"Foi como uma bomba. Só deu tempo para fugir. Se um gajo caísse, já não saía dali", elucida José Costa. "Só vi lume, fumo e pernas para correr. Mais nada", completa o colega José Travanca, ainda a refazer os nervos descompostos pelo medo. Estes e outros cerca de 40 trabalhadores não ganharam para o susto quando, ontem à tarde, um incêndio deflagrou na unidade de tecelagem da fábrica de têxteis JMA (José Machado Almeida), na freguesia de S. Martinho de Campo, Santo Tirso. Oito trabalhadores ficaram feridos e um outro está dado como desaparecido. Na área ardida trabalhavam 120 funcionários, que serão, agora, redistribuídos por outros sectores da empresa.
As chamas apanharam todos de surpresa, quando entravam ao serviço, cerca das 14 horas. "Quando o alarme soou, pensei que fosse uma simulação", refere, incrédulo, David Martins. "Era tão assustador que só pensei em fugir. Não esperei que me dessem ordens. Foi um inferno", relata o funcionário. Não houve tempo, sequer, para socorrer parceiros de trabalho. "Não sei se os meus colegas fugiram todos".
A dúvida deste funcionário permanecerá por algum tempo - um dos trabalhadores está desaparecido. O incêndio provocou ainda oito feridos, dois dos quais em estado grave. Um dos feridos graves foi transportado por um helicóptero do INEM para o Hospital de S. João, no Porto, com queimaduras de primeiro e segundo graus no rosto e nos braços. Trata-se de um homem de 35 anos, de Famalicão. O segundo acidentado, cujo quadro clínico foi considerado grave, foi transportado para o Hospital da Prelada, no Porto. Os restantes feridos apresentavam "queimaduras ligeiras e alguns estados de pânico" - quatro foram levados para o Hospital de Santo Tirso e dois seguiram para o Hospital de Guimarães.
Apesar de o comandante dos Bombeiros Voluntários de Vila das Aves, Pedro Magalhães, não ter confirmado a existência de um desaparecido, por haver "informações contraditórias", a suspeita era já quase certa ao final do dia. De acordo com fontes ouvidas pelo JN, o trabalhador em causa permaneceu incontactável durante toda a tarde e, enquanto alguns funcionários fugiram nos carros quando as chamas deflagraram, a viatura do desaparecido permaneceu estacionada. Este "é o único drama pessoal que estamos a viver aqui", lamentou o presidente da Câmara, Castro Fernandes, que adiantou, também, que o homem é irmão do ferido grave que está no Hospital da Prelada e que teria frequentado a escola com um dos administradores da fábrica.
"Houve um milagre"
As causas do incidente são ainda desconhecidas, mas fontes ouvidas pelo JN apontavam que tenha sido originado por um curto-circuito no âmbito de trabalhos de soldadura que estavam a ser levados a cabo por uma empresa de instalação de ar condicionado.
Alfredo Almeida, administrador da JMA, confirmou que, à altura em que começou o incêndio, decorriam "trabalhos de manutenção nos telhados", mas, ressalvou, seriam intervenções "normais". A unidade de tecelagem, com cerca de 5000 metros quadrados, ficou totalmente destruída, tendo o tecto abatido. "Houve aqui um milagre. Podiam ter morrido 15 ou 20 pessoas", desabafou o presidente da Câmara".
Quando foi criada
A fábrica José Machado Almeida (JMA) foi fundada há 48 anos, dedicando-se à indústria têxtil. O grupo dá trabalho a cerca de mil pessoas. Na unidade de S. Martinho de Campo, em Santo Tirso, laboram 500 funcionários, distribuídos por seis pavilhões.
O que produz
A fábrica confecciona atoalhados e outros produtos de têxtil-lar.
Além de tecelagem, labora nas áreas de fiação, confecção e acabamentos.
Para onde exporta
Exporta, sobretudo, para a França, Espanha, Europa e Inglaterra. Os países nórdicos e os Estados Unidos da América também são bons clientes. 90% do negócio dizem respeito a exportações.
Qual a área afectada A área afectada - pavilhão da tecelagem - conta com 120 trabalhadores. Vão ser reintegrados noutros sectores da empresa.
Fala numa pessoa desaparecida, mas hoje de manhã nas noticias diziam que tinha sido encontrada já sem vida.