Pina Moura ao Expresso
“A TVI tem finalmente um cardeal laico, republicano e socialista”
Christiana Martins e Nuno Saraiva
Na sua última entrevista política, o ex-ministro das Finanças e Economia de António Guterres não deixa margens para dúvidas: Joaquim Pina Moura defende um projecto ibérico para Portugal e reconhece que continuará a fazer política, agora na comunicação social.
Porque é que aceitou o convite da PRISA?
A PRISA é um grande grupo independente e multinacional de comunicação, entretenimento, divulgação e expansão cultural no espaço da Península Ibérica onde Portugal se insere, mas também na América Latina, onde o Brasil se insere. E, portanto, esta dimensão multinacional, de base ibérica, com projecção de qualidade independente nos domínios da informação, comunicação, lazer e entretenimento por parte de um grupo empresarial como a PRISA é algo que me faz sentido.
Independente é uma força de expressão porque a PRISA é assumidamente um grupo próximo do PSOE, o Partido Socialista espanhol.
Não é uma força de expressão. A PRISA é um grande grupo cotado e que cumpre as regras do mercado. Agora, tem a sua orientação editorial…
E ideológica.
Sim, tal como os outros grupos de comunicação espanhóis têm. Nesse aspecto, e não é que conheça muito bem e em detalhe para poder comparar o panorama entre Portugal e Espanha, devo reconhecer e sublinhar que mais vale as orientações editoriais se assumirem tal como são. E, insisto, do que conheço, a PRISA é um grupo independente, porque não depende de nenhum partido, nenhum poder político mas dos seus accionistas. Mais vale sempre assumir-se com toda a transparência aquilo que se é e a abordagem que se tem, do que por baixo de uma capa de falsa independência e de falsa objectividade, fazer-se política disfarçada todos os dias.
Se em vez de ser a PRISA a operar em Portugal, fosse a empresa proprietária do El Mundo que lhe fizesse um convite idêntico, aceitava?
Não. Porque, das pessoas que conheço - e conheço os principais executivos e accionistas da PRISA - partilho com eles, de muitas conversas que temos tido há muito tempo e ao longo dos anos, uma visão sobre o que é e o que deve ser, no quadro da economia global e da construção europeia, o que é e o que deve ser o aprofundamento das relações, em todos os domínios e nomeadamente no domínio cultural, entre Portugal e Espanha. Sei que esse é um tema recorrente, em termos políticos, quando se trata de assumir por inteiro o nosso projecto europeu comum. Mas um tema que nesse domínio vejo muito pouco abordado, muito pouco reflectido e muito pouco comentado é esta questão: a profunda alteração que as relações bilaterais entre Portugal e Espanha, em todos os domínios - político, económico e comunicacional -, sofreram depois da nossa comum e feliz entrada na CEE e na UE. Portugal e Espanha eram países que sendo vizinhos, tendo tido ao longo de muitas décadas duas ditaduras de matriz fascista na Península Ibérica, apesar desses factores de proximidade geográfica e apesar desses factores também de proximidade política entre os poderes políticos dos dois países numa certa fase da história, viviam de costas voltadas. Nomeadamente no plano económico. Portugal e a Espanha, antes da democracia ter triunfado nos dois países e antes da comum e feliz adesão à CEE, eram do ponto de vista económico e das relações económicas uma situação atípica e até anormal entre dois países diferentes. Hoje a realidade é diferente. Portugal e Espanha, além de estarmos a partilhar e a construir em comum o nosso destino europeu, também do ponto de vista económico são dois países que têm aprofundado e entrelaçado as relações, não só a nível político, não só a nível de topo, mas no dia-a-dia das empresas e das universidades. Por exemplo, as relações crescentes de intercâmbio e de partenariado que há entre a Universidade de Coimbra e a Universidade de Salamanca, e muitas outras instituições. Não é por acaso que Portugal é hoje o principal fornecedor e principal cliente da economia espanhola. Assim como não é por acaso que, sendo embora muito conhecido, o papel das relações económicas entre a Espanha e todos os países da América Latina, também não é por acaso, apesar de ser pouco conhecido, que já há vários anos a Espanha exporta mais para Portugal do que para toda a América Latina. Indo à sua questão, evidentemente que a aceitação deste convite, que é muito honroso para mim, reflecte essa partilha de visão que sinto, não tanto pela leitura do El País ou de outros órgãos de comunicação social onde a PRISA tem a posição que se conhece em Espanha, mas pelo conhecimento pessoal que tenho, muito fraterno e muito amigo com Juan Luis Cebrian, com Manuel Polanco, com Jesus Polanco, com Ignácio Santillana, que tive a oportunidade e o prazer de ao longo dos últimos anos conhecer. E conhecer principalmente o que pensam e a visão que têm. E essa visão e esse pensamento se exprime também na sua actividade.
