Henkel V6
Banido
O Rasec não é professor.Imagine que é professor, que é dia de exame do 12º ano e vai ter de fazer uma vigilância.
Já estou a imaginar!
Continue a imaginar. O despertador avariou durante a noite. Ou fica preso no elevador. Ou o seu filho, já à porta do infantário, vomitou o quente, pastoso, húmido e fétido pequeno-almoço em cima da sua imaculada camisa. Teve, portanto, de faltar à vigilância. Tem falta. Ora esta coisa de um professor ficar com faltas injustificadas é complicada, por isso convém justificá-la. A questão agora é: como justificá-la?
Ora, se sou uma pessoa de bem, e tive uma contrarieade que me impediu de exercer a minha profissão, então que diabo, que tal ser homenzinho uma vez na vida e assumir que tive um problema em vez de deitar as culpas para cima dos ombros dos outros?
Passemos então à parte divertida.
Passemos então.
A única justificação para o facto de ficar preso no elevador, do despertador avariar ou de não poder ir para uma sala do exame com a camisa vomitada, ababalhada e malcheirosa, é um atestado médico.
Errado, é assumir que não se é cumpridor da lei. Este senhor já se começa a assumir um ludibriador da lei...
Qualquer pessoa com um pouco de bom senso percebe que quem precisa aqui do atestado médico será o despertador ou o elevador. Mas não. Só uma doença poderá justificar a sua ausência na sala do exame. Vai ao médico. E, a partir deste momento, a situação deixa de ser divertida para passar a ser hilariante.
Hum... juro que me estou a esforçar, mas não consigo achar um mínimo de piada... quanto mais hilariante...
Chega-se ao médico com o ar mais saudável deste mundo. Enfim, com o sorriso de Jorge Gabriel misturado com o ar rosado do Gabriel Alves e a felicidade do padre Melícias. A partir deste momento mágico, gera-se um fenómeno que só pode ser explicado através de noções básicas da psicopatologia da vida quotidiana. Os mesmos que explicam uma hipnose colectiva em Felgueiras, o holocausto nazi ou o sucesso da TVI.
hum... este trecho soa a recalcamento... mas não me vou alongar!
O professor sabe que não está doente. O médico sabe que ele não está doente. O presidente do executivo sabe que ele não está doente. O director regional sabe que ele não está doente. O Ministério da Educação sabe que ele não está doente. O próprio legislador, que manda a um professor que fica preso no elevador apresentar um atestado médico, também sabe que o professor não está doente.
Como?? Isso é que é uma interpretação livre das leis deste país...
Ora, num país em que isto acontece, para além do despertador que não toca, do elevador parado e da camisa vomitada, é o próprio país que está doente.
Com cronistas assim, começo a acreditar que sim...
Um país assim, onde a mentira é legislada, só pode mesmo ser um país doente.
Vamos lá ver, a mentira em si não é patológica. Até pode ser racional, útil e eficaz em certas ocasiões. O que já será patológico é o desejo que temos de sermos enganados ou a capacidade para fingirmos que a mentira é verdade.
Ora diga lá outra vez? Mas desta vez refaça a frase!
Lá nesse aspecto somos um bom exemplo do que dizia Goebbels: uma mentira várias vezes repetida transforma-se numa verdade. Já Aristóteles percebia uma coisa muito engraçada: quando vamos ao teatro, vamos com o desejo e uma predisposição para sermos enganados. Mas isso é normal. Sabemos bem, depois de termos chorado baba e ranho a ver o "ET", que este é um boneco e que temos de poupar a baba e o ranho para outras ocasiões.
Está aqui explicado o recalcamento deste senhor, chorou baba e ranho a ver o ET, nem quero imaginar o que terá acontecido a ver o Titanic...
O problema é que em Portugal a ficção se confunde com a realidade.
Portugal é ele próprio uma produção fictícia, provavelmente mesmo desde D. Afonso Henriques, que Deus me perdoe. A começar pela política. Os nossos políticos são descaradamente mentirosos.Só que ninguém leva a mal porque já estamos habituados. Aliás, em Portugal é-se penalizado por falar verdade, mesmo que seja por boas razões, o que significa que em
Portugal não há boas razões para falar verdade.
Claro que neste aspecto, Portugal é diferente de todos os paises do mundo, principalmente desses dois gloriosos países onde nunca nenhum político mentiu, EUA e Inglaterra. Por isso, vamos dizer mal de Portugal e endeuzar as outras nações.
Se eu, num ambiente formal, disser a uma pessoa que tem uma nódoa na camisa, ela irá levar a mal. Fica ofendida. Se eu digo isso é para a ajudar, para que possa disfarçar a nódoa e não fazer má figura. Mas ela fica zangada comigo só porque eu vi a nódoa, sabe que eu sei que tem a nódoa e porque assumi perante ela que sei que tem a nódoa e que sei que ela sabe que eu sei.
Será que sim, engraçado, eu nestes casos agradeço e vou tentar remediar a situação... como será que este senhor se comporta na mesma situação?
Nós, portugueses, adoramos viver enganados, iludidos e achamos normal que assim seja. Por exemplo, lemos revistas sociais e ficamos derretidos (não falo do cérebro, mas de um plano emocional) ao vermos casais felicíssimos e com vidas de sonho. Pronto, sabemos que aquilo é tudo mentira, que muitos deles divorciam-se ao fim de três meses e que outros vivem um alcoolismo disfarçado. Mas adoramos fingir que aquilo é tudo verdade.
Engraçado, e eu a pensar que Portugal até tinha uma baixa taxa de penetração de revistas sociais comparativamente com outros países "tão mais evoluidos"... mas ok, se o senhor admite que adora viver enganado e iludido, a sua mulher que aproveite! Eu cá prefiro saber sempre a verdade, e para isso pesquiso, pergunto, procuro...
Somos pobres, mas vivemos como os alemães e os franceses. Somos ignorantes e culturalmente miseráveis, mas somos doutores e engenheiros. Fazemos malabarismos e contorcionismos financeiros, mas vamos passar férias a Fortaleza. Fazemos estádios caríssimos para dois ou três jogos em 15 dias, temos auto-estradas modernas e europeias, mas para ver passar, a seu lado, entulho, lixo, mato por limpar, eucaliptos, floresta queimada, barracões com chapas de zinco, casa horríveis e fábricas desactivadas.
Na Alemanha e na França não há pobres? Em Portugal são todos pobres? O senhor é ignorante? Eu não sou, muito menos sou culturalmente miserável... por isso se quiser falar por si, fale à vontade, mas deixe de falar por mim... Casas horríveis, engraçado, o seu texto também é horrível, e mais anda por aqui... serão as opiniões assim tão diferentes dos buracos do cu?
Portugal mente compulsivamente. Mente perante si próprio e mente perante o mundo.
Portugal não mente, Portugal fala sempre verdade a quem quiser ouvir, quem mente são estes miseráveis culturais que tentam subverter as leis a seu favor, querendo enganar os outros, e escrevendo textos pomposos de seguida tentando provar que 1+1=3!
Claro que não é um professor que falta à vigilância de um exame por ficar preso no elevador que precisa de um atestado médico.É Portugal que precisa, antes que comece a vomitar sobre si próprio.
Claro que não, esse professor, como todos os outros funcionários e trabalhadores deste país, só precisa de ser homenzinho...
Mas é santo...