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China enviou diplomata à AR antes da chegada do Dalai Lama
12.09.2007 - 08h56 Leonete Botelho
Quando hoje, no primeiro dia desta sua visita a Portugal, o Dalai Lama entrar na Assembleia da República (AR), sentirá que alguma coisa mudou nos últimos seis anos. O Governo voltou a ser socialista e voltou a não aceitar o pedido de audiência que o líder espiritual budista e primeiro defensor da autonomia do Tibete dirigiu ao primeiro-ministro. Mas, desta vez, as portas de São Bento abrem-se duas vezes ao Prémio Nobel da Paz: hoje estará na comissão parlamentar dos Negócios Estrangeiros e amanhã será recebido em audiência privada pelo presidente da AR, Jaime Gama.
As "razões conhecidas" alegadas pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, para o Governo não receber o Dalai Lama são, ainda assim, as de sempre: as boas relações diplomáticas com a China. Desta vez, como há seis anos, não terão faltado pressões diplomáticas por parte da potência ocupante do Tibete. Até porque, nestes dias, a secretária de Estado dos Transportes, Ana Paula Vitorino, esteve na China, onde promoveu os portos nacionais como porta de entrada na Europa.
Ontem mesmo, ao que o PÚBLICO apurou, um conselheiro da Embaixada da China foi recebido no gabinete de Jaime Gama - mas não pelo próprio -, numa audiência pedida pelos chineses para antecipar a chegada de Kenzin Gyatso (o nome de nascença do Dalai Lama e aquele que os apoiantes de Pequim utilizam).
Audiências a líder religioso
Há seis anos, o ministro dos Negócios Estrangeiros era Jaime Gama e como tal também não recebeu o ilustre visitante. Mas não se opôs a que este fosse recebido no Parlamento. Eduardo Âmbar, chefe de gabinete de Gama, recorda os factos: "Contactado pelo então presidente da AR, Almeida Santos, o então ministro transmitiu-lhe que não via motivos para que o Dalai Lama não fosse aqui recebido." Mas não foi. Agora será.
"Houve dois pedidos de audiências distintos, um à comissão de Negócios Estrangeiros e outro ao presidente da AR, e ambos foram aprovados por unanimidade na conferência de líderes", explica Eduardo Âmbar ao PÚBLICO. E é aqui que reside a grande diferença em relação a 2001: na altura, o CDS propôs uma sessão solene com o Dalai Lama, dando-lhe tratamento equivalente a um Chefe de Estado, o que foi "chumbado" por consenso na conferência de líderes.
Ainda se nota a preocupação em frisar que "não se trata de uma visita oficial ao Parlamento", mas a concessão de "duas audiências distintas em dias diferentes" a uma "personalidade religiosa e cultural que para mais é Prémio Nobel da Paz". "Esta visita nada tem a ver com o excelente relacionamento entre Portugal e a China", diz o chefe de gabinete de Gama.
CDS e BE criticam Governo
Nos partidos, as posições dividem-se. CDS e BE criticam abertamente a recusa do Governo em recebê-lo. O PSD, pela voz do presidente da comissão dos Negócios Estrangeiros, recusa-se a comentar, afirmando desconhecer se foi pedida qualquer audiência ao Governo. O PCP reserva para hoje uma tomada de posição, e recusa mesmo confirmar se o partido se fará ou não representar na comissão parlamentar que hoje o recebe.
No PS, só a eurodeputada Ana Gomes fez questão de tornar pública a sua contestação ao Executivo. Vera Jardim, um dos deputados socialistas que em 2001 visitaram o Dalai Lama no hotel (juntamente com parlamentares de todos os partidos, excepto o PCP), não esconde a admiração pelo líder espiritual do budismo, nem as cautelas com que este será hoje recebido: "É de evitar entrar nas questões políticas." Mas também deixa claro ser "profundamente crítico" quanto à questão tibetana e que, caso o Dalai Lama peça um comentário à situação no território, dará a sua opinião "com toda a liberdade de espírito".
José Luís Arnaut, ministro pelo PSD no anterior governo, é mais reservado: "O Dalai Lama vai ser recebido [na comissão parlamentar] enquanto líder espiritual, como já foram outros, ortodoxos, católicos ou Aga Khan, no espírito da liberdade religiosa que existe em Portugal", afirma ao PÚBLICO. "Qualquer outro tipo de questão de natureza política não será abordada nesta audiência", garante.
Uma posição contrária à do BE. Helena Pinto deixa claro o interesse do Bloco quanto às "restrições concretas em que vive o povo do Tibete, as violações dos direitos humanos e as condições de exercício de liberdade religiosa". E critica a diplomacia portuguesa por "não ter encontrado uma solução" para receber oficialmente esta personalidade.
Hélder Amaral, do CDS, afina pelo mesmo diapasão: "Se houvesse inteligência e sensibilidade, o Executivo teria encontrado uma forma de receber o Dalai Lama sem pôr em causa os interesses diplomáticos do país. Assim, perdeu a oportunidade de não patrocinar a hipocrisia que se vive no mundo em termos de liberdade religiosa e direitos humanos."
in publico.pt
Será que é assim tão grave para as relações diplomáticas receber uma pessoa de paz?