Em síntese, este convite surge dessa amizade mas tem também uma componente ideológica?
Creio que o convite também tem essa motivação e não tenho dúvidas, porque essa é a parte que me toca, da minha parte a sua aceitação tem, entre outros, esse pressuposto.
É um convite de um projecto empresarial que tem um objectivo político?
Não há nenhum projecto empresarial que não tenha objectivos políticos, nomeadamente no domínio da comunicação social. Aliás, percebo de alguns comentários que vejo na imprensa, que se quer atribuir um grande significado político ao facto, conforme foi escrito, de dois socialistas entrarem na administração da TVI, ou da Media Capital, e não se repare no óbvio. Por exemplo, o grupo a que o Expresso pertence é, e muito bem, presidido por um ex-primeiro-ministro, um dos fundadores do PSD, uma pessoa muito respeitável como é Francisco Pinto Balsemão, mas que tem essa qualificação política que só o honra e é também o presidente executivo do vosso grupo e também o seu principal accionista de referência. Portanto, não se queira atribuir uma espécie de "captius deminutius" a quem, avaliado pelo mercado e testado pelo mercado, é convidado para o exercício de funções profissionais sem qualquer objectivo partidário, mas assumindo de direito e de facto a sua condição de cidadão, incluindo a dimensão política da sua actividade, que no meu caso se prolongou durante 37 anos.
Numa altura em que muito se fala sobre a tentativa de controlo dos media por parte do PS, este convite e a sua aceitação não são mais um argumento a favor dessa tese?
Essa não só é uma questão recorrente como é, na minha opinião, uma das maiores fantasias da vida política e comunicacional portuguesa nas últimas semanas. É absolutamente inacreditável ou incredível, sabendo-se como se sabe a forma como o primeiro-ministro de Portugal tem sido qualificado e atacado pessoalmente na apreciação do dossiê que se conhece e que eu não quero comentar, que se diga que há um projecto ou que se diga que o PS domina os órgãos de comunicação social em Portugal. Não é nem será esse o caso. O PS é, por matriz ideológica e por "track record" da sua actividade enquanto agente político importante em Portugal, e sempre foi um defensor da liberdade de imprensa. Agora, ninguém pode nem ninguém deve estranhar que membros do PS, ou de pensamento político e ideológico à esquerda, por mérito profissional que lhes é reconhecido pelo mercado, não estamos a falar de nenhum decreto de lei nem de nenhuma ordem ministerial, as pessoas têm que se habituar, nomeadamente as pessoas que estranham que isso aconteça, que o mérito profissional não tem cor política. E, principalmente, não é uma espécie de direito divino adquirido por alguém ou por alguns por nascerem em determinados berços. Essa é uma visão do passado. É a visão de uma sociedade dominada e estratificada por castas que já não corresponde, e ainda bem, ao Portugal moderno em que vivemos.
Mas se é tudo tão simples assim, porque é que sentiu necessidade de se desvincular dos cargos políticos que desempenhava? Teve medo das críticas?
