dificuldades de penetração no Brasil. É um problema económico ou dificuldade de comunicação?
Há um problema estratégico sobre a língua portuguesa no mundo que temos de discutir. Temos de perder o sentido patrimonialista da língua. Se o português tem futuro esse futuro está no modo maioritário como ela é falada. E esse é o modo brasileiro de falar português. É preciso que se comece a dizer isto de uma forma clara.
Temos hoje quatro grandes línguas internacionais de afirmação cultural: o inglês, o francês, o espanhol e o português. O resto são línguas que podem ter uma grande dimensão de falantes ou um grande peso económico (como sejam o chinês, o russo ou o alemão), mas não têm uma grande dimensão de natureza cultural. Devemos olhar para o português como elemento de natureza estratégica no plano internacional. Brasil e Portugal têm de o encarar como elemento constitutivo da sua afirmação de poder no mundo.
Que se passa com a aplicação do acordo ortográfico no Brasil?
Vai entrar em vigor talvez mais rapidamente do que em Portugal. O debate é muito activo no Brasil. Por maior que seja a vontade política de caminharmos em conjunto na grafia das palavras, o que não tem a ver com a maneira de falar que será sempre diferente, o acordo tem impactos de natureza editorial muito significativos, que não podem ser descurados.
Em Portugal as alterações de grafia serão maiores do que no Brasil. É preciso um tempo de adaptação, que varia de país para país. É muito mais fácil em São Tomé porque as obras aí editadas são muito limitadas…
Que escritores e músicos portugueses têm visibilidade no Brasil?
A Mariza e a Teresa Salgueiro são as cantoras mais conhecidas. Apesar de ter apresentado música portuguesa em programas de rádio brasileiros ainda não consegui impor Sérgio Godinho, Jorge Palma, Fausto… Confesso o meu insucesso até agora. Mas fico muito contente a ver outros avançar. Há bastantes escritores portugueses nos escaparates brasileiros: Saramago, Inês Pedrosa, Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto, Miguel Sousa Tavares, Domingos Amaral, José Rodrigues dos Santos… Numa livraria de Porto Alegre contei 38 escritores portugueses nas prateleiras, o que é muito bom. Há um espaço de crescimento e uma grande apetência pela escrita portuguesa. Na música é mais desigual. A grande qualidade da música brasileira não ajuda a abrir espaço à música portuguesa…