Estamos a levar isto na brincadeira, mas a má educação advém dos maus exemplos do ministério. É preciso compreender um pouco do que está por detrás de tudo isto.
A falta de autoridade dos professores nas escolas, a desautorização dos mesmos pelo ministério que denegriu a sua imagem perante a opinião pública (chamando-os de incompetentes, preguiçosos que trabalham pouco e têm muitas férias, principais responsáveis pelos maus resultados escolares e bem pagos) aliado a esta campanha vergonhosa de ridicularização, chantagem e diminuição estatutária da importância da função docente já está a descambar numa excessiva falta de respeito nas escolas. Há já alguns anos que isto tem-se vindo a passar e o resultado está à vista: a delinquência social a aumentar.
“A boa educação da juventude é a prenda mais segura da felicidade de um estado”1. Mas o nosso estado não sabe (ou não quer saber). Se calhar é por isso que os nossos políticos são tão mal-formados.
A bandalheira no nosso parque escolar público está a generalizar-se. Os alunos vão para as escolas para receber tudo quanto existir de subsídios, e lhe serem dados diplomas de frequência. No entremeio, e só para estorvar, estão lá os professores: um impecilho tanto para grande parte dos pais como para o ministério da educação, pois ambos desejam apenas e só a passagem das crianças. Infelizmente, uma enorme parte de alunos que querem aprender são obrigados a participar num sistema que só os penaliza.
Muitas vezes o problema também reside na falta de alternativas para os alunos que não se revêem no currículo estrutural normal. A falta de verdadeiras alternativas profissionais e profissionalizantes é que faz com que muitos se desinteressem da escola por não verem nela um futuro cativante para si. Mas sai caro equipar escolas. O dinheiro não chega para “todos”. É mais barato distribuir Magalhães. E, infelizmente, grande parte dos pais ainda não se apercebeu do presente envenenado que este governo está a oferecer ao futuro dos seus filhos.
É uma escola formatada pelo ministério para a apresentação de números, apenas. É um autêntico ensino a saldo. Distribuem-se muitos canudos (inúteis aos alunos) e paga-se pouco (ao cada vez menor número de docentes).
Mas o que é que isto tudo interessa se, sendo a escola pública tão boa e dotada de meios e regras de excelência, os nossos políticos optam sempre por colocar os seus filhos a estudar no privado!
“A educação exige os maiores cuidados, pois influi sobre toda a vida”1. Mas, país que assim não pense, é um país condenado.
O mais triste é que o ministério da educação trouxe o exemplo das escolas da Finlândia como modelo a seguir e depois “esqueceu-se” de ver como funcionava: como as escolas estavam dotadas de equipamento; como os professores estavam motivados pelo seu estatuto, sistema de avaliação, participação activa na educação e pela estabilidade do corpo docente perto da área de residência, além da autoridade que primava pelo respeito como base de toda a educação escolar e social; como a criação de cursos, programas e organização curricular vinha das bases, ou seja das escolas; onde a participação activa e construtiva dos encarregados de educação era uma realidade presente.
Mas não. Atribuem-se Magalhães a escolas onde nem aquecimento nem materiais didácticos existem, com vidros partidos e tetos a deixar entrar água, e os problemas estão resolvidos. Se vierem os tais estudos da OCDE, então é só contar a percentagem de computadores por aluno e somos por certo os primeiros da europa. E se tal não acontecer, a culpa é dos professores; esses malandros que não fazem nada; lá por terem turmas grandes onde também estão crianças com aos mais diferentes problemas de aprendizagem (com trissomia 21, autismo, paralisia cerebral, invisuais, surdos, mudos,..), terem de preparar e planificar aulas, fazerem fichas e testes e corrigi-los, elaborarem planos e relatórios, terem reuniões por vezes para lá das 10h da noite e irem para casa preparar o dia seguinte, sem tempo para os seus, julgam eles que trabalham muito. O que percebem eles do assunto se nem tempo têm para dar educação aos próprios filhos em casa? Julgam por educar por vezes 30 alunos em cada sala lhes dá o direito de se assumirem como bons educadores e um exemplo a seguir?
Além do mais, sabemos bem que quem vai para professor tem de ter um espírito de missão: os direitos à habitação e a constituir família não lhes estarão particularmente reservados. Quando ingressam nesta profissão, já sabem que serão os ciganos dos tempos modernos, sempre com a casa às costas (pois não vale a pena comprar uma que vai ficar abandonada); E para quê constituir família? Marido e mulher estarão separados quase todo o ano, e os filhos só verão o pai ou a mãe pontualmente. E como lhes explicarão essa situação? “Sabem, a mãe não pode estar convosco porque está a fazer algo de muito importante: a ensinar os meninos a aprender coisas novas.” – “Mas eu quero a mamã!” – “A mamã há-de vir… um dia para ser avó dos vossos filhinhos, se lhe derem a reforma.”
Mas isto é só uma piada, pois aos professores não lhes é permitido ter filhos. É que a consciência faz com que muitos evitem que os filhos que vierem a ter, tenham de passar por estas provações de que não são culpados. Além de que viver com uma criança dentro de um quarto é uma prisão, uma agrura muito limitadora e difícil de suportar; Cortar o mal pela raiz é nem pensar em casar, pois está provado que esta é a classe com maior índice de divórcios; Quanto a amigos, não será bom apegarem-se muito a eles, pois logo logo irão para outra escola, noutra terra condenados a estar longe de tudo e de todos aqueles que vos amam. Normalmente, fazia-se isto a pessoas perigosas que tivessem cometido um crime grave, punindo-as com o desterro para longe, inibindo-as da liberdade e tendo por castigo o isolamento face aos seus familiares e amigos. Agora faz-se isso aos professores.
Os criminosos, esses mandam-se para casa para junto dos seus com pulseira electrónica, outros soltam-se para não darem despesa ao estado e muitos ainda nem chegam a ser condenados porque a nossa justiça foi feita por e para eles.
Triste fado daqueles que com tantos sacrifícios perdidos entre suor e lágrimas se vêm caluniados pelo seu patrão que é o Ministério da Deseducação. Por isso, com naturalidade, os estudos que comprovam que este é o grupo que mais recorre ao apoio psiquiátrico, não surpreendem. Tudo coisas maravilhosas que requerem um verdadeiro espírito de missão em prol da melhoria da nossa educação.
Como tal, caros concidadãos, o governo tapa todos estes buracos com Magalhães e a vida continua… boa para os Chico-espertos.
Desculpem o desabafo, mas já farta de ouvir tanta mixórdia vindo deste lugar a que chamam país.
1(Oxenstiern)
2(Séneca)