Como sabem, por exemplo em relação a outra actividade de gestão que tenho numa empresa de energia, nunca considerei, e essa foi a minha avaliação, que houvesse uma situação de incompatibilidade, nem legal nem operacional, em relação, ao exercício dessa actividade. Evidentemente que pertencer a um grupo, ser presidente do Conselho de Administração de um grupo de comunicação social que tem a dimensão da Media Capital, estar por via da estrutura accionista dessa empresa de alguma forma ligado e em cooperação com um dos maiores grupos de comunicação que existe à escala internacional, porque é isto que é a PRISA. Não é como por vezes se vê por aí caricaturado, uma empresa espanhola. É uma empresa multinacional, como a Iberdrola é uma empresa multinacional. Nasceram em Espanha, foi aí que se afirmaram e que se desenvolveram, mas têm uma visão e um projecto que é um projecto multinacional que procura valorizar e projectar a força da língua portuguesa no Brasil e a força da língua castelhana nos outros países da América Latina. Indo à sua questão. Difere a intensidade e a continuidade de fronteiras entre a actividade de comunicação e a actividade de apreciação política. Costuma-se dizer que política é tudo, comunicação também é tudo, e a intercepção destes dois tudo me levam a essa opção, que julgo ser correcta, necessária e transparente.
Na altura em que o ex-deputado do PSD Gonçalo Reis transitou directamente da Assembleia da República para a administração da RTP, o PS criticou fortemente esta opção do governo do então primeiro-ministro Durão Barroso. Nesta altura, o PS não tinha razão, como agora na situação que está a protagonizar, não se coloca uma questão de promiscuidade entre a política e a comunicação social?
É preciso não confundir duas coisas: uma grupo de comunicação social 100% privado de um grupo em que o accionista é o Estado. Aí naturalmente que a opção poderá ter e acredito que tenha tido como base as qualificações profissionais do Dr. Gonçalo Reis para o exercício das funções mas que pudesse trazer associado, como poderá acontecer em eventuais nomeações futuras que o Governo do PS possa indicar para a RTP, uma vez que o Conselho de Administração actual da RTP se mantém, e bem porque está a cumprir bem o seu mandato, continua a ser o mesmo que foi nomeado pelo Governo Durão Barroso. Mas a diferença essencial é que estou a ser convidado e aceitei o convite de uma empresa privada, multinacional e cotada. E aí cabe a mim e só a mim esta decisão e, como tive a oportunidade de dizer há uns meses atrás, e agora ainda com mais propriedade porque estou a sair da vida política, eu sou dono da minha vida. As minhas opções sou eu que tomo e não reconheço a ninguém nem aos jornalistas uma espécie de superioridade moral que lhes dê direito a fazer apreciações ético-morais sobre o comportamento de quem quer que seja. A ética numa relação que tenho com a política e com os cargos políticos que exerci é a ética da lei. Esta é que é a ética republicana. A alternativa de a ética da vida política ser discricionária, que qualquer um formula ao seu bel-prazer, esta tem sido sempre uma espécie de antecâmara do totalitarismo.
Quem precisa mais de uma matriz ideológica semelhante: um grupo público que tem diálogo directo com o seu accionista ou um grupo privado com um projecto empresarial que precisa ter diálogo com o governo?
Não tenho dúvidas, porque vivemos numa economia de mercado, que uma entidade privada, sobretudo cotada, com um conjunto estrito de regras a cumprir. Não quero fazer esta comparação. Não quero opinar sobre a resposta a esta situação por parte do accionista do Estado, mas acho normal que a diferente composição das maiorias políticas tenha repercussão nas políticas de comunicação que sejam seguidas. No que respeita, por exemplo, ao modelo de reestruturação da RTP/RDP, as medidas lançadas pelo Dr. Morais Sarmento tiveram êxito. E por isso o actual Governo, e quanto a mim bem, tem mantido e garantido ao Conselho de Administração, o caminho que então foi traçado. Mas isso, não é da minha conta.
Veria com normalidade a continuação da actual administração da RTP?
Essa é uma matéria que não respondo, até porque configuraria um pequeno pecadilho de conflito de interesses, na medida em que vou ser presidente não executivo da Media Capital, comentar a administração de outros grupos num sector onde vão estar. Mas, como cidadão, posso dizer que vejo que aquela reorientação empresarial da RTP/RDP e os seus resultados teve sentido para resolver um problema crónico. Sobre o conteúdo da informação da RTP, da TVI ou da SIC não quero ou penso me pronunciar sequer uma vez.
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