O posto de trabalho está garantido. O salário chega sempre no dia combinado, certinho e contadinho. Os direitos são sempre mais do que os deveres. E a vida continua, na sua cómoda irresponsabilidade.
Os pilotos da TAP e o sindicato xiíta que os representa são assim: irresponsáveis. Não é exagero, é a verdade. Vejamos: o que querem os pilotos. Simples: trabalhar menos, trabalhar até aos 60 anos. Faz sentido? Há razões de segurança que justifiquem este privilégio que outras classes estão a perder e que outras mais perderão? A resposta é simples: não. Comecemos pela segurança. Dizem os estudos que não há qualquer relação entre a idade dos pilotos e a segurança aérea. A única relação causa-efeito provada é outra: o que conta é a saúde e a experiência de voo. Se estiverem saudáveis – e os exames médicos semestrais verificam-no escrupulosamente –, os pilotos mais velhos oferecem mais garantias de êxito do que os mais novos, nunca o contrário. Tanto é assim que a tendência mundial tem sido a de subir a idade da reforma para os 65 anos. O Canadá, por exemplo, já o permite há muito tempo.
Nos Estados Unidos o caso é diferente: o limite é igual ao que existia em Portugal, mas os pilotos, depois de anos de divisões e lutas internas, mudaram de barricada e juntaram- -se para pressionar o governo a mudar a lei. Isso mesmo, a luta na América tem como objectivo permitir o aumento da idade da reforma. Fala-se até em discriminação pela idade – como em tempos se falou em discriminação pela cor ou pelo sexo –, o que oferece à luta um tom de esquerda que ajudou a convencer os sindicalistas mais empedernidos.
Os 670 pilotos da TAP não pensam, no entanto, assim. Representados por um sindicato em chamas, querem continuar a viver numa bolha luxuosa. Querem salários de futebolistas e estatuto de astronautas. Deviam saber: não são uma coisa nem outra. São pilotos de uma empresa que vai ser privatizada em breve – esperemos que depressa. Não há nada que algumas colheradas de mercado e concorrência não resolvam. A vida vai ser dura.