Mas, o que é a pontualidade?
Um hábito, uma forma habitual de viver as referências temporais do quotidiano e, portanto, uma forma de expressão própria para gerir prioridades na relação consigo próprio e com as outras pessoas. Nesta perspectiva, é mais uma dimensão da personalidade, integradora da imagem que cada pessoa transmite para fora de si e com a qual comunica.
No seu conjunto, a pontualidade de todos os indivíduos compõe a imagem cultural da sociedade e o modo como é feita a gestão do tempo e a importância dada aos compromissos assumidos leva a distinguir dois grupos culturalmente opostos. Assim são denominadas culturas monocrónicas, aquelas em que existe uma obsessão pelo relógio e culturas policrónicas, aquelas que são menos rigorosas com a pontualidade e os prazos. Nestas últimas, como a portuguesa, não é mal visto falhar os compromissos, sendo frequente a sobreposição de reuniões e preenchimento simultâneo das agendas, aparentando, por vezes, uma eficácia e produtividade que, na realidade, não se verificam.
Não é difícil compreender a enorme relevância que tem a realidade subjacente a esta imagem no contexto dos diversos países, se se pretender crescer em produtividade, se se tiver como objectivo tornar-se mais competitivo em comparação com outras sociedades.
Tal como se verifica com outros povos latinos do Sul da Europa, o gestor português possui uma grande capacidade para gerir a improvisação o que, muitas vezes, o leva a alterar as prioridades dos objectivos definidos, dos prazos determinados e das responsabilidades assumidas, em face da resolução de um problema urgente. É a esta tendência de levar o improviso ao extremo que, em Portugal, se costuma dar o peculiar nome de “desenrascanço”1.
Se, numa situação concreta e definida, este talento é de uma grande riqueza e potencial competitivo, com facilidade conduz os indivíduos a desleixar a programação e a perder o foco sobre aquilo que é verdadeiramente prioritário, numa perspectiva de médio prazo, e leva os grupos em que se trabalha
a tolerarem uma flutuação no controlo dos objectivos definidos, dos prazos determinados e das responsabilidades assumidas anteriormente.
AESE Estudos e Monografias
Pontualidade em Portugal