Pedro Mantorras é cáustico para com Bernardo Vasconcelos, médico que acusa de incompetente e de ter faltado à verdade em todo o processo que por pouco acabava precocemente com a sua carreira. O avançado diz isso mesmo no “Livro Directo, da autoria de José Gabriel Quaresma, jornalista da TVI, que hoje mesmo será apresentado na FNAC do Fórum Almada.
“Mas naquela altura eu estava aleijado, eu era quase um deficiente, era um coxo, estava com o meu joelho como o do Eusébio, tudo num espaço de pouco mais de um mês. O médico do Benfica falhou, não foi competente. Enganou todo o mundo, incluindo os dirigentes, omitindo sempre o que na realidade estava a fazer. E devia saber o que estava a fazer porque é suposto que os médicos percebam de Medicina. Naquela altura eu deveria parar, em definitivo, para me tratar. Mas o doutor dizia que era o menisco, que faltava músculo, que se resolvia. Ele nunca contou a verdade.”
Ajuda de Júlio César
O internacional angolano conta também um episódio passado na Madeira e que é revelador do sofrimento e do calvário que viveu. “No dia seguinte, sábado, o joelho estava seco, permitindo que eu jogasse. O Benfica empatou a um golo com o Marítimo e fui eu que marquei o nosso golo. No final, não conseguia andar, tais eram as dores que sentia. Pedi ajuda e apoio para andar ao meu amigo e companheiro de quarto, Júlio César.”
“- Júlio, por favor, ajuda-me, não consigo andar”, foram as palavras de Mantorras, em pior estado ainda quando chegou ao Aeroporto da Portela.
“As dores eram tão intensas e tão insuportáveis que quando a equipa chegou a Lisboa, madrugada dentro, eu fiz todo o percurso desde o interior do aeroporto até ao exterior amparado em dois colegas, um deles penso que era o Miguel. Não conseguia andar, não aguentava dobrar o joelho, não conseguia sequer calçar os ténis. Pensei, ‘meu Deus, acabou a minha carreira, estou acabado!’”
Eusébio viu infiltração
Mais à frente, num livro cheio de tudo em contraste com uma infância e uma adolescência “cheias de nada”, o avançado do Benfica recorda como Luís Filipe Vieira ficou a par do que se estava a passar.
“Luís Filipe estava a par da minha situação clínica, era informado pelo médico do Benfica, mas não lhe chegava a informação toda. Desconhecia que eu estava a ser transformado num quase deficiente, tantas foram as infiltrações em tão pouco espaço de tempo. Luís Filipe só soube verdadeiramente o que se estava a passar comigo no dia em que Eusébio, a caminho da sauna, dentro dos balneários, reparou que o doutor Bernardo Vasconcelos estava a infiltrar-me.
O presidente usou imediatamente de mão firme, sem contemplações: deu ordem para que o doutor Bernardo Vasconcelos nunca mais me tratasse do joelho, estava proibido de me tocar.”
Mantorras não esquece o jogo com o Alverca, o derradeiro antes de entrar na sala de operações e uma vez mais é crítico para com Bernardo Vasconcelos. “Voltei, como habitualmente, a queixar-me das dores que sentia e o doutor Bernardo Vasconcelos disse-me para jogar e no final veríamos o que fazer. Joguei com o joelho todo rebentado, cheio de dores.”
Via-sacra
Após a operação, Mantorras começou a ver o mundo mais cor-de-rosa. Mas por pouco tempo. “A perna estava diferente da outra, não a sentia ainda totalmente recuperada, estava ainda atrofiada, eu não comandava a minha perna, não sabia se ela tinha força, se não tinha.”
A esse propósito, o jogador africano releva as palavras de António Gaspar, fisioterapeuta cujas qualidades profissionais e humanas são enaltecidas no livro. “- Olha, Mantorras, esse teu joelho não está bom.” O avançado recorda, no entanto, quais as competências do fisioterapeuta. “Mas o António Gaspar não podia questionar as ordens do chefe do Departamento Médico. Muito menos decidir.”
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